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A fronteira - Capítulo VII (Fuga)

Ficou desiludida com aquele achado. Esperava no mínimo uma chave, algo que pudesse usar com facilidade para se escapar dali para fora. Sentiu-se novamente em ponto de partida. Tudo o que tinha era a palavra, tinha de ser uma espécie de chave, um código mas…

Não existia qualquer aparelho, qualquer “fechadura” para chave possível. Na escuridão tacteou com cuidado as paredes procurando um botão ou um controlo sensível ao tacto. Demorou uma hora e meia nisso. Sem resultados. Nada. Estava perdida.

Sentou-se, desconsolada e observou no espelho o par de olhos cansados. Nunca saberia bem se foi apenas brincadeira ou obra de intuição – ergueu o braço e o indicador da mão direita desenhou na superfície os caracteres: P, E, S, S, O, A.

 Nesse mesmo momento, a superfície espelhada desapareceu, dando lugar ao portal. Do outro lado, o Português magro, de bigode e chapéu proferiu “Venha. Não há tempo a perder”.

Assim que saiu para o mundo paralelo, uma sua réplica entrou e assumiu papel de prisioneira. Seria executada a tempo e horas de acordo com os procedimentos e todos se congratulariam por a lei ter sido cumprida.

“Você é o poeta? Julguei que ele tinha morrido há séculos” perguntou. Ele riu e retorquiu “Não. Na verdade o meu nome é Jorhl e não tenho sequer grande jeito para  a escrita. Mas aqui todos tomamos a forma que pretendemos. E eu sempre fui fã do poeta Português”

Assim foi conduzida até à sede do conselho, onde em reunião de ilustres estavam presentes à mesma mesa a rainha Elisabeth, o guitarrista Baden Powell, Leonardo da Vinci, Marie Curie, Sócrates, Shakespeare e Demóstones.

Rapidamente e sem grande rodeios eles contaram-lhe. Aquele seu mundo era paralelo e parasitário. O “fazer certo” e “tudo poder” tinham retirado a alma e o interesse às vivências. Necessitavam da confusão, do caos – e isso encontravam no mundo de onde Patrícia era proveniente – universo que controlavam à sua vontade e sempre com objectivo de manter situações de conflito.

O caso dela não era único – o mesmo já se tinha passado com muitos outros, sempre que emergia alguém capaz de mudar as coisas, era necessário agir. Desta vez se nada tivessem feito, ela e o seu grupo rebelde teriam conseguido derrubar os poderes instituídos e estabelecer uma nova ordem. O que era inaceitável!

É certo que apesar de todas as comodidades, seria penoso viver com eles, uma vez sabido o motivo pelo qual tinha vindo ali parar. Mas, agora que tinham contado tudo, poderiam encaminha-la para “a máquina” e o equipamento especializado substituiria toda a memória antiga. Nasceria outro ser. À Patrícia, tal como se conhecia não restavam mais do que cinco curtos minutos.

José Espírito Santo
Enviado por José Espírito Santo em 04/11/2007
Reeditado em 04/11/2007
Código do texto: T722763

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Sobre o autor
José Espírito Santo
Portugal, 51 anos
155 textos (7507 leituras)
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