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MEU AMOR MISTERIOSO - Parte 9

Dona Iara e Ricardo acharam a ideia excelente. O evento terminou por volta das 15 horas e dali Mariana e Clarissa saíram juntas.
Assim que Mariana deu a partida no motor a garota perguntou, curiosa:
— Você já foi à hospedaria alguma vez?
Mariana respondeu enquanto manobrava o carro:
— Sim, há muitos anos, quando ela estava no auge – suspirou. — Era um lugar muito bonito, cheio de gente sofisticada e alto astral. Não acreditamos quando fechou. Ninguém esperava por aquilo.
— Meu vô disse a mesma coisa. E eu quase não acreditei. Ontem… bem, ontem parecia tudo normal lá em cima. Quase normal, com exceção dos hóspedes que me ignoraram ou fugiram.
A outra ficou silêncio quase todo o caminho. Clarissa a observava com o canto do olho, tentando adivinhar o que se passava na cabeça dela. Mariana não estava sendo apenas “legal”. Havia alguma coisa por trás daquele convite. Clarissa tinha quase certeza que Mariana conhecia Dani. Só não conseguia imaginar qual a relação que ambos poderiam ter.
O bairro estava deserto quando o carro cruzou as ruas pouco arborizadas. Sacos de lixo se acumulavam nas calçadas. Nem todas as casas estavam abandonadas. Havia alguns carros nas garagens, mas não se via vivalma caminhando pelos passeios. Clarissa murmurou:
— Onde está todo mundo?
Mariana conduziu o carro ainda imersa em silêncio. Ela parecia tensa, apertando com força o volante. A hospedaria se aproximava e Clarissa se deu conta que segurava o ar.
A placa com os dizeres “hospedaria” estava pendurada, presa por somente um prego, sem charme nenhum. Mariana perguntou:
— Quer mesmo subir?
Os olhos de Clarissa estavam arregalados. As coisas estavam bem diferentes. O calçamento desmoronava. Havia partes da calçada que estavam esburacadas e havia menos árvores. Nada parecia ter vida naquele lugar.
— Sim, eu quero.
Mariana começou a subir a lomba ignorando os solavancos causados pelos buracos.
— A ganância deixou este local magnífico ficar deste jeito – suspirou ela com as mãos firmes na direção. — Você não tem ideia de como esta propriedade era incrível.
Clarissa tinha ideia, sim. Pudera ver com seus próprios olhos todo o glamour de Castelo de Pedra. Há apenas 24 horas a hospedaria parecia emitir luz própria, pulsando vida e beleza. Porém, ao chegar lá em cima tudo o que Clarissa via era o mato tomando conta, o telhado faltando em algumas partes e a madeira sendo consumida pelo cupim.
— Vamos descer – disse Mariana abrindo a porta do carro.
Clarissa, em choque, levou alguns segundos para sair do seu torpor. Lentamente, ela saiu do carro com os olhos arregalados. O primeiro passo dado quase a levou ao chão quando, distraída, enfiou o pé em um dos tantos buracos. Mariana alertou, preocupada:
— Olhe onde você pisa, Clarissa. O terreno não é de confiança.
As duas caminharam lado a lado pelo jardim devastado. Os balanços estavam pendurados pelas correntes de um lado só ou quebrados. Não havia flores em lugar nenhum. Do banco onde sentara ao lado da velha senhora só restara o assento. A garota olhou ao redor. A hospedaria nada mais era que um esqueleto, uma montanha de ossos abandonada.
— Onde você viu o rapaz? – a voz de Mariana rompeu o silêncio. Ela também não se sentia bem naquele lugar. Apesar de saber o estado precário da hospedaria, não imaginava que tudo estivesse tão arrasado. O interior deveria estar pior ainda devido ao telhado em péssimas condições e a chuva que caía dentro. O cenário era desolador.
— Lá – Clarissa apontou para a edificação que, no dia anterior, se erguia imponente. Ela não sentia a menor vontade de seguir naquela direção.
Mariana tomou a frente e Clarissa terminou por segui-la. Quando se aproximaram Clarissa se deparou com a enorme janela totalmente fechada por pedaços de madeira.
— Não estava assim ontem – ela murmurou, chocada.
