Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

As Árvores

     Simão viajou para o futuro, não sei como e muito menos  porque. Lá não encontrou um cenário de filme de ficção científica, como hoje seria de se esperar, encontrou-se próximo à uma árvore, que reinava soberana em meio à gramíneas ralas e finas. Assim como eu, Simão também não entendia nada sobre botânica, mas sabia que aquela árvore estava mal cuidada, pois seus galhos enormes, de tão envergados, pareciam rachar com o próprio peso, implorando para  que alguém os podasse. Reparou então na construção que o cercavam, o local parecia, e depois descobriu que realmente era, um condomínio velho, as paredes cinzas eram revestidas com pastilhas, que ou estavam soltando-se ou já haviam caído, revelando o reboco quase da mesma cor. Imaginava estar no que fora outrora a área de lazer, mas faltavam os bancos, churrasqueiras e a pracinha, tudo que havia era aquela árvore e o mato que algum morador esquizofrenicamente sentimental poderia chamar de grama.

     Notou alguém, era uma jovem na segunda metade dos vinte, aproximava-se numa quietude quase macabra, tinha as roupas ainda mais discretas que seus movimentos, usando calça e camisa de oxford, ambos marrom ou bege, seu cabelo grande, mesmo amarrado, parecia nunca ter sido cortado, e carregava uma pá. Acenou com a mão ao viajante, contornou a árvore estoicamente e cravou sua ferramenta no chão com perícia. Mais três golpes contra solo e raízes, então tirou do bolso um saco de lixo, onde colocou a leiva e a terra que se soltara. Simão, com a curiosidade que era pré-requisito de sua profissão, queria puxar conversa, porém perdeu a iniciativa para ela:

     —  Lá na sua cohab tem árvore?

     — Tem sim. — Respondeu de bate-pronto.

     A moça olhou incrédula.

    — Quem foi que plantou?

    — O sindi... quer dizer, nem sei, quando eu cheguei já tava lá. — Notara que havia sido pego na mentira, mas não sabia nem onde nem quando estava, logo não podia se dar ao luxo de confiar sequer naquela moça, mesmo parecendo inofensiva, ela tinha em mãos uma pá.
      Ela deu um nó no saco e o largou no chão, ficando de pé.
    — E onde é que você mora? Fiquei sabendo que aqui na zona sul só nosso bairro que tem árvore.
   — Eu sou da norte, lá até que é bem arborizado. — disse coçando a nuca.
   — Nossa, eu achava que a desertificação tinha sido mais grave, que bom que já conseguiram reflorestar um bairro inteiro.
  — A gente desenvolveu sementes transgênicas que fazem as plantas terem raízes bem mais profundas, chegando até mesmo aos aquíferos, se for o caso de não encontrarem água antes.

 Orgulhou-se da própria ficção improvisada. Agora, com sua história consertada, queria saber mais sobre a moça e também sobre aquela época.

     — Meu nome é Simão, sou físico teórico, meus pais também eram cientistas então eu praticamente nasci em um laboratório, consegue imaginar só? E qual o seu nome?

    — Legal, eu sou a Lú — disse apertando desajeitadamente as mãos do cientista. Com a proximidade ele notou que ela era mais alta que ele, era magra, mas ossuda, tinha (ou terá?) dedos compridos e de tamanhos irregulares — eu também nunca saí daqui. Quando vejo alguém de fora, o que acontece muito lá de vez em quando, dou uma muda pra pessoa levar e plantar, acho que essa árvore deve ter algo especial, por conseguir se manter por aqui.

   — Falando nisso quantas pessoas moram nesse “cohab”?

   — Não sei, umas vinte?
 
   Simão deu de ombros pois já imaginara que ela não tinha noção disso. Olhou seu relógio, restava-lhe pouco tempo, atualmente seu invento lhe permitia apenas breve momentos no futuro, então precisava ser rápido:

   — Sabe, como meus pais eram cientistas, eu foi criado como o Stuart Mill, entende?
 
    Ela apenas sacudiu a cabeça em curtos movimentos de negativa.

   — Eu ficava só em casa, estudando, não tinha nenhum contato com o mundo exterior, sabe? Então eu só conheço o que os meus livros falavam, algo até dois mil e vinte, mais ou menos — ela sequer piscava — E hoje eu finalmente consegui fugir da minha casa-prisão.

    Lú queria falar algo, mas não sabia o que. Houve um momento de silêncio, o viajante respirou fundo e então percebeu como o ar ali era seco e quente.

   — Dois mil e vinte ainda tinha internet, ou só os radinhos mesmo?

  — Tinha internet. — Obteve a segunda informação importante sobre  o futuro.

   — Você gosta de ouvir rádio? Que tipo de música? E o Ocupe-se, ainda existia? Meu pai me falava disso. Ei, seu nariz tá sangrando! — Mudou logo de curiosidade para outra expressão que o cientista não entendia, aproximou-se com a mão esquerda no bolso à procura de algo. Simão passou o dedo e viu seu sangue capilar, que destoava das cores pasteurizadas daquele futuro. Ela esticou seu longo braço e limpou uma parte do sangue, com um desajeitado gesto de caridade, quase pediu pra ela se afastar, mas então reparou em seus olhos, verdes escuros, lembravam-lhe o interior das uvas, pensou até em trocar a assimilação por algum mineral, o que seria mais científico, mas não conseguiu, pois o símbolo da uva verde partida ao meio vinha de algum natal de sua infância. “Uva  cristalizada!” Sua mente chegou num consenso.  Ao fim destes pensamentos ela havia terminado de limpa-lo. Não lembrava de um estranho ter sido tão gentil com ele antes, será que o clima hostil do futuro tornou as pessoas mais afáveis? Provavelmente não.

