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O Oásis e o Escorpião

       Ele nunca havia perdido aquela mania. Desde pequeno costumava se esparramar no chão da sala e ficava por tempo indeterminado a pensar na vida. Agora, com 32 anos, ainda bonito, futuro pai de uma menina, Gabriel ainda pensava mais quando se estirava no chão frio de cerâmica da sala. Para ele era como se jogar numa cama, pra Natália, sua esposa, era coisa de um homem cansado demais.
       E ele realmente estava cansado. Não só do trabalho, estava cansado de quase tudo, inclusive dele mesmo. Estava cansado de ser ele e outro... Ele para alguns, e outro para outras pessoas. Sejamos claros; ele estava cansado de ser falso.
       Isso. Falso. Talvez essa seja a palavra mais adequada pra definir algo que parece mas não é real. Pode até te iludir, enganar, mas alguém que conheça perceberá que não é verdadeiro. Que é falso.
       Pensando nisso Gabriel deitou mais uma vez na sala de sua humilde casa. Ainda estava pagando-a, mas em alguns anos, precisamente 25 anos, seria sua. Ou não, isso não importava agora. Que ele viesse a dormir ao relento mas sua filha jamais. Ela teria um teto nem que fosse feito de sua pele escalpelada. Era um homem falso, porém bastante consciente dos seus compromissos. Ou não... Talvez isso fosse o que ele tentasse sem sucesso acreditar. Ele não sabia o que era compromisso em seu real sentido. É preciso ter muito mais que compromissos financeiros, domésticos, familiares e outros tantos. É preciso compromisso com a vida. Não importava o quanto Gabriel viajasse em seus pensamentos ele sempre voltava pra o que havia feito e a vergonha o tomava. Pobre Milena... Como ela estaria agora? Era vergonhoso lembrar do ocorrido.
       Esticado e com os olhos fixos no telhado, Gabriel estava só em casa. Natália estava na casa da mãe e só viria em algumas horas. Teve tempo suficiente pra tomar umas doses e refletir no quanto estava deformado. Estava prestes a se levantar quando seus olhos encontraram, no curvar de sua cabeça em direção aos pés, uma forma que não identificou de pronto mas que imediatamente lhe trouxe a palavra aranha. Ficou imóvel, não reagiu puxando as pernas em reflexo, a adrenalina causava-lhe pulsações em todo o corpo, afinal, jamais estivera tão perto de um animal tão evitado pela maioria e ainda mais vestido apenas com cuecas. A forma real não estava sendo reconhecida porque a luz da sala estava apagada e apenas a lâmpada da cozinha dava-lhe um feixe de luz para que Gabriel se posicionasse. Não entendia por que por mais que quisesse se mover seu corpo parecia enferrujado... “ Que porra é essa? Esses uísques de buffet são uma merda mesmo, devo tá louco já”. Gabriel olhou para as mãos à procura de algo que pudesse ser atirado, um sapato, sandália, controle remoto, na verdade bastaria encolher as pernas num movimento rápido para sentir novamente segurança, já que a suposta aranha pareceu sequer se mover. Assim como o corpo de Gabriel. Ele sentia-se... estranho.
       Após segundo eternos, sem saber o que pensar e por que estava extremamente assustado, Gabriel notou que o bicho estava se movimentando lentamente. Sem buscar se compreender, apenas manteve o olhar firme no bicho que se movia em direção ao feixe de luz que vinha da cozinha, parecia que queria ser visto. Gabriel, mais imóvel do que nunca, sentia os efeitos da descarga de adrenalina em seus pensamentos que pareciam se chocar e se encaixar numa espiral de conclusões. O bicho apareceu justamente quando recordava da injustiça que cometera contra um ser bom... o melhor de todos... ele acreditava em sinais. Na verdade, sendo sincero consigo, pensava na injustiça que havia cometido contra o melhor ser que conhecera.