— O rapaz tocava piano dentro do salão? – indagou Mariana com a voz sumida.
— Sim. E era o salão mais lindo que eu já vi na minha vida.
Mas agora não havia nada. Clarissa e Mariana ficaram paradas, lado a lado, sem saber ao certo o que fazer.
— Não é perigoso?
— O quê?
Clarissa sacudiu os ombros.
— Ficarmos neste lugar, sozinhas.
— Nada acontece aqui.
Ambas falavam em tom baixo como se tivessem medo de serem ouvidas. Clarissa, então, decidiu caminhar até a grande janela do salão. Queria tocar na madeira para ter certeza que ela era de verdade.
Mariana ficou parada no mesmo lugar enquanto Clarissa se dirigia até o janelão. Ela se posicionou em frente, respirou fundo e encostou a ponta do dedo.
A madeira estava ali. Úmida pelas condições climáticas e alertando que ela existia de verdade. Mesmo assim Clarissa não se deu por vencida. Precisava se certificar. Bateu com o nó dos dedos na madeira, suavemente. Depois usou de mais força dobrando o peso da mão. A madeira cedeu um pouco.
— Não convém forçar muito, Clarissa – advertiu Mariana sem entender direito o que a garota pretendia.
Mas foi exatamente o que Clarissa fez. Sem pensar, ela deu um empurrão na madeira para testar sua resistência. A madeira não suportou a pressão. Com um estrondo ela desabou para dentro do salão, revelando um lugar escuro, fedendo a mofo e à podridão.
Mariana deu um pequeno grito, enquanto a própria Clarissa colocava a mão no coração, de susto. Ela aproximou-se um pouco mais. Precisava saber se realmente havia um piano lá dentro.
Um clarão iluminou o céu e o interior do salão. Clarissa enxergou nitidamente Dani, em pé, no meio do vasto aposento, encarando-a com um olhar triste.
O relâmpago durou meio segundo, se tanto, mais foi o bastante para Clarissa recuar com um grito de horror, tropeçar e cair sobre as pedras. Ela se levantou em seguida, apavorada e com as palmas das mãos sangrando. Mariana, pálida, precipitou-se em sua direção, tentando ajudá-la.
— Clarissa, o que houve?
— Vamos embora daqui!
Clarissa caiu de novo, desta vez aos pés de Mariana. A imagem vista dentro do salão a assustara terrivelmente. Mariana tentou ajudá-la a se levantar preocupada com o estado da garota.
— O que você viu? – perguntou ela, ansiosa, reparando nas mãos ensanguentadas e trêmulas de Clarissa. — Clarissa, me conte o que foi!
A garota finalmente ficou em pé evitando olhar na direção do salão. Tinha medo de ver Dani na janela feito uma assombração.
— Vamos sair daqui! – repetiu Clarissa, muito pálida.
As duas correram para o carro e, antes de dar a partida, Mariana insistiu:
— O que você viu lá dentro?
A voz de Clarissa custou a sair:
— Eu vi… Eu vi… Ele parado no meio do salão.
— O quê?
Mariana deixou o motor apagar deixando Clarissa mais apavorada. Estava morrendo de medo que alguém aparecesse de repente na frente do carro e impedisse a saída delas de lá.
— Ele está lá! – Clarissa respirou fundo. — Meu Deus, eu acho que é ele sim!
— Não pode ser! – o carro apagou de novo nas mãos de Mariana. — Não tem ninguém lá dentro! A hospedaria está fechada há anos!
Clarissa não respondeu. E nem poderia. A respiração ofegante e entrecortada lhe impedia de articular as palavras.
Mariana finalmente conseguiu fazer o carro movimentar e, rapidamente, as duas saíram dali. Em silêncio, cruzaram o bairro deserto. Ameaçava chover novamente em Santa Maria da Serra.
— Está doendo? – Mariana perguntou com a voz estrangulada.
— Hein?
— Suas mãos – ela apontou com a cabeça para as mãos feridas de Clarissa. — Estão machucadas.
— Oh, é mesmo.
Clarissa recém havia se dado conta que as mãos estavam arranhadas e sangrando. Isto não importava tanto. Estava chocada demais com o que vira na hospedaria.
