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[SciFi] Ilusões

- Você conseguiu? – pergunta-me Jaila.

Meus olhos, por mais que tento, não conseguem se desviar do fascínio imposto por sua beleza. Não faço idéia do que existe por baixo daquela camada perfeita de proto-ilusão que a deixa deslumbrante. Cabelos negros e cintilantes, olhos verdes, curvas esculturais vestidas em roupas mínimas e traços que lembravam algo como os elfos das velhas histórias de Tolkien.

- Eu já falhei alguma vez? – pergunto tentando não denotar qualquer entusiasmo com sua beleza.

- Não. Mas para tudo há uma primeira vez.

Estendo a mão e entrego-lhe uma minúscula esfera transparente. Jaila a escaneia com seus olhos que avermelham. Sorri.

- Você conseguiu! O nanochip agora é nosso. Vamos inserir os créditos em seu DNA agora mesmo, Samyanm.

- Prefiro outro implante - digo sem rodeios – Quero a tecnologia do nanochip em meu braço.

- Isto custará mais que os créditos que você tem. Mas é algo que podemos resolver, se é que você se dispõe a fazer outro serviço.

- O que preciso roubar desta vez?

- A memória de um ID. Você faria isto? – seu tom é de desafio.

- Claro – não titubeio, mesmo sabendo que isto significava reduzir um ID a um ser totalmente sem memória, a um imprestável vegetal.

Jaila sorri novamente, um sorriso que eu conheço bem. Algo que, antes mesmo de iniciar minha missão, lhe dava uma certa vitória. Já faz algum tempo que sou uma espécie de escravo da Corporação Satan, sempre migrando de missão a missão, sendo pago ora com Créditos, ora com implantes ou melhorias dos que já tenho; um eterno ciclo vicioso que não me permite a libertação das ordens deles.

Meu corpo tem um potente braço cibernético, um olho embutido com leitura e decodificação virtual, o pulmão modificado e, em minha corrente sanguínea, há quase um litro de substância prata, recheada com nanotecs, capaz de reparar quase instantaneamente cortes profundos.

- Você precisa caçar o ID G21G7714. Não sabemos se nosso alvo veste uma proto-ilusão, mas já localizamos onde ele está neste exato momento. E, Sam, ele tem um de nossos andróides como guarda costas, um Med500.

- Vocês não podem reprogramá-lo remotamente para retornar?

- Não. Ele escolheu estar com o ID G21.

“Escolheu”, penso. A velha história sobre inteligência artificial, tão comum neste último século. Eu ia perguntar como o ID conseguiu um dos dróids da Satan, mas seria perda de tempo; Jaila não me responderia. Sei exatamente o que fazer: caçar, esterilizar a mente do alvo e trazer as informações para a Corporação. O Med500 seria um simples obstáculo a ser vaporizado pelo meu potente braço direito.

Recebo as instruções sobre a localização do alvo e vou para o topo do imenso edifício da Corporação Satan. Meu transporte flutua pelas vias abarrotadas de outros veículos, uns cruzando a poucos metros dos outros, perdidos na imensidão de prédios por todos os lados e no abismo abaixo e acima. Numa espécie de transe ocorrido pelo vai e vem de veículos, não posso evitar que meus pensamentos viajem para a causa desta guerra invisível.

No começo da década de 30 (2030) começou aquilo que chamam de Corrida pela Inteligência Artificial (IA). Grandes empresas iniciaram pesquisas avançadas sobre a IA. Tiveram vários resultados, mas nenhum como ao dos criadores da Messias; uma “mente” cibernética capaz de, realmente, pensar. Mais que isto, pensar com eficácia de uma máquina.

A Messias ajudou a desenvolver a segunda grande IA, batizada como Lúcifer. Em algum ponto, por volta de 2045, iniciou a guerra. Lúcifer se rebelou contra a raça humana e tentou destruí-la mediante a ativação de armas químicas e pragas virtuais que infectavam os implantes - que ainda não eram tão avançados naquela época.

Em 2060, Messias proveu “a cura” contra Lúcifer. Disseminou sua própria essência virtual na rede, como se fosse um vírus, e, num ato de auto-sacrifício, destruiu a si e todas as Inteligências Artificiais que existiam.

