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Todos eles dançam!

Olhou para cima, a senhora de lenço preto na cabeça acenava-lhe da janela, dançando ao som de uma música popular que ele nem gostava. Das outras janelas outras senhoras acenavam com a cabeça e de vez em quando alguém tentava disparar para o ar. Eram quase 8 da manhã, e alguém ainda queria dormir. Naquela rua era impossível.

Quando o fim do dia chegasse lá estaria ela de novo pronta lhe falar das vicissitudes da vida, das passeatas com o novo namorado à beira do lago, num jardim que havia por ali perto. Certo dia contara-lhe que tropeçara rebolando até à água suja e que o namorado, já nem ele sabia qual a salvara no ultimo instante, quando um pato se preparava para lhe ferrar o bico.

Por norma a hora de saída do Dario é às sete da manhã, outras vezes mais cedo e a razão são sempre o raio dos carros que o impedem de sonhar com a Francelina que conhecera alguns meses antes num bailarico do Santo António. Mas fosse para o que fosse o carro era sempre a solução, nem se atrevia a andar de transportes desde aquela viagem em que todos cheiravam mal e olhavam para ele como se ele fosse o E.T..

Então era preciso acelerar para lá do permitido, tornava-se mesmo desenfreado quando por algum motivo o despertador entrava no sonho em vez de o tirar de lá. Ultrapassava os limites, entrando nas condições necessárias da nomeação imediata para uma multa que lhe apareceria em casa alguns meses depois, numa altura menos apropriada de finanças. Valiam-lhe os indultos presidenciais que premiavam todos, desde o simples assassino ao vil criminoso que andava a 60 onde só se podia andar a 50, como se fosse possível a comparação. Tudo em nome de um Santos e próspero Natal como ele tinha formatado no hábito para dizer aos clientes.

Mas um dia acordou sobressaltado, duas horas antes do galo cantar, do despertador o fazer arrefecer a mão de nove em nove minutos. Tudo feito à pressa, até contra o canto no móvel da entrada ele foi com o calcanhar. A manhã começara com o calcanhar esquerdo.
Era tarde, mas um banho rápido e um copo de leite frio davam para recompor a situação. Em vão. Ao sair de casa tropeçou no Jardim da Celeste da vizinha, desajeitou a gravata e entortou os óculos escuros que lhe escondiam as olheiras fundas da noite mal dormida.

Chegou trôpego à rua, ajeitou-se o melhor possível, mas não evitou uma chuvada repentina que o molhou todo a caminho do carro.

A dor de cabeça instalou-se, os olhos, inchados do sono não permitiam ainda ver a estrada com clareza, o calcanhar doía que se fartava e a rádio só passava música formatada. Decerto que alguns mortos viraram-se na urna com a industrial quantidade de asneiras que ele vociferou. O calcanhar doía-lhe e nem o pedal carregava como deve ser. Eram azares a mais em tão pouco tempo.

Quinhentos metros à frente, deu-se o imprevisto, se é que ainda se podia em falar de algo pior. De vez em quando havia tourada no asfalto, saltando partes de corpo de um lado para o outro, fazendo o sangue jorrar em liberdade alucinada. Lá pegou no telemóvel a dizer que o trânsito estava infernal, com um a voz enfadada do outro lado a chamá-lo de mentiroso e a preparar-lhe algo para o aborrecer, ele sabia-o mas não queria saber.

A poça de sangue aumentava cada vez mais cobrindo a cabeça como se houvesse lugar a aureolas encarnadas. O dia estava mau, tinha chovido e aquilo tinha acontecido quase no instante em que ele entrara para o carro. A temperatura à volta era de 10 graus, normal para um dia de Fevereiro.

Vinda do nada, uma mão posou no seu ombro, gelou, ficando paralisado de medo. Sem nada o fazer prever a mão começou a mexer-se ao ritmo do Waterloo dos Abba e ambos começaram a cantar... passou-lhe o medo por meros segundos.

De repente lembrou-se que tinha o carro trancado, os vidros subidos, como era possível aquilo estar a acontecer? 'Waterloo' e deram uns passinhos de dança, ele sentado, a mão a fazer piruetas no seu ombro. Depois tirou a mão do ombro, abriu a janela e mandou-a contra o carro que estava estacionado do seu lado direito, a mão foi ter com o corpo que jazia mais à frente.

Mal fechou o vidro sentiu uma energia estranha percorrer-lhe o corpo, ao mesmo tempo sentia o coração a querer sair do peito. Algo o destabilizava com muita força e não conseguia perceber o porquê de nada.

