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Sob as areias vermelhas - Cavadores


Laion era uma pessoa incansável, um guerreiro em todos os sentidos possíveis. Nunca desistira de sua vida e daqueles que sob sua responsabilidade se colocaram. Mas nos últimos tempos, ele andava no limite.

A vida estava se tornando cada vez mais cara e por isso ele não parava mais de trabalhar. Tinha um emprego razoavelmente estável nas minas de ferro do Monte Arsia, em Marte. Mas há muito tempo tal estabilidade vinha lhe custando a alma. A companhia entrara numa competição acirrada com uma rival e investira pesado num consórcio de mineração de asteróides no Cinturão. Descobriram ouro por lá, era o boato. Isto exigiu coragem da alta cúpula. E dinheiro, muito dinheiro. Os bancos, todos localizados na Terra, com seus executivos engravatados contemplando diariamente o céu azul não eram muito sensíveis à "gentalha enferrujada", como eles se referiam aos trabalhadores de Marte. Demissões, atrasos de pagamento e redução de benefícios se tornaram costumeiros.

Laion apertou os cintos, fez uns cursos e tem conseguido sobreviver na Mining Mars, realizando o trabalho que antes era feito por três pessoas. Tempos de vacas magras, mas pelo menos algumas garantias trabalhistas. A renda, ele deu um jeito de completar. Conseguiu um emprego de meio período num extrator atmosférico nas camadas médias de Vênus e tem sido contratado com frequência para empreitadas de montagem na Lua. Essas empreitadas é que faziam seu orçamento respirar. Geralmente pegava jornadas de turnos noturnos, às vezes fazendo até 12 horas seguidas. Uma empresa francesa estava trabalhando num ambicioso projeto de construção de docas planetárias na Lua. A estrutura toda serviria de entreposto comercial. A promessa era que quando a gigantesca cidade mercantil lunar estivesse pronta o tempo de viagem interplanetária para os cargueiros teriam redução de até 40%. Mais velocidade, menos custos, matéria prima mais barata.

Dois empregos, um em cada planeta e ainda as empreitadas da Lua, o dia de Laion era terrivelmente cansativo. Estava começando a ficar doente. A memória começava a falhar, ele precisava dormir. Não teve escolha, pôs Bertha e Ben, os filhos, para trabalhar no seu lugar. Conseguia com isso algumas horas de sono.

Dormia mal, o medo que os filhos fizessem alguma bobagem e destruíssem a unidade mineradora era muito grande. Gertha já se tornara habilidosa, porém Ben era incontrolavelmente curioso. E foi a curiosidade de Ben que mudou tudo.

Naquele dia, Bertha tomou café da manhã e pôs-se diante do computador para ter sua aula. Lá fora o belo céu azul convidativo da Terra fazia a aula parecer um suplício. A garota queria sair, mas não podia.

Muito distante dali, onde o céu é vermelho e o chão enferrujado, o operário Laion teve seus equipamentos acionados. Parecia mais bem disposto que de costume, os companheiros estranharam.

- Você não falou que estava em três empregos, Laion? - perguntou um deles - Você é mesmo um contador de vantagem.

A voz por trás do equipamento de emissão de som não respondeu, mas fez um aceno positivo com o braço. Laion estava estranho. Sempre falava muito, mas naquele dia estava apenas concentrado no trabalho.

Terminou tudo antes do meio dia, o que era um ritmo incrível, visto que o dia em Marte é bem menor que na Terra.

- Vai voltar pra casa mais cedo hoje heim, bonitão? - disse o amigo. Mas quando olhou, o operário Laion não estava mais ali. Desaparecera.

Uma tempestade se anunciava no horizonte. E as tempestades de Marte não eram para amadores. Raios e trovões eram amplamente percebidos pelos equipamentos captadores de som.

- Tudo bem, pessoal. Chega por hoje. - disse o homem por trás do gigantesco equipamento de pinças. Ele parecia um robô alienígena crustáceo, daqueles de ficção científica antiga. O cara quando aparecia era tão grande que eclipsava o sol quando passava na frente. E olha que sol de Marte já é uma coisa meio desanimada. - Melhor produzir menos do que perdermos todo equipamento e ter que começar do zero. Todos pro abrigo.

O abrigo era uma instalação subterrânea empoeirada e de péssimo gosto. Ninguém com senso estético comandava aquele lugar há anos. As pessoas se sentiam dentro de um buraco de rato. Marte não é lugar de gente, ele costumava pensar. O que fazia muito sentido, a exploração do planeta vermelho só deslanchou de vez pra livrar a Terra dos impactos da atividade mineradora.

