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A Dona das Flores

        Carmen conversava com uma conhecida, toda sorridente, quando um homem parou o carro e a ficou observando. Ele anotava um bilhete. Abriu a porta, interrompeu a conversa das duas e pediu dois gerânios.

– Não tenho, desculpe... mas as azaléias estão lindas.

– Não tem de quê. Tome. Até mais! – e sumiu no cruzamento.

A conhecida cresceu os olhos no bilhete, mas Carmen fez questão de não abrí-lo ali e dispensou a conversa. Atendeu mais cinco clientes até que conseguisse parar para ler o bilhetinho. Dizia assim:



Você é muito simpática.



Carmen foi às nuvens! Ela costumava fazer esses bilhetes para casais sem criatividade, mas foi a primeira vez que recebeu um. Pegou sua funcionária e foi jorrar sua euforia.

– Não é o primeiro coisa nenhuma, Dona Carmen... E aquele que sempre comprava girassóis e não tinha uma orelha?

– O Van Jorge? Não te falei, foi preso. Era tarado.

– Deus me livre!

– Mas esse, não... Ai, Didi, tão cheiroso, tão... Ah...

Trabalhou como nunca depois desse dia. A esperança de um novo encontro conseguiu melhorar a qualidade do seu sono e a pontualidade para abrir seu comércio. Passou a  atender nove de uma vez, vendendo tudo o que tinha antes das três da tarde. Pagou suas dívidas.

Nova visita. O moço do Alfa Romeo preto, SUZ 3963, mantinha o mesmo topete, a mesma pele sem barba, o mesmo banho recém-tomado de quinze dias atrás. Ela se atrapalhou com a coroa de flores, desejou felicidades às três velhinhas de luto e foi... podar as folhas mortas dos galhos de dama-da-noite. Suspirava e tremia.

Ele escrevia outro bilhete enquanto olhava para ela.

– Tem mimo?

– Mimo... – riu olhando para baixo e só quando foi responder é que olhou em seus olhos verdes. – Não... As tulipas. Chegaram agora, sente o cheiro? – achando que fazer charme era algo perto disso, fechou os olhos e aspirou o ar como se acabasse de fazer amor, ou comer brigadeirão.

Ele agradeceu, apertou sua mão e deixou o bilhete com ela. Pôs os óculos escuros e saiu.

Carmen deixou a lojinha à cargo de Didi e foi sonhar em casa. Abriu uma cidra e, dentro de um banho de espumas e pétalas, abriu o bilhete. Dizia:



O seu sorriso...



Submergiu de olhos fechados e gargalhou embaixo d’água. Passou a levar um espelho quando ia trabalhar e passava a maior parte do horário comercial treinando diante dele o sorriso que ele mencionara.

Parou uma viatura. O policial mostrou uma foto e perguntou às duas se conheciam. Carmen segurou a mão de Didi com as unhas.

– Não conhecemos.

Dois dias depois, enquanto o moço escrevia o seu bilhete, Carmen bateu no vidro e pediu para entrar. Só foi encontrada semanas depois, com a boca cheia de terra e uma muda de cravo rosa plantada no peito esquerdo.



Marcos Baô
Enviado por Marcos Baô em 19/08/2005
Reeditado em 06/12/2006
Código do texto: T43784

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Sobre o autor
Marcos Baô
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 40 anos
27 textos (2874 leituras)
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Marcos Baô