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No Terreiro de Zé Andira

   

      José Henrique viveu durante alguns anos numa casa cercada por arame farpado e algumas estacas resistentes ao tempo, no extremo do Curu, no Ceará. Acredito que muitas pessoas da cidade se lembrem dele, possivelmente até de modo agradável. Se há alguém que lembre dele, esse alguém deve conhecer muito ou um pouco do que vou contar.
     "Zé Andira", apelidaram ele assim porque gostava do escuro e em noites de luar ele não saía de casa. Não era um homem muito popular, vivia isolado. Ele não era desagradável ou desprezível no modo de ser, agia de forma simpática e reservada. Vivia do cultivo da terra não muito fértil de um fazendeiro que tinha pena dele. Sem parentes e sem aderentes viveu Zé Andira nos últimos anos de vida.
     Um certo dia ele sumiu misteriosamente, e o esforço dos empregados do fazendeiro e de algumas outras pessoas que tinham certa amizade com ele foi inútil, não conseguiram encontrá-lo, nem sequer uma pista de onde e porquê ele foi. Não tinha falado nada sobre ir embora: tudo estava como se ele tivesse saído em direção ao poço que ele mesmo havia cavado no final de seu terreiro. Por muitos dias, toda gente só falava no sumiço dele. Não demorou muito para que virasse a lenda da cidade.
     O povo contava que quem passava em frente a antiga casa durante a noite e principalmente em noite de luar era possível ouvir gemidos e pedidos de socorro ecoarem como se viessem do fundo do poço. É natural surgirem histórias em torno de uma lenda, ainda mais quando se tem dúvida de que a lenda está viva. Aproximadamente três anos após o sumiço, as histórias assustadoras tinham se tornado tão comum, o mistério amedrontava as crianças e jovens. Um magote de homens da cidade decidiram destrinchar o mistério em torno de Zé Andira combinando assim passar uma noite dentro do terreiro do sumido. Os corajosos eram João Gonzaga, fazendeiro; Bento Gonzaga, pai do fazendeiro; Antônio Alves, empregado na fazenda Boa Fé, todos eles homens sérios e de bom caráter.
     Os fazendeiros esperaram Antônio, mas ele não veio na hora acertada, eles cavalgaram até o terreiro do sumido sem a presença do empregado. A noite não estava muito escura graças ao luar. Ajuntaram-se diante da pequena propriedade, esperaram ouvir os gemidos e pedidos de socorro, como diziam as pessoas. Eles tinham combinado de ficar em silêncio: nem sequer comentar a impontualidade de Antônio.
     Por cerca de meia hora os dois fazendeiros da Boa Fé ficaram parados e atentos a qualquer som, nada ouviram. O mais moço chamou o pai para entrarem na antiga casa, entraram, não era possível ver nada, tudo era da cor do breu. Caminharam até o fundo da casa, viram o terreiro e foram até o poço e nada de incomum presenciaram. Então acharam melhor voltarem para a fazenda, mas antes foram até a casa de Antônio saber o motivo de não ter feito como combinado.
     Quando já estavam a montar nos cavalos, eles ouviram (não sem emoção) a porta bater violentamente contra o entrave, era a porta dos fundos, escutaram também o arrastar de chinelos, era um som tão alto que parecia um arrasta-pé. Assustados, porém firmes, preparados para o que quer que viesse na mesma direção. A porta bateu mais uma vez contra o entrave, corajosos ainda aproximaram-se da casa, mas tudo era como breu, a cerca estava com os arames enferrujados e alguns estavam partidos, o clarão da lua ajudou os dois homens a ver Antônio caminhando pelo terreiro de Zé Andira.
     Era Antônio Alves. Conheceram pela roupa que ele costumava usar, ele caminhava com passos lentos como se estivesse hipnotizado por alguma coisa. Os homens gritaram seu nome, ele não respondeu ao chamado, uma rasga-mortalha passou sobre a cabeça dos dois e quase acertou o mais moço, distraídos com a ave, viram, ao virar  novamente o olhar para o homem, um bicho grande e escuro arrastá-lo. O fazendeiro puxou da cintura um revólver e atirou duas vezes contra o bicho que corria velozmente como nenhum outro animal do sertão corre. Ao longe viram o animal atravessar o terreiro de Zé Andira e sumir na brenha além da cerca.
     No dia seguinte, João e Bento ainda estavam no terreiro esperando a coisa horrenda voltar, ela não voltou. Eles refizeram os passos de Antônio Alves. No chão, as pegadas do peão que começaram na saída dos fundos da casa e terminaram no local onde a criatura tinha pegado ele. Não havia nenhuma pegada do bicho. O mais incrível é que a marca do corpo do homem arrastado só era visível até perto do poço, mas os dois fazendeiros viram a coisa pular a cerca e desaparecer.
     Logo o terreiro de Zé Andira veio a ser a nova lenda da cidade. Toda gente veio ver as pegadas e o rastro do peão, ficaram impressionados porque a marca no chão só ia até determinada parte, como se tivesse pulado para dentro do poço ou simplesmente desaparecido dali. Antônio Alves sumiu de maneira tão acabada e intrigante quanto José Henrique - o qual o editor do jornal, O Curu, acusou de forma infundada de ter "virado bicho e sumido nas brenhas, depois de ter feito muitas proezas por onde andou voltou para seu antigo lar justamente no dia do azar da vítima, que por sua vez foi levada sabe lá para onde".






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Aditamento: Este conto regional nasceu após a leitura de outros contos com traços regionais do autor Henrique Santos, meu querido e notável conterrâneo. Não que ele seja impregnado das mesmas características; pois não é; e, sim, porque tem traços regionais. Redigir um texto é para mim trabalho que distrai da pouca eternidade. Mas o conto que escrevi é interessante, tem odor de campa; apresenta dois desaparecentos misteriosos.
Leandro Ferreira Braga
Enviado por Leandro Ferreira Braga em 06/12/2018
Reeditado em 07/12/2018
Código do texto: T6520745
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Leandro Ferreira Braga
Fortaleza - Ceará - Brasil, 24 anos
9 textos (1107 leituras)
1 e-livros (30 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/18 20:25)
Leandro Ferreira Braga