Todos entraram. Exceto um, o operário Laion.

- Cadê o cara? Vocês perderam o cara lá em cima. Puta merda, Jofrey! O comitê vai acabar com a nossa raça.

- Mas chefe, ele estava com a gente...

- Eu não quero saber de desculpas. Você é pago só pra tomar conta do trabalho dos outros e nem isso você faz direito, seu bundão.

- Senhor, - um terceiro operário interviu - ele está falando a verdade. Eu sou prova viva disso. Estava conversando com o cara e de repente, quando me virei, ele não estava mais lá. Sumiu como se tragado pelo deserto.

- "Tragado pelo deserto", eu mereço isso. Venho trabalhar nesse inferno sujo, deixo pra trás uma vida na Terra pra comandar um bando de lerdos... Vocês sabiam que eu era poeta? – todo dia ele repetia essa ladainha – Poderia estar fazendo sucesso no coração da gente bonita que vive sob o céu azul, mas to aqui, neste lugar horroroso, aturando gente feia e burra. Eu mereço...

O engenheiro chefe gostava de reclamar. É verdade que ele fizera alguns poemas, mas secretamente ele sabia que Marte e a companhia foram seu bote salva vidas.

Longe do abrigo, no grande deserto ao redor do Monte Arsia, um operário solitário tinha um encontro em outro abrigo subterrâneo. O lugar era assustador. Eram instalações antigas que a Mining Mars abandonou logo no início da exploração devido a erros de projeto. Se não servia para extrair os preciosos materiais do subsolo marciano, servia como antro para dissidentes ambiciosos.

- Liana.

- Presente.

- Karen, Dimitri, Silva. - e mãos se levantavam no meio da corja.

- Francis, Luga e...- Ah, tem gente nova aqui? - Laion. Cadê Laion? - e a chefe varreu por completo o antro mal iluminado a procura do novato. Uma braço timidamente se levantou no meio da multidão.

- Excelente! Então estão todos aqui. Laion, como posso saber se você não é espião?

A voz rouca que saía do auto falante do equipamento de mineração foi sucinta: "Silva me chamou". Do outro lado do covil, o tal Silva confirmou meneando a cabeça positivamente.

- Ok, então. Vamos ao plano. Quando a tempestade passar, será troca de turno na mina, vamos pegar aqueles otários com a guarda baixa. O plano é simples. Entrar, pegar os equipamentos e voltar correndo pro covil. Prestem atenção, sejam sutis e eficazes como sempre. - ela agora aumentava o tom do discurso - Eu quero mais um sucesso. E quem somos nós?

- OS CAVADORES! - disse a multidão em uníssono.

- Então liguem o rock'n roll nas suas unidades. Eu quero ver sangue nessas veias, mineradores.

A multidão estava definitivamente estimulada por sua líder. Amarna sabia fazer discursos empolgantes, mas sabia o risco que corria. Tinha um segredo no planeta azul, um segredo que não podia revelar.

Lá no fundo da assembleia o operário Laion tremia, mas não podia deixar os outros perceberem a insegurança na sua voz. Por isso mais uma vez decidiu não dizer nada e apenas seguir o fluxo. Começava a se arrepender de sua decisão. Participara daquela reunião por extrema insistência de um amigo, na escola. E se alguma coisa desse errado, seu pai é que seria punido.

Algumas horas depois, no plácido planeta azul, Laion, o operário, despertava ao som desesperado da campainha. "Deus! Estou dormindo há horas. Perdi o turno". E saiu correndo até a câmara de expediente.

Quando chegou ao local encontrou tudo revirado, o capacete de transmissão neural da unidade marciana caído no chão e os controles periféricos ainda balançando, pendurados à cadeira de comando da unidade mineradora remota. Alguém saiu às pressas da câmara de expediente, largando tudo de qualquer maneira. A unidade venusiana e a lunar permaneciam como ele deixou.

- Diga ao seu pai que nós sentimos muito pela unidade dele. - disse uma voz formal do lado de fora da câmara. – Marte está violento demais, o governo não tem firmeza com esses marginais.
- Tudo bem. - a voz do filho - Ele agora está descansando, quando acordar dou o recado do senhor.
- Diga a ele que as atividades da companhia estão encerradas pelo resto do ano. Tivemos problemas. Os cavadores atacaram. Foi destruição total. Peça para nos procurar, temos que pagar os direitos dele.

