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MEU SURFISTA MISTERIOSO - Cap. 6

Joana tratou de se integrar às demais pessoas, ainda que quase não escutasse o que elas tinham a dizer. Volta e meia olhava na direção do mar, tentando descobrir se o surfista havia voltado. Era quase meia noite e o sono começou lentamente a chegar. Alguém tocou no seu braço dando um susto em Joana. Ela voltou-se bruscamente para trás e se deparou com Pedro. Pelo visto, ele estava um tanto alcoolizado.
— Onde você esteve?
Ela não gostou nem um pouco da maneira com a qual Pedro falou. Não sabia se era por causa do álcool ou se o seu comportamento era assim mesmo. Desprezível.
— Por aí. Pode soltar meu braço?
Pedro fez o que ela pediu e tomou um gole de uma bebida que Joana não conseguiu identificar qual era. Ela odiava pessoas que bebiam demais.
— Quem você procura tanto? — perguntou ele com um tom frio na voz.
— Como sabe que estou procurando alguém?
— Eu sou muito observador — Pedro deu uma risadinha. — Mesmo que eu não fosse... A maneira que você se comporta me diz que você quer ver alguém. E este alguém não está por aqui como você deseja.
Joana lutou para não enrubescer. Felizmente naquele momento uma nuvem cobrira a lua e talvez Pedro não conseguisse enxergar seu constrangimento.
— Acho que este é um assunto meu — Joana respondeu sem muita educação e um pouco alto demais. Várias pessoas olharam na direção deles.
— Pensei que você estivesse sozinha.
— Mas pode ser que eu não esteja.
Pedro se abaixou um pouco para ficar da altura dela e cochichou no seu ouvido:
— Não vou desistir de você, entendeu?
Se estivessem sozinhos, Joana sabia que teria acertado um tapa no rosto dele. Ou pelo menos o empurrado. Porém ambos estavam a vista de muita gente, muitos percebendo que um clima estranho estava se desenrolando entre os dois. Joana desejou muito que seu surfista sem nome aparecesse por mágica e a afastasse das garras de Pedro. Mas nada aconteceu. Ninguém intercedeu por ela. Restou a Joana o encarar com asco, dar meia volta e sair praticamente correndo para o hotel. Não tinha mais nada a fazer no resort e na cidade. O evento em que brilhara já tinha chegado ao fim e sua busca incansável por um homem que abalara seu coração resultara em um tremendo fracasso. A saída era dormir e esperar que o outro dia chegasse rápido para ir embora de Salvador. Sim, era isto o que Joana queria. Ir embora de uma vez.
Ela chegou ao quarto, ciente que seu comportamento havia chamado a atenção dos outros colegas e que também seria o comentário preferido deles por algum tempo. Mas ela não se importava. O desanimo que sentia era pior que qualquer outra coisa. Tinha noção do quanto estava sendo boba e infantil ao se apaixonar — ou quase isto — por um cara com quem trocara meia dúzia de palavras. Contudo, não havia explicação para aquilo e nem sabia sequer dizer se era amor à primeira vista. Talvez o cara nem fosse tudo o que esperava. Afinal, era tão normal criar expectativas sobre uma pessoa para logo depois quebrar a cara. Joana suspirou. Ainda que conseguisse encontrá-lo, certamente ele não era nada daquilo que fantasiara na sua mente. Portanto, o negócio era partir para outra. Joana tomou um banho rápido, colocou vestido leve e tentou dormir. Cerca de 40 minutos depois Simone voltou, mas Joana fez que estava dormindo. Não estava disposta a conversar e sabia que o assunto seria Pedro e a fuga do luau. Que vergonha... Uma mulher adulta se comportando como uma adolescente apaixonada. Não, era melhor virar a chave, voltar para seu trabalho no sul e nunca mais aparecer no resort.
*
Joana não percebeu quando dormiu e levou um susto quando abriu os olhos de repente. Em um primeiro momento pensou que estivesse na sua cama em Porto Alegre. Segundos depois lembrou onde estava e o sono se foi. Três horas da manhã. Se pudesse, pegava um táxi e ía para o aeroporto naquele instante. Simone, na cama ao lado, dormia tranquilamente e Joana a invejou. Queria dormir para esquecer tudo, mas pelo visto o sono não viria tão cedo. Talvez nem viesse mais.
Suspirando, Joana se levantou para ir ao banheiro molhar o rosto. Dali era possível escutar o som das ondas. Seria tão relaxante se o momento fosse outro... Joana voltou para o quarto e sentou na cama. Simone deixara aberta a porta que dava para a sacada e uma brisa agradável e refrescante entrava por ali. Disposta a acalmar o espírito, Joana se dirigiu até lá para respirar e afastar os maus pensamentos. Ela tinha a nítida sensação que iria assistir ao pôr-do-sol graças à insônia.