       Foi então que aconteceu a revelação. A até então aranha se locomoveu lentamente se afastando dos pés de Gabriel que se quisesse já poderia ter se levantado, mas que parecia hipnotizado com a situação tão incomum. Se assustava até com baratas, não entendia por que agora não sentia nada além de curiosidade. Quando ela parou sob a luz fez um movimento rotatório e Gabriel sentiu seus ossos trincarem; era um escorpião. Era meio transparente, disso não tinha dúvida. Seu corpo era esverdeado, um pouco escuro, mas suas patas e cauda eram claras. Parecia ter no mínimo 12 centímetros, sua calda estava apontando e encurvando para cima, como eles ficam quando estão em posição de ataque. As garras estavam erguidas. Parecia terrivelmente grande...
       Ninguém jamais poderá saber o que se passa nas profundezas do íntimo de um homem, ou de uma mulher, ou melhor, de um ser humano. Qualquer um, pessoa razoavelmente sã e capaz de discernir uma situação de alerta enviada ao cérebro pelos sentidos, decidiria por se afastar imediatamente e dar um fim difícil porém necessário a um animal tão gracioso. Ele era perigoso, certamente sua picada devesse doer de verdade, ou até mesmo poderia ser letal em alguns casos, mas naquele momento a mente bastante consciente dos atos íntimos de Gabriel olhava o escorpião e decidia por algo impensável pra maioria; não se levantaria. Ficaria e deixaria acontecer o que tivesse de acontecer. Deixaria que o escorpião decidisse se ele merecia ou não sofrer com seu veneno... Estava autorizando o destino a mover suas peças. Achava que um castigo era mais que justo... errara... sabia.
       Respirou profundamente e seus pensamentos mais uma vez voltaram ao interior do Estado. Do munícipio não será revelado o nome, basta saber que ficava a quilômetros incontáveis da capital Maceió para os que lá moravam, a maioria não sabia sequer contar. Fazia parte de sua profissão viajar pelas mais distantes cidades oferecendo seus produtos que mais pareciam obras divinas tamanha a ignorância do público alvo. Coisas normais para pessoas na medida do possível normais, não para pessoas abaixo das linhas de comparação. Foi em uma dessas cidades que ele viu Milena, andava segurando a mão de uma criança e conversava com ela como se não fosse uma mulher incrivelmente linda, sua aliança foi retirada imediatamente da mão esquerda diretamente para a carteira. Ela não se vestia de maneira alguma como uma jovem comum, não importava o quanto o vestido longo tentasse a envelhecer, era impossível, era linda, bastava olhar para seu rosto e topar-lhe os olhos pra se sentir como um garoto no colegial. Era uma beleza inocente. Fazia tempo que não olhava pra nenhuma outra daquele jeito desde sua Natália, a quem devia muito mais do que muito. Havia tido algumas mulheres durante seu namoro, noivado e casamento, elas vieram e foram, porém foi apenas prazer. Ele às vezes pagava. Mas aquela morena de olhos verdes fisgara-o e ele se viu tomado pelo desejo avassalador de tê-la. Talvez não fosse difícil e as chances estavam a seu favor porque ele era da cidade, era descolado e sempre atraiu as mulheres. E era falso... não se orgulhava disso, mas convencia bem. Perguntou se a criança era sua filha pra um de seus clientes, um pequeno comerciante, e a resposta o agradou. Era prima. Ela era solteira. E moça direita. Virgem...
       Gabriel mesmo que em seu íntimo imaginasse que tal situação absurda não provaria nada, a não ser que ele estava realmente ficando louco, sentia que era uma questão de fé em algo. Era de família cristã e a noção de castigo o acompanhara até então, por mais que ele acreditasse em algo que fosse mais do tipo piedoso. Perdão para ele era prova de amor. Ele acreditava merecer ser amado por ser mais bom do que mau. Em sua balança os pesos pesavam o que ele assim achava conveniente. Deus era fazer o bem...