Três dias depois, Messias ressurgiu na matriz da corporação que a gerou. Foi impossível não traçar um paralelo com o cristianismo, mas, para a grande maioria, tudo não passava de mera coincidência, já que a religião havia caído na descrença desde o início da Corrida.

Depois disto, iniciou uma nova era. Novas IAs surgiram, mas todas muito inferiores à Messias e sempre tentando roubar alguma tecnologia que a ela pertencia. Um novo tipo de guerra, quase invisível, onde a Corporação Satan se põe apenas como mais uma das simples detentoras de Inteligência Artificial, alimentando-se de qualquer migalha de tecnologia.

Estamos quase virando um novo século; devo muito a Satan e não me importo em servir a Corporação usando todos os métodos possíveis, embora nunca tenha sido necessário exterminar um ID.

Meu transporte começa a voar mais baixo, ali pelo nível três; para numa das entradas do edifício onde meu sensor acusa estar o alvo. Olho para o pequeno espelho e confiro se meus cabelos negros estão bem espetados; gosto deles assim, sem qualquer camada de proto-ilusão, verdadeiro vício entre as pessoas atualmente. Algumas delas só sabem o que é a imagem real de um humano quando desativam sua fachada de mentira e conferem a própria imagem no espelho.

Um homem com feições reptelianas – uma capa de ilusão, claro – me recepciona enquanto desço do veículo. Caminho para o tubo e sou sugado uns sessenta andares para cima. Finalmente, meu andar. Enquanto caminho pelo estreito corredor de paredes brancas, desligo meu sensor, pois ele pode me denunciar.

Entro em um salão, tentando não deixar muito evidente que estou caçando alguém entre as vinte e duas pessoas que meus olhos escaneiam instantaneamente. Ao fundo, uma autêntica jukebox, onde toca uma música antiga, com o refrão que diz “love me tender”. É um dos inúmeros bares que ambientam antigos cenários. Este retrata os anos 70 do século XX.

- Um energético, por favor – peço sentando ao balcão enquanto minha mente analisa os dados escaneados.

A maioria tem traços bem humanos, provavelmente na tentativa de se mesclar ao ambiente do bar. Alguém põe outra música na jukebox. Ouço o estalar mecânico da máquina antes de iniciar a música. Help, esta eu conheço de algum lugar.

Bastaria um simples toque em meu sensor e ele apontaria o ID G21; tempo suficiente para que eu também fosse detectado pelo Med500. Antes que eu consiga organizar os pensamentos, sinto um golpe covarde de um punho atingindo minha cabeça.

Sou lançado para trás do balcão, estilhaçando garrafas enquanto sinto o mover dos nanotecs curando meu crânio rachado e alguns cortes nas costas.

Antes de me levantar, ouço o som pesado de alguém pulando para trás do balcão. Dois chutes no abdome me empurram contra a parede oposta. Ossos estalam por todo o corpo; mais alguns golpes e meus nanotecs não irão curar nem mesmo um aranhão.

Pela força dos golpes, só posso deduzir que meu oponente é o Med500. E de fato é. Consigo levantar os olhos e o vejo correndo em minha direção. Ele veste a pele de uma mulher bonita, magra e com roupa rosa que lhe agarra o corpo inteiro. Sua imagem jamais denunciaria ser ele um andróide.

Levanto defendendo três chutes e a energia flui em meu braço. Pessoas correm por todo o bar e consigo entrar um soco na fuça da dróid. A camada de pele e carne do meu punho e do rosto da máquina dá lugar para a centelha de faísca que brilha no impacto metálico.

O Med500 cambaleia três passos para trás, o espaço que preciso para fulminar uma rajada de e3nergia azulada que sai com toda potência do meu braço cibernético. O raio atravessa a carne artificial do dróid e destrói seus componentes eletrônicos, deixando um enorme buraco em seu peito.

Aciono imediatamente o localizador e ele aponta o alvo: um homem de pele negra, careca, que acaba de estilhaçar o vidro do prédio com o próprio corpo. Ele se joga na imensidão do abismo de prédios e pulo logo atrás.

Um mergulho entre paredes cristalizadas dos edifícios; veículos passando no estreito espaço, zunindo a centímetros de nossa queda. Não irão nos acertar, pois o radar de cada um deles impede qualquer impacto.

Segundos depois, vejo o ID ser coletado no meio da queda. Ele teve a mesma idéia que eu, acionando remotamente seu veículo. Da mesma forma sou colhido por meu transporte e inicio a perseguição.