Tendo o cuidado para não fazer barulho, Joana chegou à sacada e observou a noite. As estrelas e a lua tornavam o céu de uma beleza única. Sem querer e sem maiores pretensões, Joana voltou seus olhos para as ondas iluminadas pelo luar. Sua pele então se arrepiou toda e Joana pôs as mãos na boca, tentando sufocar seu murmúrio de pura surpresa:
— Oh, meu Deus… Ele voltou!
Joana deu meia volta e atravessou o quarto correndo. A porta fechou com força e ela não se importou se Simone acordara ou não com o forte estrondo. Mais uma vez Joana cruzou os corredores do resort em busca do seu surfista perdido. Em menos de quinze minutos ela estava na areia, afundando os pés em cada passada, enquanto voava em direção onde o surfista supostamente estaria.
Contudo, outra vez, a história se repetiu. Joana se viu parada e desolada com os pés fincados na areia da praia deserta olhando para o mar. Não havia ninguém ali. Não era possível. Que espécie de brincadeira era aquela? Era como se fosse um jogo de gato e rato. Não, ela não havia imaginado duas vezes a mesma coisa.
Um pouco mais adiante um quiosque encerrava suas atividades. Talvez o empregado tivesse visto alguma coisa. Ansiosa, Joana apressou o passo e foi até o homem que se preparava para ir embora.
— Moço! Ei, moço!
Ele olhou para trás, estranhando encontrar alguém na praia àquela hora. Joana se aproximou quase ofegante, já apontando na direção do mar:
— Você viu onde está o rapaz que estava surfando aqui agora há pouco? Para onde ele foi?
Joana ficou constrangida com a expressão de surpresa dele.
— Como?
— Há menos de cinco minutos eu o avistei pela janela do meu quarto. Era um surfista. Estava aqui, bem na nossa frente. Onde ele está agora? Você não o viu?!
Escolhendo as palavras, o homem respondeu cautelosamente:
— Senhora, eu estive aqui nas últimas cinco horas. Ninguém surfou. Não vi nenhum rapaz surfando por estas bandas depois que anoiteceu.
— Mas eu...
— O mar desta praia é lindo, senhora. Mas traiçoeiro. As pessoas evitam mergulhar à noite. Quanto mais surfar.
— Você tem certeza? — a voz de Joana tremeu. — Mas lá do meu quarto eu enxerguei alguém aqui!
Ambos ficaram se encarando por alguns segundos. Joana sentiu o rosto ficar vermelho de constrangimento. O homem devia estar pensando que era louca ou tinha bebido demais. Com um gesto cansado, Joana dispensou o homem com educação:
— Desculpe, estou atrasando você. Pode ter sido somente minha imaginação. Boa noite.
Ele se despediu e foi embora. Joana ficou de frente para o mar, tentando enxergar alguma coisa. Não havia ninguém por lá. Somente ela.
— Que surpresa ver você por aqui.
Joana olhou para o lado, cheia de esperanças, que foram por água abaixo assim que ela deu de cara com Pedro. Não foi capaz de disfarçar sua intensa frustração.
— Oh, você por aqui? Por que ainda não se recolheu?
Pelo bafo, Joana percebeu que Pedro estava alcoolizado mesmo. Ele se aproximou ao enquanto Joana recuava um passo.
— Estava esperando minha sereia voltar.
Ela fez uma expressão de nojo.
— Você precisa viajar logo mais. Por que não vai descansar?
Ignorando a pergunta, novamente Pedro investiu sobre Joana. Ela tentou se afastar, porém tropeçou nas próprias pernas e caiu sentada na areia. Foi o tempo bastante para que Pedro se agachasse ao seu lado, apertando-lhe com força o braço.
— Gosto de você, Joana — sussurrou ele no seu ouvido. — Não me ignore. Eu fico muito bravo.
Joana sentiu medo. Tentou falar alguma coisa, mas a voz lhe faltou. Nem adiantaria gritar, se quisesse. Naquela praia solitária só estavam eles dois.
— Me solte — pediu, na verdade quase implorando. Sentiu medo dele. Pedro era muito mais forte e podia fazer o que bem entendesse.
Pedro procurou os lábios de Joana, fazendo com que ela virasse o rosto para outro lado, enojada. Ao mesmo tempo Joana tentou levantar, mas Pedro não permitiu. Usando de uma força que desconhecia possuir, Joana acertou um soco poderoso no estômago dele. Pedro urrou e se dobrou em dois. Aquela foi a chance de Joana tentar fugir. Com as pernas fracas, ela ficou em pé. A intenção era correr até o resort, onde certamente encontraria alguém que a livrasse daquele monstro. Porém, ela não deu dois passos. Escutou a voz horrível de Pedro logo atrás de si e, em seguida, as mãos dele puxando seu cabelo.