       E encontrando coragem no fundo de seu poço de consciência ele se manteve deitado e seu pensamento agora estava na cidade distante onde tudo havia acontecido. Ninguém mais sabia do que fizera e quando Gabriel sentia vontade de se confessar era pra ele mesmo que falava. O que o incomodava era pensar que era covardia demais ajustar a corda no pescoço de uma criança, contando-a que iriam brincar de algo novo, e depois pendurá-la e vê-la agonizar. Não foi bem isso o que aconteceu, mas no fundo havia sido. O efeito foi o mesmo. O escorpião movia-se lentamente, os olhos de Gabriel o acompanhavam... o vento frio soprava por baixo da porta e os pensamentos acelerados (quem sabe pelo poder do chão da sala) se trombavam. De repente, numa velocidade irreal, o escorpião subiu na perna esquerda de Gabriel... Ele pôde sentir as patas encravadas em sua pele mas seu eu estava tão focado no que estava vivendo que ele apenas fechou os olhos e esperou... Estremeceu. Ainda não... Onde estava a dor? Esperou sentir a picada punitiva para que levantasse correndo desesperado em busca de ajuda, não sem antes estraçalhar o maldito animal. Mas nada aconteceu. Ou melhor, aconteceu. Aconteceu que ele entendeu o que estava acontecendo...
       Ele escolheria onde seria a dor; O escorpião.
       Ele continuou subindo, passou pelo joelho, desceu por entre as coxas e o coração de Gabriel quase parou diante da possibilidade de receber uma picada logo ali. Não, assim era demais. Com a adrenalina fluindo de seu cérebro Gabriel mal percebeu que ele já havia chegado ao umbigo. Gabriel ficou imóvel. O escorpião também. Lá estava ele, a cauda encurvada sobre a cabeça... dava pra ver o ferrão com o início de uma gotícula. Gabriel estava arrepiado e sentiu um calor nas vísceras que lhe fez pensar em banheiros químicos. Como ele achava que estava pensando mais, olhou nos olhos do escorpião e o ouviu dizer “Pense”.
       Pense?
       “Pense”, o escorpião repetiu. Ou teria sido sua imaginação?
      Gabriel já estava pensando antes. Sim. Ele tinha fé... Não sabia ao certo em que mas aquilo era real. Pensava no que podia ter sido um crime imperdoável, o fato de não saber não anularia sua culpa se ela existisse. E ele sabia que ela existia. Milena...
       Quanto tempo fazia?
       Gabriel acreditava que não mais que 1 ano. Calculou de acordo com as datas que batiam com a gestação de Natália. O que havia feito foi assim que soube que seria pai. Foi isso que o adoeceu. O medo de perder. Mas não só a família, o medo de se perder e de fazer perder. Quando seus caminhos se cruzaram nas vezes que se seguiram Gabriel foi o caçador perfeito. Os olhares deram a deixa mas ele sentia que era como olhar pra uma criança indefesa, Milena era uma mulher apenas por fora. E era linda. Uma flor de rara beleza num deserto causticante. Um oásis... O pai dela era um idoso inválido e a mãe lavava roupas dos outros no riacho perto de casa pra ganhar qualquer coisa mas era a igreja que ajudava. Eram pobres ao extremo. Lá eles pareciam entender mais sobre o Livro Sagrado, sendo que a maioria não sabia sequer ler. Milena também não sabia. Sabia lavar roupa. Gabriel não sabia disso até entregar nas mãos trêmulas da vítima um livro romântico que comprara especialmente para o ataque. Sentiu-se estranhamente desconfortável, seu desejo por alguns instantes foi de abraçar aquela criatura e começar imediatamente a alfabetizá-la. Mas a saia de crochê que Milena usava, feita por sua mãe durante todo um ano e que foi seu presente de aniversário de 19 anos, o trouxe novamente para a garganta da serpente... e ele disse que não havia problema. Ele leria pra ela...
       Seguiu-se um tempo e ele pôde então provar do mais proibido fruto. Usara sua lábia mas nem precisaria se fosse menos falso. Milena era uma alma pura. Acreditava que aquele homem que vinha de longe duas vezes por mês era realmente solteiro, que estava apaixonado, que a amava e que iria levar ela dali e a mostraria o mar... Era um sonho. Ela pedia sempre a Deus em suas orações pra ver o mar mas ao seu redor era só o nada... deserto. Sem saída. Do solo aos sonhos. O deserto era a vida... sua vida. Era uma terra esquecida e o mundo estava resumido em sair e ir pra cidade. A cidade era seu sonho. Na verdade, é uma ilusão, mas só pra quem a conhece. Antes o sonho era ter uma cama pra não dormir mais na esteira de palha, agora era ser uma pessoa. Que nem as das novelas, sempre assistia aquelas que tinha beijo e depois... amor. Amor... Era isso o que ela sentia por aquele homem com nome de anjo?