— Estou bem.
— Tem uma caixa de lenços de papel no porta-luvas. Pode usar.
— Obrigada.
À medida que se afastavam, tanto o coração de Clarissa quanto o de Mariana pararam de bater com tanta força. Volta e meia Mariana respirava fundo, tamborilando os dedos no volante. Parecia querer falar alguma coisa. Por fim disse:
— O que você vai dizer para sua avó sobre as mãos esfoladas?
— Já tenho a mentira pronta – confessou Clarissa. — Vou contar que estivemos em uma das trilhas que levam às cachoeiras e acabei escorregando. Isto explica minha calça suja de terra.
— Vou entrar junto com você. Dona Iara pode se aborrecer por eu não ter lhe cuidado direito.
Quando chegaram em casa, mais calmas, Dona Iara não desconfiou dos machucados de Clarissa e ainda convidou Mariana para tomar um chá. Enquanto as duas conversavam na cozinha, Clarissa observou o modo que Mariana se comportava. Depois do que acontecera, a mulher parecia ainda mais esquisita. Ela respondia aos monossílabos e bebeu um número maior de xícaras de chá a que estava acostumada. Era nítido o esforço que fazia para manter a serenidade. Dona Iara não percebeu nada.
Depois da quarta xícara de chá, Mariana se levantou tão bruscamente para ir embora que a cadeira caiu para trás. Com o rosto em chamas ela tentou se desculpar:
— Oh, perdão, Dona Iara. Como sou desastrada!
Os olhos de Clarissa e Mariana se encontraram por um instante, mas a mulher logo tratou de desviar o olhar. Mariana se despediu de Dona Iara e deu um abano rápido para a menina. Ela saiu apressada e em seguida foi ouvido o barulho do carro indo embora.
Clarissa se aproximou da janela. As nuvens que antes ameaçavam cair com força haviam dado lugar às estrelas. Dona Iara parou ao lado da neta e perguntou:
— Estava bom o passeio?
A jovem evitou olhar para a avó.
— Ótimo. Pena que eu não olhei para onde pisava.
— Mariana é uma ótima pessoa, só muito reservada. Me surpreendi de ela ter convidado você para um passeio. É um bom sinal.
Clarissa também estava muito surpresa. Mariana havia mudado depois de ter visto o desenho de Dani. Tinha certeza que ela o conhecia. Ou alguém próximo a ele.
— Por que você acha que é um bom sinal, vó?
 — Mariana não se relaciona com muitas pessoas. Às vezes tenho a impressão que ela tem medo de conversar com gente diferente. Acho que ela não lhe encara como uma ameaça. Ou uma intrusa. Talvez minha amiga esteja mudando. Fará muito bem a ela.
A garota tentava não pensar na visão que tivera. Tinha sido horrível. Assustador. Dani, ou seja lá quem ele era, era dono de um semblante muito triste, de cortar o coração.
Havia alguma errada naquele lugar.
Ela precisava saber o que existia de verdade lá em cima. Uma hospedaria em ruínas ou um lugar em seu esplendor? A hospedaria estava em funcionamento ou seus hóspedes transitavam em outro mundo?
Mas... se eles transitavam em um plano diferente, isto significava que estavam mortos?
— Ai, meu Deus! – gemeu Clarissa sentindo um arrepio.
— O que houve? – Dona Iara estranhou. — As mãos estão doendo?
— Ardendo, mas não é nada – ela novamente evitou olhar para a vó. — Já vai passar.
Naquela noite Clarissa custou a dormir como já era o esperado. E, por precaução, deixou a luz do abajur acesa. Cada ruído da casa ou na rua era motivo para o coração acelerar. O desenho de Dani estava bem guardado na bolsa. Desde que voltara não tivera mais coragem de olhar para ele.
“Dani, quem é você?”
A dor dos olhos do rapaz doía também no peito de Clarissa. No fim das contas, por volta das duas horas da manhã, ela já não sabia mais o que havia visto na hospedaria. Sua mente estava lhe pregando peças. Mas, por via das dúvidas, era melhor mesmo deixar a luz acesa.
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 16/04/2018
Reeditado em 16/04/2018
Código do texto: T6309911
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 49 anos
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Patrícia da Fonseca