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MEU AMOR MISTERIOSO - Parte 17

Depois de uma noite mal dormida e sonhos ruins, Clarissa acordou um pouco depois das oito horas da manhã. Seu humor não estava dos melhores e o coração estava pesado e triste. Seria difícil voltar à casa de Mariana conhecendo toda sua triste história. O que mais desejava naquele momento era devolver a foto e o diário e nunca mais voltar lá. Esperava sinceramente que Mariana não demorasse muito para resolver seus problemas e retornasse de uma vez a Santa Maria da Serra. De repente todo o prazer em passar as férias com a avó tinha acabado. Talvez fosse melhor começar a pensar em voltar para sua própria casa também.

Clarissa fez o que pôde para tentar parecer normal frente aos avós. Ricardo contou algumas piadas e histórias engraçadas logo de manhã cedo e ela se viu obrigada a rir mesmo sem achar graça nenhuma. Dona Iara pediu ajuda para preparar alguns doces e Clarissa prometeu que faria isto na volta da casa de Mariana. Afinal, os gatos deveriam estar com fome.

Era cerca de dez horas da manhã quando Clarissa abriu a porta da casa de Mariana. Os gatos logo cercaram a garota, mas, antes de qualquer coisa, ela precisava devolver os pertences de Mariana aos seus devidos lugares. Clarissa subiu correndo até o quarto e colocou a foto dentro da caixinha junto com as outras.

Depois, com um suspiro triste, Clarissa se dirigiu até o sótão. Ainda que o final do romance tivesse sido tão triste, doeu seu coração em ter que devolver o diário. A vontade que tinha era de preencher com um final feliz as linhas em branco que ficaram. Felipe Mateus não teria morrido; havia sido um cara bem parecido. Aí, depois de trinta anos, ele volta a Santa Maria da Serra para rever Mariana. Então eles se casam e vivem felizes para sempre. Ah, se pudesse...

O coração batia forte quando Clarissa entrou no sótão e se aproximou rapidamente da prateleira da estante. O lugar onde o diário passara os últimos trinta anos continuava vago, esperando que a encadernação dourada voltasse ao seu posto. Com um suspiro de tristeza, Clarissa encaixou o diário na prateleira. Uma pena aquilo tudo.

– O que você está fazendo aqui?

Clarissa estremeceu. O diário caiu aos pés dela quando a garota se voltou, assustada, para se deparar com Mariana, pálida e trêmula, à porta do sótão.

– Oh, Mariana... Me desculpe. Eu… – Clarissa não tinha o que dizer.
Mariana olhou para o diário no chão e depois tornou a encarar a jovem. Clarissa achou, por alguns segundos, que iria apanhar dela.

– Você… você leu minhas coisas?

Ela parecia tão triste que Clarissa chegou a se engasgar.

– Não... Sim, eu li cada frase.

Mariana escorregou pela parede e foi caindo lentamente até chegar ao chão. Ela cobriu o rosto com as mãos, evitando olhar para Clarissa. Envergonhada, a garota não sabia o que fazer.

– Mariana, me perdoe. Eu não pude evitar. Juro, não vou contar nada para ninguém.

A mulher soluçou e lágrimas vieram aos olhos de Clarissa também. Ela se aproximou lentamente e tocou nos cabelos de Mariana.

– Sinto muito por tudo, Mariana.

Afastando as mãos de Clarissa, Mariana esbravejou:

– Você não tinha este direito!

Clarissa engoliu em seco.

– Eu sei que fiz tudo errado. Oh, Mariana, eu sinto tanto por ele...

A garota deixou escapar um soluço também. Mariana a encarou, surpresa, entre lágrimas. Naquele momento as duas choravam.

– Eu não sei o motivo... – Mariana fez uma pausa para conseguir falar – ... de ele ter voltado depois de todo este tempo.
– Você também o viu vagando pela cidade? – Clarissa perguntou com a voz sumida.
– Não – Mariana continuava sentada no chão, abraçando os joelhos e olhando para lugar nenhum. – Mas eu vi a foto que você fez. Era ele. O pianista que você viu na hospedaria... Quem mais poderia ser?
– Mariana, talvez Felipe queira entrar em contato com você! – Clarissa enxugou as lágrimas rapidamente e se agachou para ficar do tamanho dela. – Ele pode estar arrependido de alguma coisa. Ou talvez tenha sido apenas intriga aquilo tudo. Você nunca pensou nisto?

Mariana fechou os olhos e as lágrimas banhavam seu rosto. Com uma expressão bem sofrida, ela balançou a cabeça fazendo que não.

– Nunca foi intriga, Clarissa. Talvez ele não me amasse tanto assim.
– Talvez Felipe tenha aparecido para mim para que eu lhe contasse alguma coisa.  Por algum motivo seu namorado não pôde entrar em contato com você.

Clarissa tentou, sem conseguir, injetar ânimo em Mariana. Sem sucesso. Ela levantou devagar, tirando a poeira da roupa. Com as mãos enxugou o rosto e murmurou com a voz quebrada:

– Ele não teria nenhum motivo para fazer isso, Clarissa. Não do jeito que terminou.
– Mariana, veja bem! Vocês não se despediram! Você nem sabe se ele realmente esteve no Lago da Neve com a tal da Valéria!

Mariana riu, sarcástica, em meio ao seu sofrimento.

– Ele esteve sim.
– Como você sabe?
– Eu sei.

Um silêncio se fez no sótão. Havia alguma coisa mais que Mariana não havia registrado no diário.

– Ele quer seu perdão, Mariana. Vá a uma missa e acenda algumas velas para Felipe. Pode ser que ele não tenha descansado até hoje.

Outra vez Mariana cobriu o rosto e Clarissa se perguntou se não estava falando coisas demais. De repente, Mariana disse:

– Coitado... Ele morreu afogado e congelado naquele lago horroroso. Meu Deus, eu não consigo me perdoar...

Clarissa não entendeu. Mariana descobriu o rosto e a encarou.

– Vá embora daqui. Agradeço por ter cuidado da minha casa e dos gatos, mas desapareça daqui. Nunca conte a ninguém sobre o que leu no meu diário.
– Está certo, não se preocupe – Clarissa assentiu, constrangida. – Desculpe de novo. Mariana... a única coisa que eu li no seu diário foi uma história de amor.

Mariana não disse nada. Caminhou até a prateleira e guardou o diário no seu lugar, ficando de costas para Clarissa. A garota esperou que Mariana se virasse para se despedirem, mas ela não se mexeu. Sabendo que sua presença era indesejada, Clarissa foi embora. Desceu lentamente as escadas, acariciou alguns dos gatos que foram se esfregar nas suas pernas e abriu a porta. Lá fora o dia brilhava enquanto Clarissa retornava para a casa da avó. Procurou Felipe em algum ponto do caminho, mas não o viu. Mas esperava, sinceramente, que um dia ele e Mariana pudessem se encontrar e ficar juntos para sempre.



Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 11/06/2018
Reeditado em 20/06/2018
Código do texto: T6361101
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 49 anos
646 textos (48675 leituras)
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Patrícia da Fonseca