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O labirinto

Fssst. O cilindro metálico da TX-RY5 rodou sobre si mesmo permitindo que a camada exterior descesse o espaço suficiente - uns quarenta centímetros. Então o núcleo emergiu sem pudor e apontou ao alvo libertando a sequência de ondas electromagnéticas, imperceptíveis. A máquina cumpriu assim mais uma vez e de forma quase cem por cento eficaz o seu desígnio - apagar para sempre as recordações mais recentes, deixando no entanto intactos conteúdos de memória de longa duração.

No meio do corredor estreito, Greg sentiu o som surgir com uma familiaridade estranha. Olhou para si próprio descobrindo o corpo cinzento e magro completamente nu. A face desprovida de cabelos, as sobrancelhas finas com se fossem desenhadas num único traço, os olhos com pupilas de cor mortiça – cinzento-escura, tudo lhe indiciava a realidade da situação desconfortável. Era um personagem abandonado, sem ocupação ou pelo menos com uma ocupação que não entendia.

Sentiu-se apoderado de raiva surda, um poder que emergia do “dentro de si”, força bruta que até agora desconhecia. A memória de longa duração chegou sorrateiramente e foi-se impondo passo a passo, trazendo consigo o saco cheio de pedaços de nostalgia. Lembrou-se…

Era uma vez e era senhor de seu bigode bem aparado e cabeleira farta. A inteligência e perspicácia só eram ultrapassadas pela agilidade, habilidade com que manipulava a espada e o florete e os usava para fazer viajar até ao outro mundo os inimigos do seu amo.

Era outra vez e era pintor vagabundo e namoradeiro que passava parte de parte dos dias junto ao cavalete e tela em “Place du Tertre” capturando expressão de face de turistas. A outra parte da vida eram as noites bebendo copos aqui e ali – onde calhava. Calhava muitas vezes o “Boulevard Saint Michel”.

Era mais uma vez… astronauta indiano de missão quase falhada cuja perspicácia chegou para realinhar a nave em entrada de órbita, salvando toda a tripulação, trazendo o grupo incólume para terra.

Era também o estudante imberbe que idealizou a revolução de 2050, a qual acabaria por derrubar todos os poderes instituídos do maior colosso económico e tecnológico da altura – a China.

Era tudo e todos, tantos e bons personagens fruto da imaginação do velho barbudo de óculos sujos e barriga grande. Ah, como odiava nesse momento esse Deus pequenino, falhado, das letras! Parecia que o estava a ver, porte de burguês, fumando cachimbo com o pequeno “laptop” em frente, alinhando em fruto de escrita as ordens para ele, sim ele Greg, executar!

Olhou para o corpo cinzento sentindo-se só e impotente, incapaz de contestar ou filosofar. A vida era assim e pronto! Como simples personagem que era nada mais havia a fazer - nada de protestos. Seguir o guião seria o seu destino e a sua razão de existir! Virou-se e observou o corredor extenso de paredes metálicas. Tinha de avançar e encontrar o fim da coisa. Os pés grandes e chatos começaram a andar.

Sentia a fadiga singular, inusitada, era como se fizesse o percurso pela milésima vez e no entanto não se lembrava de nada. À sua frente, na imensidão do corredor as paredes espelhavam a sua imagem que trabalhavam e retorciam, um pouco como os homens fazem com os conceitos - puros na essência, dobrados e desvirtuados na expressão oral e escrita.

De repente, os sentidos apurados (ou seria o destino?) avisaram-no do perigo – atrás de si uma parede de fundo de corredor aproximava-se e avançava veloz, tão veloz que depressa o alcançaria. Tendo pela frente apenas a recta sem fim, se nada fizesse seria esmagado, ficando prensado tal e qual mosquito no pára-brisas de carro em alta velocidade. Correu.

Estava quase a ser apanhado quando reparou na singularidade do tecto. A altura aumentava um pouco. Com agilidade saltou e colou as ventosas dos dedos de ambas as mãos ficando fortemente preso ao cimo do corredor. Por fim, quando o colosso veloz passou, deixou-se cair e foi de boleia. Decorreu meia hora até ouvir o “Clanc!”, sinal de que a coisa tinha terminado sua marcha. Então desceu.