Laion ouvia tudo aquilo com atenção. Perplexo, sentou-se, pôs o capacete, vestiu as manoplas periféricas e iniciou a contagem regressiva. Queria olhar com os próprios olhos que diabos acontecera enquanto ele dormia. Como num passe de mágica, a Terra desapareceu e sua mente ligou na unidade mineradora milhões de quilômetros dali, no planeta vermelho.

A unidade acordou num galpão escuro. Uma grande confusão acontecera por ali. Era noite e noite marciana, ou seja, tudo é muito mais escuro, empoeirado e confuso. Tinha equipamentos destruídos por toda parte. Aqui e ali alguns fios soltavam faíscas elétricas anunciando uma possível explosão. Ele ligou os sensores olfativos da unidade. O cheiro de fumaça estava por toda parte.

- Dessa vez eu quero pagamento em dobro. - disse uma voz feminina em tom de exigência. Ele ouvia tudo atrás de uma parede de metal.

- Tudo bem, é justo. Você talvez tenha resolvido todos os nossos problemas. A seguradora na Terra vai nos ressarcir equipamentos inteiramente novos. Como a coisa toda foi pra mídia, eles aproveitaram pra fazer propaganda de sua eficiência. Nos asseguraram que já fecharam um contrato com uma montadora na Lua. Com isso, a gente dá um tempo por aqui e se concentra no ouro do Cinturão. Quando a seguradora arrumar toda a bagunça, você devolve o que conseguiu salvar, incluindo as unidades operárias. Vamos reaproveitar tudo e ainda estar mais bem equipado.

- Vou montar uma firma de manutenção de unidades. Quero um contrato de vinte anos com vocês.

- Parece uma boa parceria. – dizia o homem – Sempre lembrando que às vezes podemos precisar dos seus servicinhos não oficiais. – a voz agora metálica, ria empolgada.

- Sempre bom negociar com a Mars Mining. Com vocês não tem frescura.

Laion olhou ao redor em busca de mais alguém que servisse de testemunha daquele acordo escuso. Ninguém, todas as unidades desativadas. Agora entendera tudo. E decepcionara-se profundamente com o filho.

- Estou pensando em carreira política - disse a mulher - e quero fazer um acordo com você.

- Sempre depende. O que você quer?

- Tem muita gente desempregada na Terra e eu quero essa gente como eleitor. Quando suas operações retornarem aqui, você vai empregar milhões. Eu quero metade dessas vagas para mim.

- Pode até ser. - disse a voz fria do negociador - Mas eu quero gente qualificada. E barata.

- O que mais tem na Terra é esse tipo. Temos um acordo?

- Feito.

Laion voltou para o mesmo lugar onde inicializou sua unidade, deixando-a como a encontrou. Iniciou a contagem regressiva e em menos de um minuto, com as novas tecnologia de dobra, sua mente estava de volta à Terra, como que despertando de um pesadelo.

- Que diabos você fez? - inquiriu o filho meia hora depois. – Agora estou desempregado e perdi minha unidade mineradora.

- Sua unidade mineradora está comigo, pai. E com o que eles me pagaram vou te comprar uma inteiramente nova, só que agora não vai ser mais aquela porcaria genérica. Vai ser uma unidade especializada de última geração. E também vou te dar uma unidade de coleta atmosférica pra melhorar sua atividade em Vênus. Eu resolvi seus problemas, pai. Pra todos os efeitos hackearam a tua unidade.

O garoto não participou daquilo só pelo dinheiro, mas precisava fazer algo pelo pai. O homem não descansava mais. Agora teria mais tempo. E quem sabe, montar a própria firma terceirizada com o dinheiro da rescisão.

- Acho que quero trabalhar na Terra. Ouvi dizer que reflorestamento e recuperação de manancial estão dando lucro.

O pai tinha um sorriso no rosto embora alguma preocupação. Num canto empoeirado de Marte, em meio à maquinaria abandonada da mina agora desativada, descansava a unidade de mineração Laion. Não era mais controlada pelo velho e cansado operário, agora plantando flores na Terra. Possuía outro espírito. Aquele espírito era parte do bando de Amarna, mas não confiava inteiramente na comandante. Aquele espírito viu o quanto aqueles operários estavam infelizes e o quanto eram suscetíveis a um belo discurso.

Cavadores. Ben sabia que havia muitos segredos a cavar naquele mundo mais escuro, mas tão sujo e obscuro quanto aquele onde ele costumava dormir todas as noites.
Wilde Green
Enviado por Wilde Green em 16/09/2020
Reeditado em 16/09/2020
Código do texto: T7065025
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Sobre o autor
Wilde Green
São Gonçalo - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
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