     — Obrigado, o que é Ocupa-se? Perguntou, ainda próximos.

    — Não sei direito, era uma espécie de mistura de escravidão com trabalho, as pessoas passavam oito horas por dias em fabricas montando coisas que nem sabiam o que seriam. — escorou-se na pá como uma muleta —  É do tempo do meu pai, ele diz que cada cidade tinha sua fábrica, é que serviam só pras pessoas não ficarem em casa pensando bobagem. Antes disso ele retirava tocos de árvores.

  Simão olhava os lábios dela enquanto falava, eram largos e go inferior era grosso, ela não usava batom. Tentou concentrar-se no panorama que estava montando sobre aquela época, não conseguiu.

    — Essa muda era pra mim, correto? Disse apontando para o saco de lixo.

    — Sim, mas lá onde você vive já tem, né?

    — Sim, mas não dessa variedade, eu vou aceitar o presente.

     Ela voltou feliz até a muda e abaixou-se para pega-la de uma forma que o cientista teve medo de confundir com insinuação. Voltou, esticou-lhe os braços com um sorriso, entregando o pacote. Ela olhava em seus olhos, ele sentia-se desconfortável, passava do meio dia, a sombra da árvore os abandonava e sol o começava a iluminar os rostos, dissipando aquele manto platônico que a imaginação usa para completar o que é visto parcialmente. O relógio de Simão apitou, tinha que arrumar logo um lugar discreto, pois logo seria puxado de volta.

     — Eu preciso ir, nem lembro mais onde é a saída.
 
    — Eu te levo. — Disse ela enlaçando seu braço ao dele.
 
    O lugar não tinha portaria, nem mesmo portão, apenas um grande portal aberto. Lá fora via uma paisagem que lhe lembrava as reportagens sobre o sertão nordestino que via no Globo Repórter.
 
    — Aparece. — Disse e beijou-lhe a face. Virou-se de costas e voltou àquele obelisco habitacional grotesco, sem dar chance pra resposta.

    Simão sentia o estômago embrulhado, a pele coçando, contornou externamente os muros do local até finalmente encontrar um canto que poderia se esconder, uma fenda no muro, um floreio da arquitetura modernista.  O chute de volta foi rápido mas violento, caiu com náuseas fortes e vomitou, compararia aquilo tudo com a ressaca de uma bebedeira homérica, mas nunca experimentara esta sensação. Com sua queda o saco com a muda se abriu, derramando quase todo seu conteúdo. Viu em meio à terra um artefato humanoide, “este artefato pode ser de praticamente qualquer época”, pensou, esfregou a terra com as mãos e até com a própria camisa, sentia a textura de plástico, notou que usava um elmo, Simão o conhecia muito bem. Procurou a torneira mais próxima, ainda não acreditando no que acabara de encontrar, lhe deu um jato de água sem dó revelando a temível figura negra que ele imaginava que seria: seu Darth Vader Argentino raríssimo. Sentiu-se triste pelo estado da figura, mas depois lembrou-se que ainda tinha o seu de seu tempo. Mesmo sujo foi até seu quarto, olhou, revirou a estante e não o encontrou, procurou por cima, arrastou-a, mesmo pesada, e procurou atrás dela, nada. Cansadoe trsite, sentou-se na cama. Pode haver unicamente uma unidade de cada ser ou objeto em todo o tempo? Seu Darth Vader bem conservado foi para o futuro? O que houve com o Simão do futuro,  quando ele fora para lá? Isso se naquela época ele ainda estivesse vivo. A cada segundo uma nova pergunta, e raramente alguma conclusão saltavam em sua cabeça. Olhou pela janela, lá estava a muda da árvore, esparramada sobre o chão, onde cresceria uma arvore, e ao seu redor cresceria um condomínio. ,” Então fui eu que plantei ela? Ou será que foi outra pessoa?” Foi para o banho, estava em estado deplorável. Se outro a plantou ou plantará a árvore, eu a plantando, caso ela cresça, impedira dessa pessoa plantar outra árvore no mesmo lugar. Mas e se fui eu, e me abster disso? Nunca conhecerei a Lú, nada do que eu vivi hoje será real.” Saiu do Banho e ligou o Rádio para se distrair, mas passava A Voz do Brasil:

     “O governo federal anunciou nesta tarde a criação do programa nacional para a recolocação no mercado de trabalho, o Ocupe-se. O projeto busca reintegrar no mercado de trabalho profissionais que tiveram seus postos de trabalho extintos devido a processos de informatização. Na primeira fase desse projeto haverão parcerias público-privadas com empresas de reflorestamento e silvicultura, estima-se a criação de três milhões de novas vagas de emprego, além do aumento de até vinte e um porcento na produção de celulose nos próximos quinze anos”.
Felipe Ferrão Silva
Enviado por Felipe Ferrão Silva em 03/12/2019
Reeditado em 05/12/2019
Código do texto: T6810170
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Por Felipe Ferrão). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

Comentários

Sobre o autor
Felipe Ferrão Silva
General Câmara - Rio Grande do Sul - Brasil, 30 anos
19 textos (632 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 13/12/19 08:07)
Felipe Ferrão Silva