Vamos descendo os níveis, desviando dos inúmeros obstáculos. Já posso até sentir o cheiro acre do solo que se aproxima. A escuridão nos envolve aos poucos, com poucas luzes de néon piscando em alguns cantos.

Rente ao solo, disparo alguns raios de meu veículo, explodindo em espeluncas do nível zero. Somente IDs da pior categoria vivem por aqui. Finalmente acerto um disparo, destruindo a turbina do alvo. O veículo raspa no chão até colidir numa parede, base de um dos inúmeros prédios lá em cima.

Paro imediatamente meu transporte e pulo no tampão do imóvel veículo abatido, onde a poeira ainda assenta. Um golpe o abre por dentro, lançando-me para trás e vejo o ID saindo. Vem em minha direção e iniciamos uma luta corpo a corpo.

Ele é forte, porém lento. Acerto alguns socos e finalmente arrebento a camada proto-ilusória, lançando-o violentamente para trás em meio a lâminas cintilantes de energia fragmentada.

Este é o momento. Debruço-me sobre o ID G21 e pressiono uma espécie de arma entre seus olhos. Estou pronto para sugar toda a memória quando algo me impede de acionar o equipamento.

O ID é uma mulher. Há tempos que não vejo beleza igual. Algo natural, totalmente humana, sem os vestígios da capa ilusória.  Há um certo pedido de clemência em seus olhos e ela percebe minha renitência.

- Não faça isto – ela diz – Sou a última chance da humanidade.

Não presto muita atenção em suas palavras, mas aquelas belas feições humanas, tão incomuns nos dias de hoje, me prendem numa espécie de transe.

- A Corporação Satan precisa do que você sabe – consigo dizer; minhas mãos afrouxando no gatilho.

- A Corporação só quer apagar o que eu sei.

Ela me convence, não com as palavras, mas com a expressão em seu rosto – como se eu conhecesse muito além de uma proto-ilusão.

- Eu compartilho com você – dizendo isto, ela toca entre meus olhos e sou engolido por uma visão.

Há uma tela translúcida à minha frente. Códigos e mais códigos passam por ela e consigo distinguir uma palavra: Lúcifer. Sinto até mesmo as emoções daquela memória. Surpresa, medo, repulsa.

Lúcifer não foi destruído. Ele vem sendo reconstruído pela corporação Satan, aliás, este é seu novo nome. Quando Messias disseminou-se na rede, Lúcifer fragmentou sua IA em incontáveis partículas e, agora, a vem recuperando aos poucos. Em pouco mais de dois anos estará completo e não deixará que cruzemos o século sem uma violenta guerra. Não chegaremos a 2099.

Ele já tem uma nova estratégia. Desta vez usará as próteses de forma mais eficaz, controlando-as e voltando-as contra seus usuários. Uma nova revolução das máquinas.

Consigo pensar em meus implantes e nos nanotecs em meu sangue. Uma revolução e eles me comeriam como um câncer instantâneo.

- Eles sabem – diz a ID G21 – Todos da Corporação Satan estão trabalhando para trazer Lúcifer de volta – Meus braços afrouxam e ela sai debaixo de mim – Preciso levar esta informação até a Messias.

- Não posso deixar você fazer isto.

- Você precisa deixar. A Messias precisa saber. Já nos salvou uma vez, poderá salvar mais uma.

Não são os argumentos que me convencem. Talvez seja aquela forma humana de se expressar. Cabelos negros e lisos, que não passam dos ombros, emoldurando um semblante de convincente súplica e algo que, a meu ver, parece esperança.

Ela se levanta de vagar. Não me oponho. Vira-se e vai sumindo pelo beco escuro. Não me oponho.

Duas horas mais tarde, na sala da direção da Corporação Satan, ouço os gritos de Jaila:

- Você não conseguiu? Você jamais falhou, Samyanm.

- Para tudo há uma primeira vez.
 
Viro-me sem dar muitas explicações. Só consigo pensar que a humanidade realmente precisa de um salvador. Não que lhe garanta a simples existência, mas que ative em seu coração um desejo que talvez tenha esquecido: o de ser realmente um ser humano.

Kzar
Enviado por Kzar em 25/11/2007
Reeditado em 28/10/2008
Código do texto: T752703

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