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Os olhos charmosos do abismo

“Vinte e seis anos, trinta amores: trinta
vezes a alma de sonhos fatigada.
e, ao fim de tudo, como ao fim de cada
amor, a alma de amor sempre faminta!”

Humberto de Campos



      O verde dos olhos dela somava-se ao amarelo-ocre das águas. O rio se alongava a sua frente como uma sucuri gigante e suada no áspero chão brasileiro. O trecho de quatrocentos e quarenta quilômetros entre Guaíra, no Paraná, até Presidente Epitácio em São Paulo seria feito lentamente às vésperas do ano novo.
       Foi ideia do seu patrão recompensá-lo pelos bons serviços prestados à corretora. Ganhara o prêmio: um cruzeiro nacional pelo rio Paraná. Se tivesse se masturbado mais e trabalhado menos não estaria aqui. Era pegar ou largar, havia dito o chefe.
       Iria em um navio de médio porte e grandes emoções, havia dito o patrão. Teria refeições a bordo, direito a beber socialmente, um quarto com tv. Se tivesse sorte, disse o chefe, encontraria até uma namorada para ajudá-lo a passar os três dias da viagem. Mas, sorte é teu nome, havia dito o patrão. Com sorte ou sem sorte ele estava disposto a ir. Não queria comprar, nem vender nada por uns dias.
       Pegou a mochila, os óculos de sol e foi causando inveja nos que ficaram. Passou na pensão em que morava para pegar o carregador do celular. Vasculhou uma gaveta e encontrou duas camisinhas do feriado passado. Enfiou-as na lateral da mochila mais por hábito do que por convicção. E foi...
       No navio, saboreava um coquetel recostado no convés quando a pressentiu pela primeira vez. Ela subiu a bordo acompanhada de um senhor de idade. A primeira coisa que notou foram os olhos. Os dela pareciam um gramado de jardim tropical, um campo de futebol em dia de clássico. Os dele eram vermelhos como as labaredas do inferno, como  diziam os padres.
       Ocuparam um camarote próximo ao dele. Ficou pensando se eram gerente e empregada do ano. Ou se eram amantes em fuga. Soube, mais tarde, que eram marido e mulher. Sua atenção esfriou. Ficou quieto e sério na superfície, mas o desejo em suas virilhas era profundo como o leito do paranazão. Um desejo líquido e poroso que emanava dele e engrossava o caldo quando encontrava a cascata dos olhos dela.
       No almoço sentou-se na extremidade da mesa rústica que balançava com o sacolejo do navio. Ela e o marido chegaram quase atrasados com as caras amuadas de quem estavam brigando. Sentaram-se de frente para ele. Então, a mesa virou uma roda gigante: peixes, abacaxis, bananas, batatas e cerveja; tudo girava na mente dele. Suspendeu o álcool e, discretamente, levantou-se. Havia mais gente na mesa trepidante. Mas, só ouvia a mulher e o homem e os pares de olhos prenunciando problemas.
       Permaneceu de pé escorado na amurada fumando. Pressentiu quando ela se aproximou e da maneira mais óbvia perguntou se ele tinha fogo. Sacou o maço do bolso e sem olhar para ela ofereceu-o. A mulher agarrou o maço e o pulso dele. Fez uma leve pressão simulando intimidades. Teve medo de olhar. Queria mirar apenas o abismo das águas. Por fim, e impulsionado pela curiosidade e desejo, olhou. O que viu o desmontou, como se ele fosse um brinquedinho de criança pequena. Ela chorava.
       Engoliu em seco e antes de lhe acender o cigarro olhou para trás. Viu o marido encostado na porta e com a mão na maçaneta o encarando odiosamente. Tinha o rosto desesperado de ódio, onde se via que o mal pode estar em apenas dois lugares do corpo: nos olhos e no coração.
       Rapidamente acendeu o cigarro dela e tentou se concentrar num bando de garças que sobrevoava o navio. O barulho das aves não abafava o tremor do corpo dele. Virou-se de frente para o convés e olhando-a de lado pôde observá-la melhor. Era alta, magra e bonitona. Bonitona para ele queria dizer alguém que sabe que é bonita e impõe esse saber às outras mulheres.
       A beleza dela o encorajou perguntar. A liberdade dela se permitiu responder. Soube dela que eram casados há muito. Desde que ele era jovem e ela uma criança. Mas já haviam se separado e voltado tantas vezes quantos são os carnavais de uma década. Disse que ele era ciumento, mas não violento e que suportava ficar, às vezes, algumas noites sem ela. Principalmente quando trabalhava demais. E havia trazido trabalho para as férias.
       Ela virou-se de costas para o rio. Sacudiu a cabeça e brincou com os cachos do cabelo que lhe caíam na testa. Disse que essa noite o marido dormiria cedo, pois estava bebendo desde a manhã. Ele ainda perguntou se ela não tinha medo dos ciúmes do marido. A mulher riu e disse que ciúme é coisa de quem não tem coragem de se vingar.
       Ele, seduzido mais pelos olhos dela do que pela fraqueza do marido, disse que toparia o que ela topasse, pois já estavam próximo de Presidente Epitácio e assim que os fogos de ano-novo explodissem no céu eles começariam um novo ano onde não mais se veriam e nem gostariam de ter que rever os mesmos problemas. O nosso encontro será um fim e só será bom porque será desse jeito, imaginavam eles.
       À noite, após o jantar na cabine, ele saiu para contemplar as estrelas. Mesmo usando coletes não quis se aproximar da amurada. Havia tomado alguns champanhes e sentiu uma leve sonolência. Deitou-se, espreguiçando, numa cadeira comprida e fumou despreocupadamente. Cochilou. De repente ouviu sussurros, depois conversa alterada, a seguir gritos que vinham da cabine do casal.
       Levantou-se, trôpego de sono e foi até a porta. Tentou ouvir, mas os barulhos cessaram. Reticente voltou à cadeira e ouviu os primeiros fogos de artifício que brilhavam no céu paulista. Acendeu um cigarro e fumou vagarosamente.
       Enquanto fumava pensou ter sentido um cheiro de queimado. Apagou o cigarro na sola do chinelo e o cheiro de fumaça só fez aumentar. A seguir, ouviu um estrondo muito próximo para ser confundido com fogos na cidade. Antes que pudesse se levantar viu a porta de madeira da cabine dos vizinhos voar pelos ares levando com ela uma mesa enfeitada de folhas de bananeira. Deitou-se no assoalho enquanto contava as detonações. Pôde ouvir três grandes explosões. A quarta o atirou sobre a amurada do navio. Ainda viu um enfermeiro, um salva-vidas, um casal de idosos correndo pelo que restou do convés, mas no momento seguinte uma escuridão dolorosa invadiu o seu corpo.
        Quando deu por si estava só, cercado de águas turbulentas, agarrado ao que restou da amurada do navio. A dor era menor que o medo. E o pânico se avizinhava. Nos ouvidos, o barulho monstruoso da explosão. A água agitada batia em seu corpo vivo e solitário. Usava todas as forças tentando manter a cabeça para fora da água, chorava e seus olhos ardiam. Parou de chorar um instante, quando viu passar boiando dois corpos abraçados do que outrora foi um casal. Duas pastas de sangue e carne carbonizadas. Quase irreconhecíveis, a não ser por dois olhos verdes arregalados em cima do que parecia um rosto.
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Enviado por make em 09/11/2018
Reeditado em 12/11/2018
Código do texto: T6498156
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
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Bataiporã - Mato Grosso do Sul - Brasil, 38 anos
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