Olhou de novo para a estrada, desligou o rádio, mas este continuou a tocar, uma música que nunca ouvira na rádio... Funeral in the Rain

- Ora bolas já não chega o que me aconteceu e ainda há funerais à chuva... raios partam o rádio que nem desligado se cala...

e olhou com mais atenção para a frente, parecia-lhe ver o homem da poça de sangue a virar-se para trás, apontando para Dario

- Agora é que isto está bonito... o morto ressuscitou...

e depois todos os que estavam à sua volta viraram-se para trás e começaram uma coreografia ... 'In the navy' ... os olhos revirados e começaram a morder-se uns aos outros.

Dario sentiu-se possuído pelo demónio, um espírito maligno tomou conta do seu corpo entrando-lhe pelo dedo anelar que já não tinha a marca de casado. Os seus músculos contorceram-se, os olhos avermelhados gotejavam sangue dos sacos lacrimais. O horror do fim da rua havia entrado dentro dele. Berrou, bem alto

- 'Balck hole sun won't you come, won't you come!!!'

e os desvairados da armada viraram-se para trás, o homem da poça de sangue levantou-se e cuspiu um dente, e começaram a correr feitos zombies rumo ao carro de Dario, que uivava de dor. Rebentou com a porta e saiu, a roupa rasgada do brutal aumento da sua constituição física. Deu um berro ainda maior e abriu-se uma cratera de vários metros. Os prédios à volta desmoronaram-se como um baralho de cartas assoprado pelo vento. Como estavam todos cá fora no fandango da ida para o trabalho, ninguém morreu, nem o homem das apostas pode fazer negócio até porque tinha os olhos revirados.

Tomado pelo demónio que encontrara abrigo no seu corpo, Dario libertou a besta que tinha dentro de si, expulsando rios inteiros de veneno acumulado em anos de pura frustração diária, que, pensava ele estavam esquecidas. A boca mal cheirosa dos que tinham virado zombies rodeava-o num perigoso torpor que ia destruindo tudo por onde passava.

Abriu os olhos, os rios de veneno tinham-se transformado em sangue vermelho escuro, engrossado como a lava ardente a descer do vulcão rumo ao mar. Olhou para trás e o homem da poça de sangue estava quase a alcançá-lo, lançado o fedor vindo da sua boca que faria as delícias da conta bancária de qualquer dentista. Como se fosse dono do tempo, Dario parou-o no ar, deixando-o suspenso, apenas lúcido para o que se seguiria. Investigou cada pedaço do seu corpo, sentindo a sua alma em tons avançados de imbecilidade, já afligia tantas parvoíce sem nexo. Dario tomou consciência dos seus poderes ao pensar algo e ver isso acontecer ao idiota que ressuscitara para atormentar a vida de um incauto que apenas ia todos os dias para o trabalho.

- Toma lá palhaço!

Puxou de um cigarro, ele que nunca fumara e começou a pregar pregos no seu caixão, feliz e contente deixou-se levar pelo vento.

2
Após deambular pelos céus da sua terra feia, encontrou um profeta, vestido de saias e laçarote no cabelo, parecia um travesti sofisticado, se é que os há. Atrás dele vinha a armada gay a cantar o 'In the navy'

- Queres ver... outra vez?

parecia uma reunião de uma qualquer seita que promove casamentos ao som de guitarras eléctricas enquanto recolhiam o dizimo. Ignorou-os, apenas queria perguntar uma coisa ao profeta de saias, já tinha percebido que as escrituras dele não eram sagradas, apenas dizimar ordenados era a felicidade que lhe sublimava a mente perversa. Mostrou-se pudico, o que era curioso rodeado como estava da armada das paradas gays.

Dario apenas queria perguntar uma coisa ao profeta, que trazia um distintivo onde se podia ler o nome dele: Tiriririkatakicatali Kanelony. Parecia um anúncio a qualquer prato de massas, mas era apenas um profeta.

- Kanelas, filho chega aqui ao pai! - Dario de cigarro no canto da boca, em pose de marialva de Alfama, ele que era da Mouraria-

- O mundo, o mundo está perdido na quinta rua...

- Eh pá! Na quinta rua?

- O Senhor meu deus, Eu, previu tudo e é nesta cidade que tudo vai acontecer

- Tinha que ser aqui... põe-te a andar desgraçado, se eu penso tu pões-te a andar, ouviste ó meu?

- Caluda! Chegai aqui Portifozzio, filho de Frenéticus, parai de dar ao rabo e chegai aqui!