A menina de vestido branco estava apenas alguns metros à frente. Fitava a superfície do líquido de forma tão atenta que mal deu pela presença do estranho.

“Olá, como te chamas?”. Proferiu ele

Os caracóis loiros voltaram-se e mostraram a cara sardenta, sorridente e um sorriso doce. “O meu nome é Hanna, tu deves ser o Greg não é? Estou aqui para ajudar”. Antes que pudesse dizer o que quer que fosse tomou-lhe a mão e apontou para a pequena tigela.”Olha fixamente para o meio e concentra-te. Quando começares a ver a água agitar-se gerando pequenas ondas em círculos concêntricos pede sem hesitar… tudo o que quiseres”.

Pela primeira vez, um esboço de sorriso florou nos lábios “Estou farto de ser marioneta do gordo. Agora tudo mudará!”. O pensamento que chegou era prático e cruel. ”Vamos trocar, o filho da mãe que venha para cá fazer de personagem, de agora em diante eu pegarei no laptop e na garrafa de whisky e escreverei as ordens”.

O pensamento malévolo cristalizou e num repente a escuridão surgiu tomando conta de tudo. Foi sem espanto que sentiu a barriga pesada e a vista cansada. “Que raios, devo ter adormecido”. A seu lado o pequeno Bedlington Terrier fitava a garrafa meio vazia. Acendeu a luz, colocou os óculos e ligou o equipamento - havia que continuar, o texto teria de estar na editora o mais tardar dia 10. Portanto, continuou o ofício de escrita e o monitor  foi mostrando os pequenos caracteres “O ser, O ser cinz, O ser negro. Não. Negro não, não fica bem – cinzento. O ser cinzento”.

O ser cinzento olhou em frente. Ao lado da tigela de água estava um livro do autor Pablo Conejo com o título

         A chave do labirinto

Abriu. Era justamente o que pensava – uma sequência de mapas. Analisou com cuidado. “Afinal a coisa não era assim tão grande ou tão complexa. Com aquele guia preciso mais um pouco e estaria no ponto de saída. Para quê deambular dias e dias a fio se tinha ali a resposta, cómoda - servida de bandeja? Porquê as perguntas?”. Sorridente e animado continuou.

Seguiu em frente para depois virar na primeira à direita e continuar em diante outra vez por mais quinhentos metros. Aí chegou a uma sala oval onde confluíam e de onde partiam inúmeros corredores.”Ah, se não fosse o livro estaria perdido!”. Consultou o guia e escolheu sem hesitar a segunda entrada a contar da esquerda. Olhou para o papel amarelecido e confirmou. Devia estar quase lá.

O corredor não era muito extenso e deixava perceber ao fundo o pequeno cilindro metálico. Por detrás deste, a porta alta, com aspecto familiar esperava. ”Mas que raio…”. Olhou mais uma vez. O livro tinha desaparecido de suas mãos. Foi então que aconteceu. Novamente.

Fssst. O cilindro metálico da TX-RY5 rodou sobre si mesmo permitindo que a camada exterior descesse o espaço suficiente - uns quarenta centímetros. Então o núcleo emergiu sem pudor e apontou ao alvo libertando a sequência de ondas electromagnéticas, imperceptíveis. A máquina cumpriu assim mais uma vez e de forma quase cem por cento eficaz o seu desígnio - apagar para sempre as recordações mais recentes, deixando no entanto intactos conteúdos de memória de longa duração.

No meio do corredor estreito, Greg sentiu o som surgir com uma familiaridade estranha. Olhou para si próprio descobrindo o corpo cinzento e magro completamente nu. A face desprovida de cabelos, as sobrancelhas finas com se fossem desenhadas num único traço, os olhos com pupilas de cor mortiça – cinzento-escura, tudo lhe indiciava a realidade da situação desconfortável. Era um personagem abandonado, sem ocupação ou pelo menos com uma ocupação que não entendia.
José Espírito Santo
Enviado por José Espírito Santo em 01/11/2007
Reeditado em 01/11/2007
Código do texto: T718904

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Sobre o autor
José Espírito Santo
Portugal, 51 anos
155 textos (7507 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 15/12/17 01:32)