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MEU AMOR MISTERIOSO - Parte 10

Clarissa se encontrou com Mariana novamente no dia seguinte perto do meio dia. Estava entrando no mercadinho e por pouco não esbarrou nela. Mariana ficou ligeiramente desconcertada.
– Oh, Clarissa! Tudo bem com você?
– Oi, tudo ótimo.
As duas ficaram paradas frente a frente, uma bloqueando a passagem da outra.
– Suas mãos... como estão?
– Ah, estão melhores – Clarissa mostrou as palmas das mãos para ela. – Só ardem um pouquinho. Você… você dormiu bem depois de ontem?
Mariana não demonstrava estar disposta a falar sobre o ocorrido. Estava bem nítida na sua expressão o quanto o assunto a incomodava.
– Dormi muito bem – garantiu ela, mas Clarissa não acreditou. – Feito uma pedra.
– Que ótimo.
– Bem, eu preciso ir. Meus gatos estão com fome.
A mulher forçou a passagem, ansiosa para ir embora. Antes, porém, que ela fugisse, Clarissa tratou logo de perguntar:
– Você não o conhece mesmo? Tem certeza que nunca o viu?
Clarissa percebeu uma leve mudança no semblante de Mariana. Ela respirou fundo, disfarçadamente, e piscou os olhos duas vezes. Não adiantava dizer que não sabia do que Clarissa estava falando.
– Já respondi isto ontem para você – Mariana retrucou com muita calma. – Ele é um total desconhecido para mim.
As duas se encararam por mais um instante e Mariana se despediu, alegando mais uma vez que os gatinhos estavam famintos.
Clarissa voltou para casa mais intrigada que nunca. E animada também. Tinha dois mistérios para desvendar: a hospedaria e o coração atormentado de Mariana.
Não sabia nem por onde começar.
*
Toda vez que Clarissa ia para a hospedaria, o tempo ficava feio e ameaçava chuva. Por isto, naquela tarde, antes de pegar a bicicleta para ir novamente até lá, ela olhou para o céu atentamente. O dia estava lindo e sem sinal de nuvens. A previsão do tempo também era favorável. Nada de chuva ou vendaval. Portanto, se despencasse uma chuvarada de repente era por que realmente havia algo de muito errado com aquele local.
Foi com o coração transbordando pela boca que Clarissa tomou o rumo da hospedaria. Durante o trajeto sentiu as pernas amolecerem várias vezes e a garganta ficar seca. Não sabia mais o que esperar daquele lugar. Tudo o que acontecia lá era estranho e Clarissa não sabia mais o que era verdade ou não. Não eram nem três horas da tarde. Decidira ir cedo para não ter que voltar à noite, caso se demorasse por algum motivo. No entanto, sabia que não teria coragem de subir até a casa. Se deparar com as ruínas ou com Dani no meio do salão abandonado era demais para seu coração.
A avó estava desconfiada que alguma coisa estranha estava acontecendo em razão do pouco apetite da neta durante o almoço. A ansiedade a atormentavam e lhe tirava a fome. Para Dona Iara não aumentar seu grau de desconfiança e para que ela própria não ficasse fraca, Clarissa comeu arroz, feijão e carne, em porções pequenas. Não podia se dar ao luxo de ficar doente justo naquele momento. Aliás, suas férias não poderiam acabar antes que desvendasse todo aquele mistério.
Mariana não perdia por esperar.
Quando chegou ao bairro o céu continuava azul. O dia estava quente e bonito, muito convidativo para dar uma volta de bicicleta. As pernas estavam cansadas das pedaladas e do nervosismo, mas Clarissa não pensava em desistir quando avançou pelas ruas calmas. Naquela tarde havia um pouco mais de movimento. Algumas pessoas nos jardins, cachorros passeando soltos nas ruas. Muitas casas permaneciam fechadas conferindo um ar de abandono maior ao local. Aquilo deixava Clarissa nervosa e ela passou praticamente reto pelas casas sem olhar para nenhuma delas. Ela só parou frente à hospedaria.
Clarissa apoiou os pés no chão sem desmontar da bike. Respirou fundo e depois soltou todo o ar pela boca. Para sua investigação ser completa ela sabia que teria que subir até a hospedaria. Mas cadê a coragem? A garota olhou para cima, sem conseguir enxergar nada além das árvores. Ao fechar os olhos visualizou o rapaz sentado em um dos bancos do jardim como se estivesse esperando-a. Clarissa engoliu em seco. Não havia nada lá em cima. Nem hóspedes, nem Dani, somente uma edificação em ruínas.
