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AD AETERNUM - Parte Quatro

IV







SUA ESTADA EM EDIMBURGO, conforme planejado, se estendeu por mais dois dias; então partiu rumo ao norte, em busca das suas ansiadas highlands, do misterioso Loch Ness, dos seus castelos, suas ruínas e seus lendários monstrinhos pré históricos de estimação. Embarcou no ônibus das nove horas e doze minutos, precisão e pontualidade inimagináveis nos pampas argentinos e em outras paragens latino-americanas. Entretanto, cerca de três horas depois da saída, um fenômeno nada incomum jogou literalmente por água abaixo toda a pontualidade escocesa: um aguaceiro daqueles, um verdadeiro dilúvio escocês desabou sobre eles, obrigando o motorista a interromper a jornada. O ônibus parou na primeira aldeia, onde se aguardaria até que a chuva amainasse. Depois de quarenta minutos de tediosa espera sem que os céus demonstrassem a menor disposição de encerrar suas atividades de precipitação de líquidos sobre o mundo dos homens, resolveu descer do ônibus para esticar as pernas e procurar um lugar onde pudesse comer alguma coisa. Em seu inglês sofrível, informou-se com o motorista a respeito de seus planos de partida; fumando um cigarro indolente, o homem fez-lhe saber que não pretendia seguir viagem tão cedo; e, após orientar-se sobre a direção a tomar, rumou para o único restaurante da localidade, que, segundo havia conseguido traduzir do carregado sotaque do pequeno (já mencionei que o motorista era pequeno, ruivo e atarracado, um verdadeiro) escocês(?), enterrou o chapéu na cabeça, levantou a lapela do sobretudo e saiu caminhando na chuva. Apesar do frio, gostou de percorrer a pé as estreitas e sinuosas ruas da aldeia; sentia-se estranhamente acolhido. Se ao menos seus pés não estivessem encharcados (e lá se vão os meus sapatos novos que me custaram tantos pesos) e ele não sentisse tanto frio...

Depois de alguns minutos caminhando encontrou o tal restaurante; outros viajantes, passageiros do mesmo ônibus, já estavam confortavelmente instalados, comendo e bebendo e conversando animadamente. Serviram-lhe um suspeito haggis; a visão do bucho de carneiro recheado de vísceras e grãos de aveia tostados não lhe foi muito agradável; mas, como já estava faminto, e a fome -assim dizia sua mãe com muita propriedade- é o melhor tempero, devorou a iguaria sem deixar vestígios no prato. Depois do almoço, permaneceu por um bom tempo sentado à mesa, distraído, olhando pela janela a chuva insistente que transformava o mundo numa imensa e disforme bola cinzenta, parecida com o haggis que ele acabara de comer. De repente, avistou uma pequena placa com os dizeres: A Biblioteca Universal. Achou curioso que uma aldeota como aquela tivesse um local especificamente destinado aos livros; mas, pensando bem, escoceses são europeus, e europeus são uma espécie de gente diferente, e no fim das contas eu estou ensopado e morrendo de frio, e acho que não faz mal dar uma olhada nos livros que os escoceses leem enquanto minhas roupas secam um pouco...

Atravessou correndo o espaço que separava o restaurante da livraria e entrou na diminuta loja, que só não estava deserta por causa do velho atrás do balcão. Cumprimentou-o com um aceno de mão; o velho, por sua vez, apenas meneou levemente a cabeça, olhando para ele, desconfiado e silencioso. Estranhou a atitude do homem, tão diferente da maioria dos escoceses com quem havia se relacionado até ali. Manias de gente velha, pensou. O calor da livraria o agradou bastante; começou a percorrer as estantes sem pressa, lendo os nomes dos autores e os títulos das obras nas lombadas verticais. Após algum tempo, deparou-se com um exemplar que lhe pareceu muito antigo, porém em excelente estado: The New Arabian Nights, de Stevenson, um dos maiores autores do país. Considerou o achado um verdadeiro tesouro, a melhor recordação possível de sua estada na Escócia. Abriu o volume aleatoriamente. Seus olhos pousaram sobre estas palavras:


I...cannot put a pistol to my head and pull the trigger; something stronger than me stops me, even though I hate life. It is for people like me that the Suicide Club was begun.

 
Interessou-se pelas aventuras do Príncipe Florizel e do Coronel Geraldine na Londres vitoriana; leu avidamente a história. A trama do Clube do Suicídio o enredava cada vez mais, página após página após página até que a fascinante narrativa foi abruptamente interrompida por uma página em branco.

Ao mesmo tempo, o relógio centenário anunciou as três horas fatídicas...


P.S.: A Assombrosa revelação da especial condição de nosso personagem se dará no próximo capítulo. Porém, este só será publicado quando o presente atingir cem leituras. Impreterivelmente, pois gostaria muito de saber se a narrativa tem agradado os leitores. Portanto, se você quiser descobrir o que vem em seguida, divulgue o link o máximo possível. Conto com você!  
paulo marreco
Enviado por paulo marreco em 08/12/2011
Código do texto: T3378178
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
paulo marreco
Vila Velha - Espírito Santo - Brasil
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