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MEU AMOR MISTERIOSO - Parte 2

Reunidas na varanda, Dona Iara, Clarissa e Mariana, uma amiga da avó. A mesinha com chá e biscoitos estava disposta frente a elas. Com o canto do olho, Clarissa observava a convidada de Dona Iara.
Mariana. Eita mulher esquisita. Ela tinha mais ou menos uns quarenta anos e o cabelo de tons avermelhados emolduravam um rosto que poderia até ser bonito senão fosse tão triste. Segurava a xícara de chá tomando o líquido aos golinhos por estar muito quente. Quem mais falava era Dona Iara. Mariana concordava com tudo e Clarissa não conseguia tirar Dani da cabeça.

– Você viu como minha neta cresceu, Mariana?

A mulher olhou para Clarissa e deu um sorrisinho meio tímido.

– Lembro dela bem garotinha. Agora está uma moça.

Clarissa devolveu o sorriso sem saber o que dizer. Mariana era delicada no falar e seus gestos eram suaves. Se fizesse um corte moderno nos cabelos e sorrisse com mais frequência para aliviar o semblante sisudo poderia se tornar uma mulher atraente.

– Clarissa já tem me ajudado bastante – disse Dona Iara bem orgulhosa. – Hoje ela foi à feira e ainda me auxiliou nas encomendas.
– Quanto tempo você vai ficar aqui, Clarissa? – Mariana estava tentando ser simpática.
– Um mês. Já fazia um tempão que eu não vinha para cá.
– Clarinha – Dona Iara olhou para a neta enquanto se servia de mais chá, – conte para Mariana sobre o que você viu na feira hoje de manhã. Pode ser que a Mari saiba quem ele é.

A jovem ficou totalmente desconfortável. Não queria expor seus sentimentos à Mariana. Mal lembrava dela. Era como se houvessem se conhecido naquela tarde. Era constrangedor abrir seu coração para uma desconhecida. Sim, pois Clarissa já se sentia quase apaixonada por Dani.
Mariana a encarou esperando que a moça falasse alguma coisa.

– Eu… eu… - Clarissa começou a gaguejar.

Dona Iara tentou ajudar.

– Minha neta viu um rapaz bem interessante hoje na feira. O problema é que ela não sabe quem é.
– Ah… - fez Mariana, colocando a xícara na bandeja, interessada. – Como ele é?

Clarissa tentava segurar o rubor nas bochechas.

– Ele é loiro.
– Sim? – Mariana aguardava o restante da descrição.
– Um metro e setenta de altura, mais ou menos. O cabelo é ondulado e… bem, ele estava parado no meio da feira, sem fazer nada. Dani... bem, ele não parecia com jeito que iria comprar alguma coisa, sabe? Aí ele me encarou. Mas justo neste momento tive que pagar o pastel. Quando o procurei novamente, o Da… ele já tinha sumido.
– Oh, que pena – lamentou Mariana. – Você não foi atrás dele?

Clarissa ficou mais vermelha.

– Tinha gente demais lá.

Mariana respirou fundo, os olhos parecendo mais tristes do que nunca.

– Não me lembro de nenhum vizinho com estas características. Acho que ele pode ser mesmo um turista.
– Não entendo o que um turista pode estar fazendo em uma feira – desabafou Clarissa. – Em uma cidade com tantas coisas bonitas para ver, por que ele estaria em uma feira?!
– Para vocês se conhecerem – falou Mariana.
– E ele sumir depois.

Mariana falou com a voz distante e olhando para lugar nenhum:

– As coisas acontecem quando são para acontecer.

Clarissa ficou sem saber ao certo onde ela queria chegar com aquela frase tão óbvia. Porém, Mariana parecia tão perdida nos seus pensamentos que a jovem achou melhor ficar calada.

Realmente Mariana era uma mulher bem esquisita.

                                                      *

O dia seguinte amanheceu com chuvarada desde manhã cedo. Agarrada à cortina da sala, Clarissa olhava desolada para as poças d’água que se acumulavam nas calçadas. O céu estava cinza, tão cinza que não havia qualquer esperança que o sol pudesse aparecer pelos próximos dias. Aquilo era péssimo. Se Dani fosse um turista, cada dia que passava as chances de encontrá–lo se reduziam.

Mas... e quando o encontrasse? O que iria dizer para ele?

– Eu vi na televisão que amanhã o tempo já vai estar bom. Aí você poderá dar suas voltinhas de bicicleta.

Clarissa sentiu um tom de malícia na voz de Dona Iara.

– Pode ser tarde demais, vó. Talvez ele até já tenha ido embora.
– Tenha calma. O fato de não sabermos quem ele é não significa que seja um turista. Ele pode muito bem morar por aqui.
– Ah, seria excelente – Clarissa suspirou. – Mas acho isto meio improvável.
– Deixe para se preocupar amanhã. Vamos fazer um bolinho de chuva?

O dia passou à base de muita comilança, jogos de cartas e dominó, mais os causos contados pelo avô Ricardo. A chuvarada só parou quando Clarissa foi dormir, às onze horas da noite. Sinal que o dia seguinte poderia lhe trazer boas novidades.

                                                     *

Era mais ou menos quatro horas da tarde e o sol brilhava forte. Clarissa recém havia ajudado a embalar alguns doces para a avó e não aguentava mais de vontade de sair de bicicleta.

– Vó, posso dar uma saída? Você ainda vai precisar de mim?
– Está tudo pronto aqui, Clarinha. Pode ir passear na sua bicicleta.

Vô Ricardo apareceu naquele instante. Ele era um homem grande, com quase setenta anos, sempre esbanjando boa saúde e disposição.

– Alguém falou em andar de bicicleta? Vamos lá, Clarinha. O dia está pedindo uma diversão.

Clarissa sorriu amarelo. Não estava nos seus planos sair acompanhada.

– Que ótimo, vô. Estou pronta.

Os dois partiram em seguida e Ricardo a levou por lugares que a garota ainda não conhecia. Ela estava atenta, olhando para todos os lados procurando Dani. Nem sinal e nem ninguém parecido para lhe dar algum tipo de esperança. E com o avô Ricardo ao seu lado, falante e brincalhão, o risco de dar algo errado era praticamente 100%. Depois de quase duas horas de pedaladas, Ricardo convidou Clarissa para ir tomar suco em uma lanchonete. Os dois estavam aproximadamente a dez minutos de casa.

Àquela altura Clarissa já estava cansada e desabou em uma cadeira ao lado do avô. Logo um amigo dele apareceu e ambos engataram um papo animado. Sedenta, Clarissa tomou todo seu suco de laranja bem rápido. Já o avô não dava mostras de que pretendia sair dali tão cedo.

– Vô – ela cutucou o braço dele. – Eu vou indo para casa. Encontro você por lá.

O homem fez um gesto liberando a neta, distraído na sua conversa. Louca por um banho, Clarissa montou a bicicleta e saiu pedalando devagar. Sem dúvida dormiria feito um anjo naquela noite. Quem sabe pelo menos nos seus sonhos Dani aparecesse?


Será que Clarissa vai encontrar o gato misterioso? Confira o próximo capítulo!!!



Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 14/03/2018
Reeditado em 14/03/2018
Código do texto: T6279332
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 49 anos
646 textos (48965 leituras)
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Patrícia da Fonseca