       Gabriel achou que nem seria preciso mudar de nome. Pra quê? Se ela sequer saberia sair da cidade? O ego de Gabriel foi seu maior amigo pois sempre que via Milena sem aquele vestido com cheiro de barata, ele achava que certamente mentir tinha suas vantagens. Ela o enlouquecia... O que pra ela era um sonho como na televisão ela assistia escondida da mãe foi na verdade um ato de selvageria. Gabriel parecia um animal que ficara enjaulado sem uma fêmea por décadas. Ele ainda assim a fez acreditar que aquilo era amor... Não mais a virgindade. E ela acreditou. Ela acreditava em tudo... ela não sabia de nada... pobre Milena... não sabia de nada...
       O escorpião continuou a subida. Gabriel sentiu e ordenou que os olhos não se abrissem. Não o olharia porque estava fazendo o que ele pedira. Estava pensando. Enquanto pensava, o escorpião e ele eram um só, o toque os unia. Um pensava e o outro via. Decidia. Subiu e parou na garganta de Gabriel que nesse momento sequer sentia o corpo. Estava entorpecido. Apenas a mente viajava. Em lembranças...
       Era quase impossível disfarçar em casa a ansiedade pela próxima viagem e Gabriel andava muito animado. Sentia-se vivo, renovado. Milhares de quilômetros dali alguém agradecia a Deus por ter encontrado uma saída... Alguém que acreditava estar mais viva... Sim. Milena. Mais viva porque havia outra vida dentro dela... uma vida além da dela... ela sentia. Gabriel ficou em estado de choque quando aquela moça que nada sabia disse que achava que sim... Grávida. Ele não demonstrou receio, escancarou seu mais ensaiado sorriso e disse que aquilo selaria seus destinos. Milena o abraçara entre lágrimas. O coração de Gabriel passou a pesar o dobro, depois o triplo, o quadruplo, até que ele não suportou. Até quando viveria aquela terrível ficção? Quem ele achava que era a ponto de manipular um sonho? Milena não merecia tão malogrado infortúnio, ela nada sabia. Era uma vida que valia à pena existir. Ela só queria ver o mar... Ele começava a cair...
       Gabriel sentia-se totalmente atado ao desejo do prazer. Sexo. Aquilo passara do limite e agora ele sentia que estava bastante encrencado. Milhares de possibilidades vieram à tona e ele se pegava pensando no que disse a Milena na última vez em que se viram e como ele insistiu pra que ela concordasse pra que fizessem amor... ela não queria porque queria conversar. “Vamos nos casar”, e os olhos verdes de Milena brilharam chorosos e ela o abraçou. Dizia que achava que sua mãe sabia. Os vizinhos tinham dito a ela e ela viu a mãe chorando no quarto. Disse a Gabriel que ela teria que entender que ela o amava e que era da vontade de Deus que eles ficassem juntos porque senão ele não viria de tão longe... Tinha que existir algo mais. E existia. A falsidade daquele nome de anjo... Gabriel se viu numa encruzilhada e quando Natália o abraçou chorando durante 5 minutos numa manhã de Domingo até que ele pudesse entender o que se passava, o estopim para o plano foi aceso. Havia muito tempo que eles vinham tentando o primeiro filho mas Natália parecia estéril. Votos e mais votos na igreja e muita oração por parte daqueles que a amavam foram decisivos para que ela conseguisse acreditar, e engravidar. Natália sonhava em ser mãe, foi a notícia mais incrível que eles como casal receberam. Mas Gabriel escondia algo obscuro... Ele estava maculando o mundo de alguém. Das duas...
