O FANTASMA DA ÓPERA

(Eu e minhas amigas corríamos o máximo que podíamos. A correria parecia em vão, mas era a única forma de evitar uma grande tragédia... Aquela terra estranha, naquele momento, parecia mais árdua do que nunca. Parece que tudo conspirava contra nós. E, fugindo do destino cruel que se aproximava, corremos ainda mais...)

Chegamos finalmente. Sem fôlego, corações a sair pela boca, não sabíamos exatamente o que nos esperava. Aí residia o medo... na incerteza. E cuidadosamente, pé ante pé, descemos as escadas até chegarmos àquele lugar tenebroso, mal iluminado por algumas velas fumegantes, pessoas estranhas nos olhando.

Prometemos ficar lado a lado, uma bem perto da outra, para qualquer emergência, qualquer surpresa incoveniente. Mal falávamos, a situação não permitia. Palavras sussurradas eram ditas, volta e meia para cortar a ansiedade.

Ninguém sabia que estávamos prestes a presenciar assassinatos e desmandos tão cruéis, muito menos que iríamos testemunhar um romance tão singular.

Mal chegamos e coisas estranhas começaram a acontecer. Um frio gélido cortava a atmosfera, a emoção estava por demais aflorada e eu, mais do que ninguém, olhava desconfiada, cantinho dos olhos, que estavam meio baixos, como que com medo de olhar mais firmamente a cena. Meio distraída estava, conferindo cada detalhe, a mobília antiga e pesada, o luxo decadente daquele cenário sinistro, o rosto das pessoas que não me pareciam confiáveis, quando.. um impacto forte se fez e um lustre imenso despencou do teto, partindo-se em quatro.

Que susto!!! Por pouco não nos atingiu.

Corações em compassos desritmados e respirações sôfregas... Mal recompostas estávamos, quando o Fantasma surgiu no meio do nada, numa gargalhada terrível e estrondosa. Sob holofotes, ele assusta, mesmo que escondido atrás da máscara. Mais uma vez, é a incerteza que mete medo. Que rosto medonho aquela máscara esconderá?

Mas o Fantasma se apaixona por sua doce e meiga Christine, e por ela está disposto a tudo. Então, fomos cúmplices de sua doentia paixão e dos crimes passionais que ele ia cometendo, um a um.

Envoltas ficamos na pura magia de seu fantasmagórico encanto. Acordes divinos saíram da improvável parceria da moça com tal “monstro” que já atormentava a todos por ali.

Acordes intrigantes tomavam o ambiente. Uma música terrivelmente bela era ouvida, compassada, orquestrada, magistral!

Uma voz maviosa, angelical e cristalina entoava a bela canção e o Fantasma também cantava para sua musa:

"Sing my angel of music

Sing my angel

Sing for me!"

E, assim seduzidas, nos assustamos ainda mais com um corpo que despencou, tremulante, enforcado numa corda.

Ela pensa que ele é o Anjo da Música e segue-o num pântano escuro e nebuloso. Divididas, já não sabemos se queremos o triunfo do Fantasma ou do jovem Artour, seu namorado. E nos vemos, muitas vezes defendendo o frio e calculista assassino. Deve ser a sua voz, ou será o seu mistério, ou ainda a sua carência de amor? Quando diz, com a voz embargada: “_ Sou assim pois não tenho amor” _ ele acaba por merecer o nosso afeto, seja por pena ou por aversão, mas ele certamente nos seduziu.

E as cenas horríveis vão se sucedendo. Espanto, susto, raiva, paixão, compaixão, horror e medo nos tomam e, por diversas vezes, as lágrimas rolam sem pudor. Mesmo juntas, lado a lado estamos, sabemos que não podemos fazer nada, a não ser assistir. É essa a parte que nos cabe.

Satisfeitas todas a suas vontades, o Fantasma voluntarioso, por fim, seqüestra a donzela mas, num golpe de inesperada sensibilidade, percebe que ela não será feliz ao seu lado. E decide deixá-la seguir e a entrega ao seu oponente, o corajoso Raoul. Não antes de travar uma sangrenta luta que nos fez suar as mãos. Agora, tudo parece mais tranqüilo.

Somos testemunhas de alguns assassinatos, mas, já que parece que o Fantasma fora por todos perdoado, melhor ficarmos caladas. Mais tarde, ao sabermos que, muito tempo depois, o Fantasma ainda a amará com amor eterno, o perdão lhe é concedido.

A respiração desacelera, mas a emoção ainda é intensa. Os sucessivos aplausos mostram o quanto o musical agradou a todos na platéia e o elenco retribui o afeto com elegância.

As cortinas se fecharam e nós deixamos o magnífico teatro do Venetian Hotel.

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A peça, baseada na obra de Gaston Leroux, é belíssima, com cenários primorosos, figurino impecável e atores muito bons, além de contar com uma orquestra ao vivo.

O que faz a versão de Las Vegas ser a melhor de todas é que o teatro do Venetian Hotel foi construído especialmente para “O Fantasma da Ópera” e recria com perfeição de detalhes a Ópera de Paris, cenário onde se desenrola a história. Mas, justiça seja feita, a montagem de São Paulo é igualmente primorosa.