- Acho que tens razão pá! O mundo está mesmo perdido!

- Chegai aqui que tenho carne fresca para vós!

- E esse bando de....

Fez-se silêncio por um breve instante. Sem aviso, apareceu uma luz vinda do nada e milhões de pardais, nascidos, renascidos ou apenas idos, apareceram num devir inacreditável exterminando todo o mal que proliferava num raio de cinco quilómetros. Durou trinta segundos a invasão. Quando o silêncio se reinstalou, estavam todos espalhados no chão, e surpreendentemente foram-se levantando, sob a forma de fadas encantadas.

Por instantes Dario abandonou o corpo, seguindo pelo ar com as fadas em redor. Olhou para baixo e o corpo mexia-se, como se fosse normal seguir pela vida sem alma. O fim da vida não se resumia à morte, às ambições compactadas nas traseiras de um carro negro. Não a vida tal como existia ainda era pior que a morte e uma série de episódios caricatos, absurdos estavam a tomar conta daquela realidade.

Sem aviso, Dario foi tomado de uma qualquer luz e começou a entender o papel de Tiriririkatakicatali Kanelony e da armada gay que o acompanhava. Apenas queriam acabar com a nausea do mundo, torná-lo desértico de emoções, de encanto e instalar a confusão que levasse à paralisia da estupidez nos humanos.

Em primeiro lugar, tudo estava invertido, o profeta era uma mulher, linda de morrer, o que provocava a morte nalguns incautos que a olhavam sem ser nos olhos, com a língua de fora, tipo cachorrinhos. Era mesmo deslumbrante, viciante e Dario quando começou a perceber o mulherão que tinha ali, escondeu-se e fez um esforço danado para deixar a língua dentro da boca, não fosse ser pulverizado pela Dama de Sonho. Afinal os gays, eram mulheres mascaradas e não cantavam 'In the navy', apenas um hino feminista qualquer.

O ex profeta, promovido a deusa maravilhosa era feito(a) de chocolate, que apenas funcionava se derretido na boca, sendo regenerada de imediato. Quem tinha o prazer de provar esse chocolate ganhava a entrada permanente para o Céu dos pardais.

- És muita boa! - Dario com a sua corrente de ouro, fato a rigor e gravata desajeitada pisava o risco sempre com deselegância... - e tens nome?

- Ai que te pulverizo todo! - e pegou no mata moscas só que parecia não funcionar em Dario, pegou numa catana e Dario pôs-se a milhas -

Pronto, pronto, eu conto:

Ela chama-se Tiriririka, assim, apenas Tiriririka, descendente de aliens que se apaixonaram nas barracas da Amadora e se casaram numa escalada à Torre Eifell, em pleno Agosto perto da hora de almoço, sem lugar reservado. Ao mesmo tempo os pais dela, viviam vidas aprazíveis no crime organizado, nomeadamente assaltos à mão armada. A polícia e o sistema penal eram tão previsíveis que mesmo que os apanhassem, eles saíam rapidamente em liberdade e lá iam assaltar moradias faustosas, de preferência com alarmes sofisticados, eram sempre as que davam mais prazer.

Ambos se fartaram da estupidez dos humanos e regressaram ao seu planeta longínquo nas férias, deixando para trás a filha, como se deixa o cão ou o gato depois de crescido, só porque já dava chatice. Deram-lhe o nome de Tiriririka e de vez em quando quem a via pensava que era um Tiriririco. Assentou arraiais na Amadora, subúrbio de Lisboa de má fama! A pior cidade para viver em Portugal segundo diziam, os senhores que mandam. Tudo ia parar à Amadora. Tudo menos a paz e o sossego. até a tela de pintura de mais de 4.000 metros que a tinha posto no Guiness era esquecida só para falar mal.

- Estou? Daqui é o Dario, é só para dizer que há uma manifestação por aqui e que não tenho por onde sair!
- Eu moro mais longe que você e já cá estou! Tem que se começar a levantar mais cedo!
- Quer que eu vá dormir para aí? Vá-se lixar sua....!

E os anjos e as fadas. Todos eles dançam lá em cima, aqui ao lado. Sim aqui ao lado, não os vemos mas eles andam por aqui, se se concentrarem podem senti-los... mas cuidado, muito cuidado com a salamandras...
Manuel Marques
Enviado por Manuel Marques em 17/09/2007
Reeditado em 12/08/2010
Código do texto: T655779

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Sobre o autor
Manuel Marques
Espanha, 45 anos
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Manuel Marques