       Foi durante uma conversa meio que desinteressada com uma tia bêbada que Gabriel perguntou o que poderia ser feito caso alguém que não quisesse estar com algo indesejado... que amadureceria dentro de 9 meses... e que já era vivo... decidisse encerrar os planos de futuro desse algo indesejado... O remédio, disse ela, a havia salvo diversas vezes quando era mais moça, falou sem pudor. Era uma velha vivida. Sem vergonha. Poderia ter sido mãe de vinte. Gabriel anotou o nome e comprou-o sob o olhar de reprovação não disfarçado da balconista. Ela sabia que aquele remédio curava falta de responsabilidade na maioria dos casos, planejamentos de vida. Talvez fosse cristã. Ficava julgando todos os clientes que passavam durante seu dia de trabalho condenando-os. Gabriel estava pensando que não tinha outra escolha porque já estava tão arrependido que não ficaria louco de vez. Não faria parecer que era um crime. A raiz do plano foi uma lembrança do início da aproximação, quando ele a presenteou com um creme para pentear, achava que ela não usava nada nos cabelos, e Milena que não sabia ler abriu o creme e como o cheiro era de morango disfarçadamente pegou um pequeno naco com o indicador e o levou à boca. Não sabia o que era aquilo, queria que fosse de comer. Gabriel caiu em risadas e ela disfarçou com vergonha desajeitada. Isso o fez lembrar de um livro que lera. Ele não imaginava o quão grande era sua fome, ela disfarçava bem, não queria preocupá-lo. Ele era seu amor e no tempo certo a salvaria, viera de longe... O gesto foi uma espécie de reflexo à tamanha privação. Ele havia percebido que ela estava emagrecendo durante a quinzena que antecedia os encontros, mas seu desejo não diminuía. Ela era usada. Ela estava perfeitamente enganada. Seria fácil enganá-la. Infelizmente, ele era falso...
       O escorpião então subiu escalando o queixo de Gabriel, cravou suas patas sobre seus lábios que nada fizeram, aquele era o momento mais assustador e mais verdadeiro em toda a vida que Gabriel podia lembrar. Era uma mistura de muitos impulsos disfarçados e muitas coisas escondidas. Ele subiu no nariz de Gabriel que por um momento pôde sentir que já não fazia parte da resolução do que estava acontecendo. Havia autorizado o destino...  poderia ter recuado quando viu o escorpião e tudo seria evitado, mas não. Ele quis pagar pra ver. Achava que merecia o veneno, se houvesse um julgamento justo e houvesse o perdão... Mas seus olhos semicerrados viam como um gigante, devido à proximidade, seu Acusador. Seu Carrasco. Ele estava pronto para executar sua tarefa, ainda assim ele havia dito “Pense”, e Gabriel ainda estava pensando. Faltava concluir sua fala.
       No dia do crime ele sabia que podia voltar mas um medo incansável o tomava. Imaginava Milena chegando na cidade e conseguindo encontra-lo, trazendo o fruto do que a iludira, do tal amor, e sua vida como havia sonhado sendo destroçada. Natália não o perdoaria e 10 anos de lealdade, amizade, respeito e sonhos, se perderiam porque ele era um maldito mentiroso. E falso. Egoísta. Calculista. Sentia raiva de si por ter sempre que ouvir seus impulsos ancestrais. Seus desejos. Mas ele tinha seus motivos, sua balança ainda pesava o que ele queria. Encontrou-se com Milena próximo ao rio que foi o palco de sua ruptura com a inocência. O ninho de amor. Ela estava visivelmente abatida e pela primeira vez antes de um beijo ela chorou. Chorou nos braços de Gabriel e disse que o pai havia dito que ela tinha dado desgosto maior que ficar aleijado. Que não tinha filha puta. Pediu pra que ele a levasse daquele deserto, implorou. Gabriel lembrou que ela antes fora seu oásis... Agora, quando ela mais precisava de uma verdade, ele ainda não percebia a gravidade do que estava acontecendo... Gabriel julgou que somente o mundo dele existia. Nada poderia trazer risco a ele.