Ainda de olhos fechados Clarissa percebeu algo estranho no ar. Primeiro foram algumas notas suaves trazidas pelo vento. Ela quase suspendeu a respiração. Não podia ser verdade! Depois a música se tornou mais forte, mais nítida. Não era a mesma que Clarissa havia escutado naquela tarde em que presenciara Dani ao piano.
Clarissa não tinha coragem sequer de se mexer. Olhos cerrados, pés firmes no chão e as mãos segurando com força a bicicleta. Qualquer movimento iria dissolver a mágica do momento. Lá em cima Dani estava tocando para ela e duas lágrimas escorreram pelo seu rosto. Será que ele estava lhe chamando? Ela deixou o ar escapar devagarzinho. Talvez a hospedaria estivesse funcionando em toda sua glória.
Poderia subir. Por que não?
Um deslocamento de ar ao seu lado em meio a passos suaves fez com que Clarissa abrisse os olhos, surpresa. Por meio segundo achou que veria Dani parado ao seu lado. Mas não era ele. Uma senhora de cabelos brancos, aparentando ser da idade da sua avó, encarava-a atentamente. Clarissa deixou escapar um gritinho de susto.
– Oh, me desculpe – disse a mulher, sorridente. – Não tinha intenção de assustá-la.
Clarissa sabia estar branca de medo, mas pelo menos o coração já batia mais devagar.
– Tudo bem – ela deixou o ar sair aos poucos. – Eu estava concentrada na música.
A garota se calou bruscamente. Música. Que mico. Na certa a senhora não deveria estar ouvindo música nenhuma.
– Eu escuto sempre.
– Como assim? – Clarissa chegou a piscar. – Você... você consegue escutar o som do piano?
Ela balançou a cabeça fazendo que sim.
– Quase sempre. Os acordes do piano são trazidos pelo vento para os poucos que restaram no bairro. Algumas vezes ouvimos sem vento algum também. É como se fosse um encantamento. Alguém – ela apontou para o alto, para a hospedaria – gosta de nós.
Clarissa olhou para onde a mulher apontava e depois se voltou para ela.
– Você já morava aqui quando este lugar funcionava?
Ela balançou a cabeça fazendo que sim.
– Nunca participei de festa nenhuma, mas eu via os carros chegando. As festas eram lindas. Eu escutava o som das vozes e das músicas aqui de baixo. Muita gente famosa vinha até aqui, mas eu não via ninguém. Eles chegavam em seus carros poderosos e de vidros escuros e subiam o caminho de pedras dispostos a passar horas maravilhosas – ela deu uma risadinha. – Confesso que morria de inveja, mas não podia sequer parar aqui na frente. Havia uma legião de seguranças que não deixava os pobres mortais passar dos limites estipulados por eles.
– Então me diga uma coisa – pediu Clarissa com a garganta seca. – Quem é o pianista? Quem é a pessoa que toca piano tão lindamente?
Ela balançou a cabeça com ar pesaroso.
– Eu nunca soube, minha menina. Enfim... mas ele nunca nos abandonou. Ou ela. Mesmo com a hospedaria virada em escombros, há dias e noites que o escutamos por várias horas seguidas. Como agora.
– Mas… você tem certeza que vem lá de cima?
A senhora riu.
– Você acha que vem de onde?
A história causava mais espanto ainda em Clarissa. O relato da mulher deixara sua pele toda arrepiada.
– Então há alguém lá em cima – insistiu a garota.
– Não há ninguém lá – a mulher afirmou, categórica. – Ninguém vivo.
Clarissa sentiu que ficava mais pálida ainda.
– Não precisa se preocupar. Os fantasmas que habitam a hospedaria até hoje são inofensivos. É a música, a risada deles, o som das taças de champanhe que alegram este bairro tão abandonado.
– Meu Deus! Vocês escutam as vozes dos hóspedes também?
– Quando assim é permitido.
A jovem olhou para a mulher. Os cabelos brancos lhe davam um ar simpático e sua voz inspirava grande sensação de paz, apesar do pavor de Clarissa.
– Você é de verdade?
Clarissa se surpreendeu com sua própria pergunta. A mulher olhou para ela e sorriu:
– Depende do plano em que você está.
– Bem, eu preciso ir – disse Clarissa com a voz incerta. Ela segurou firme o guidom da bicicleta. Lá em cima a música se tornou mais alta.