— Você não vai escapar, vadia!
A força que ele fez jogou Joana novamente na areia. Quando Pedro foi para cima dela na tentativa de fazer com que deitasse no chão, Joana enfiou os dedos nos olhos dele, cegando-o momentaneamente. Desajeitada, ela se levantou. Na desesperada tentativa de fugir das garras daquele louco, Joana correu em direção ao mar, acreditando que Pedro o evitaria por estar alcoolizado.
Para seu terror, aconteceu justamente o contrário. Mais furioso ainda, Pedro não hesitou em perseguir Joana mar adentro. As ondas já lhe atingiam o peito quando ele a alcançou. Joana mal sabia nadar e Pedro logo se deu conta disto. Com uma das mãos empurrou-a para baixo, de forma que ela ficou submersa.
— Quem você pensa que é para me rejeitar?
Joana se debateu embaixo d’água, em pânico. Não era possível que fosse ter uma morte tão besta. Quando seu fôlego estava acabando, Pedro parou de pressioná-la. Joana finalmente emergiu e sugou todo o ar que pôde. Tonta, conseguiu enxergar seu algoz a sua frente, a própria encarnação do mal. Ainda desequilibrada, Joana tentou recuar, mas uma onda forte a levou outra vez para o fundo. Ela teve a sensação de escutar a risada maldosa dele. Joana se debateu, engoliu água, sentiu a morte lhe rondando. A única pessoa que podia lhe salvar era Pedro, mas inacreditavelmente ele queria que Joana morresse por ter seu orgulho de macho ferido. E assim seria o seu fim. Afogada no belo mar de Salvador.
Ela tentou voltar à superfície, mas a impressão que tinha era que ondas e mais ondas desabavam sobre ela. Não podia perder a consciência ou isto seria fatal.
“Deus, por favor. Não me deixe morrer agora.”
Aos poucos Joana foi cansando, braços e pernas estavam moles, o ar não era mais suficiente para mantê-la viva. Então mãos fortes a ampararam e puxaram seu corpo para cima. Era um milagre, disse para si mesma. A tontura ainda não havia passado e com os olhos ardidos pelo sal, Joana conseguiu respirar fundo. Um perfume conhecido a envolveu, embora ela não identificasse de onde era. Ela tossiu nos braços de alguém e tentou entreabrir os olhos. Naquele momento uma onda forte a envolveu outra vez e Joana achou que não iria mais se salvar.  Contudo, seu salvador não se desequilibrou. Olhando para ela com carinho, sussurrou:
— Não se preocupe, você vai viver. Ainda não é o momento de ficarmos juntos novamente.
Joana quase soluçou. Um nó lhe apertou a garganta ao perceber estar sendo carregada pelo homem que tanto procurava,seu surfista perdido. Não entendeu o que ele quis dizer. Sua cabeça e peito doíam, era impossível raciocinar àquela hora. Joana cruzou novamente seus olhos com os dele e tentou falar. Para ela parecia haver tantas coisas a serem ditas que seu coração partiu. Mas aquele não era o momento. Não foi isto que ele dissera antes? Será que realmente suas palavras haviam sido aquelas? Joana parecia estar vivendo em um mundo paralelo, onde a única coisa real eram as ondas do mar.
De Pedro ela não soube mais. Ou esqueceu, quem sabe. Ele nunca importara para Joana. Quem ela queria de verdade era aquele lindo rapaz que a levava gentilmente para a areia. Se tivesse forças para falar, se não estivesse praticamente se engasgando com a água engolida, diria para ele não soltá-la. Podiam ficar assim pelo resto dos tempos, que importância teria? De repente ele sorriu. Teria adivinhado os pensamentos dela? Mais uma vez o coração de Joana doeu. Por favor, não me deixe de novo...
Joana foi colocada com cuidado na areia, em um ponto onde as ondas não a alcançariam mais. Antes de se levantar e seguir seu rumo, o rapaz sussurrou:
— Agora você está a salvo. Daqui a pouco alguém virá buscar você.
Ela ergueu a cabeça para chamá-lo, mas o surfista já se afastava lentamente dali. Exausta, Joana se deixou ficar deitada na areia molhada, respirando com dificuldade. Não havia sido um sonho, ela sabia. Mas por que o surfista não ficara junto dela até alguém chegar?
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 13/08/2015
Código do texto: T5345192
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 49 anos
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Patrícia da Fonseca