       Conversaram muito e Gabriel pediu que ela esperasse só mais uma semana que a casa já estava quase pronta... não seria na capital, mas o que importava realmente era que casariam. Disse isso olhando no fundo dos olhos de Milena. O dom da mentira é como uma herança antiga... Ela, de nada sabia, mas seu coração bateu um pouco mais confiante e pela primeira vez em 4 meses ela disse-lhe que estava com fome... com timidez... Disse que tinha comida em casa... mentira... só que queria tomar sopa na Dona Isadora, uma velha obesa que tinha um boteco. O vestido folgado ajudava a esconder a silhueta que já se pronunciava. Depois da sopa visivelmente desejada há muito, ele disse que queria que ela tomasse um remédio para ajudar em sua saúde... ajudar com o que agora carregava... o remédio para resolver o problema... Gabriel hesitou, temendo porque esquecera que Milena de nada sabia, mas ela estendeu as duas mãos enquanto ele despejava o pó dos comprimidos macerados no copo com água. Ela sorriu com a gafe. Era uma dose aparentemente elevada mas a tia disse para ele que era o normal. Mexeu com uma colher da sopa que limpou na roupa mesmo, com pressa, e Milena tomou de um só gole e com um ar de leve delirante sonho. Confiava em Gabriel, seu anjo... Estava feliz porque ele iria lhe dar uma vida feliz... O remédio iria ajudar com a fome?
       E então Gabriel nunca mais voltou àquela velha cidade esquecida. Fugiu do deserto. Sem rastros...
       O vendedor que assumiu a rota mais distante da empresa, porém a mais rentável, foi incumbido de o informar sobre Milena. Wagner, o substituto, ao saber por acidente a verdadeira história por trás daquele homem que fingia uma boa ação ao ajuda-lo com uma promoção, sentiu uma repugnância tão forte por Gabriel que só lhe contou o que soube porque havia um acordo entre eles. A história se resumia ao aborto da filha da Dona Dalva, que havia resultado no infarto e morte do Seu Guedes. O caso causou grande comoção entre todos. A moça havia passado terrivelmente mal e até uma benzedeira de criança foi chamada diante do desespero e da falta de qualquer auxílio médico naquele deserto. Mas a moça, Milena, havia sangrado em frente ao pai que jazia imóvel numa cama, sem saber o motivo... perdeu seu sonho em frente aos seres que a haviam posto no mundo. Disseram que dava até pra ver os dedinhos do bebê...
      O escorpião desceu do rosto de Gabriel e seguiu numa marcha apressada pelo feixe de luz e ele apenas observava o majestoso animal que se afastava deixando um rastro de medo e vergonha absolutos na consciência de Gabriel. O que ele fez? Onde estava com a cabeça? Por que acabou com a vida de Milena? Ele pensou e deixou que o destino decidisse... havia sido absolvido... ele havia feito aquilo por medo de perder, de destruir sua vida de verdade por sua vida falsa, sua vida de mentira... e de mentiras... Mas havia errado e se arrependera com seu coração, ainda esperava repará-la de alguma forma. Seria o melhor esposo e pai que já existiu... Não merecia a família que tinha mas acreditava no aprendizado. Aquilo tudo tinha acontecido realmente? Existiu mesmo um escorpião? Teria sido o uísque? Não importava, ele sabia o que havia feito. Repousara na sombra de um oásis mas esquecera que ao redor ainda existia o deserto... deveria seguir em frente. Sentiu-se leve quando se levantou e foi ao banheiro, vomitando e passando 40 minutos desacordado no chão com o chuveiro ligado. Natália chegou e ele antes que fosse tarde se recompôs e a vida seguiu em sua normalidade. O escorpião já havia sido esquecido...
       No oitavo mês de gestação de Natália ela havia pego um resfriado que havia evoluído pra qualquer coisa criada em algum laboratório em algum lugar do mundo, algo muito pesado e lucrativo. O médico havia indicado repouso absoluto e escondeu bem qualquer possível risco ao bebê, tinha conhecimento do histórico de Natália, não a assustaria. Gabriel lembrou que uma semana antes Natália havia acordado chorando e contou-lhe seu pesadelo. No sonho ela corria por um deserto e avistava um imenso oásis, tinha sede e uma poça de água reluzia por entre coqueiros. Quando encheu as mãos em concha e levou à boca não era água e sim sangue... o sangue escorria de um bebê envolto em areia... Enquanto contava as lágrimas escorriam e ela disse que morreria se algo acontecesse com seu bebê. Estava com medo. Gabriel a tranquilizou mas sabia que calma antes de tudo muitas vezes é a solução. Ou o erro. Era preciso ver os sinais, os avisos. Havia algo no ar, sentia.