– Volte sempre que quiser – a mulher falou quando Clarissa começou a dar meia volta para sair o mais rápido possível dali. – Não são todos que conseguem ouvir o pianista.
*
Clarissa chegou abalada em casa. A avó cozinhava seus doces na cozinha e pediu seu auxílio. Afobada, não percebeu a inquietação da neta. Enquanto misturava os ingredientes, a garota se perguntava aonde iria parar com toda aquela investigação. Cada vez que ia até a hospedaria voltava com uma novidade incompreensível. Não sabia mais o que pensar. Tivera contato com pessoas que não sabia sequer se estavam vivas. Isto era terrível, quase um pesadelo. Desistira de procurar Dani pelas ruas. Sabia que ele agora estava na hospedaria, tocando seu piano para quem tivesse a sorte de ouvir. Pensou em convidar o avô Ricardo para ir até lá. Confiava nele. Certamente o homem não sofreria nenhuma alucinação como ela vinha tendo desde que pusera os pés na hospedaria.
– Ai!
Dona Iara espichou os olhos para a neta.
– O que houve, Clarinha?
– Nada demais, vó – disse ela lambendo o dedo. – Me queimei com o creme.
– Ih… - fez Dona Iara. – Você anda bem esquisita ultimamente.
– Eu, vó? Impressão sua.
Alguém bateu na campainha e Clarissa deu graças a Deus pela conversa ter sido interrompida. Dona Iara largou as coisas sobre a mesa e foi até a porta. Clarissa respirou fundo. Esperava que a avó não tornasse a vir com aquele assunto chato.
– Mariana! Tudo bem?
Clarissa levou um susto ao escutar o nome de Mariana e foi atrás da avó. Deparou-se com ela parada no meio da sala com uma expressão preocupada. Os olhos das duas se encontraram por alguns instantes.
– Preciso de uma ajuda sua, Dona Iara.
Mariana trazia urgência na voz. Ela estava inquieta, esfregando as mãos nervosamente.
– O que houve, criatura? Você está tensa.
– Recebi agora uma ligação da minha irmã, Solange – ela explicou. – Ela sofreu uma queda e está machucada. Pediu que eu fosse ajudá-la. – Mariana respirou fundo para buscar ar. – Minha irmã mora há trezentos quilômetros daqui.
Clarissa não perdia nada da conversa.
– Em que eu posso lhe ajudar, querida? – Dona Iara segurou as mãos geladas de Mariana.
– Meus gatos. Vou ficar um tempo fora e não tenho ninguém de confiança para cuidar deles. Preciso que alguém passe na minha casa todos os dias para dar comida aos bichinhos. A senhora pode fazer isto por mim?
Havia um brilho de ansiedade nos olhos de Mariana que cortou o coração de Dona Iara. Ela logo se prontificou:
– Claro, claro que sim. Pode contar comigo sempre.
– Dona Iara, eu não sei quanto tempo irá levar para eu voltar. Minha irmã tem filhos pequenos e ninguém para cuidar da casa. Vou fazer o possível para não demorar por lá.
– Mariana, não se preocupe. Eu vou cuidar bem dos gatinhos. Vá tranquila cuidar da sua irmã.
– Ela é a única pessoa que tenho neste mundo, Dona Iara – confessou Mariana para surpresa da senhora e também de Clarissa. A mulher remexeu dentro da bolsa e pegou várias notas de dinheiro. – Tome, Dona Iara. Isto dará para comprar ração para os gatos e cobrir mais alguma despesa.
Dona Iara pegou o dinheiro e o guardou cuidadosamente dentro de uma gaveta. Depois se voltou novamente para Mariana que continuava retorcendo as mãos sem parar.
– Fique tranquila e viaje sossegada, querida. Ligue para meu celular se precisar de alguma coisa.
– Muito obrigada – agradeceu Mariana. – Minhas coisas já estão no carro. Já coloquei comida para eles hoje. Bem, eu preciso ir.
As duas mulheres se despediram na porta e Mariana saiu sem olhar para Clarissa. Dona Iara observou a amiga partir e murmurou:
– Coitadinha da Mariana. Espero que tudo se resolva por lá.
A mente de Clarissa fervilhava.
– Vó, eu posso cuidar dos gatos da Mariana. Você não precisa ir na casa dela todos os dias.
– Veremos isto depois, Clarinha. O importante é não falharmos com Mariana neste momento em que ela precisa tanto de nós.

Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 20/04/2018
Reeditado em 20/04/2018
Código do texto: T6313792
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 49 anos
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