       Duas semanas depois do início do resfriado nuclear de Natália, que já parecia bem melhor, eles dormiam separados porque Gabriel foi assistir um filme e acabou dormindo no sofá. O grito parecia vir de bem longe, e foi se aproximando, e mais, até que os olhos de Gabriel se abriram. Ele deu um salto desastroso do sofá e correu em direção à origem dos gritos de pânico, seu quarto, o quarto onde Natália se debatia em frenesi.
“Aqui Gabriel! Aqui! Ai! Uh!”, suas mãos em desespero apontavam para a enorme barriga. Gabriel num pico de adrenalina pareceu desaparecer e por alguns instantes ele ficou completamente cego. Aos poucos se concentrou esquecendo os gritos horrendos de dor de Natália. Bem acima do umbigo dela, uma marca avermelhada se destacava e ele viu o inesperado; imóvel ao lado de Natália, um escorpião jazia morto com a cauda estirada. Seu mundo se estilhaçou quando percebeu que era o mesmo escorpião que ele havia...
       O médico tentou confortar Gabriel, disse-lhe que a imunidade dela estava baixa, que fatalidades terríveis como essa acontecem sempre com boas pessoas... mas Gabriel estava desolado. Não conseguia aceitar perder as únicas coisas pelo qual dedicava o seu lado bom daquela forma... Que forma? Autorizara ou não o destino? Perdeu Natália e sua menina... a princesa do pai... aquela que morreu antes de nascer... de repente... de uma maneira impensável e inconcebível... Talvez o médico devesse ter contado que não entendia como um escorpião daquela espécie, uma espécie natural do deserto Africano, um Leiurus, um animal com um veneno poderoso, capaz de matar um antílope, pôde ter parado numa casa a um oceano de distância. O estado de saúde dela e principalmente o susto ajudaram no desfecho. Foi o medo... O luto do marido e quase pai não entenderia. Só havia dor... perda... então ele não o contou. Não faria sentido pra ele que um escorpião do deserto houvesse matado sua família, faria?
       Sim. Faria. Ele decidiu onde seria a dor. A dor seria no irreparável. No deserto alguém morreu, um oásis foi manchado com a perda. Gabriel pela primeira vez na vida pensava de verdade. “Pense”, dissera o escorpião. E ele agora era só pensamento... e perda... pensamento e vazio... dor... um vazio que se desvanecia... e voltava... voltava...
       “Senhor Gabriel levante já daí e vá pra cama! Mas minino... De novo!”, a voz de Natália encheu seu coração com um calor ardente de esperança e amor, um sentimento que se sobrepôs à perda. “Já é a décima vez que você dorme no chão da sala feito mendigo! Depois vem com a história de que é pra pensar. Pensar... Hum... Eu sei o pensar! Vamos que amanhã você trabalha! E é quase missão religiosa, é pra Palestina* que tu viaja amanhã né? Eita lugázinho longe!”, e até mesmo aquela tão conhecida ironia enciumada o fez querer chorar, amava aquela mulher... demais...
       Então se deu conta de que no outro dia viajaria pra onde tudo havia acontecido, mas... acontecido? O que havia acontecido? Escorpião? Ele se lembrou... Milena... desejo... oásis... de onde era esse nome? Estava enlouquecendo? Mas... Sim. Sabia de quem era esse nome. Era o nome da moça que havia visto 15 dias antes e que o fizera se perder naquele sertão deserto. Foi apenas um pesadelo.... não, foi real, ele sabia. Não nessa camada, em outra. Adormeceu e recebeu algo. Algo valioso demais. Acreditava em sua fé, estava crescendo. Ainda daria tempo de escolher. Sentia-se radiante... Esse sonho, havia sido... Deus?
       “Não meu amor, não vou viajar, vou ficar com você o dia todo... Tô morrendo de saudade de tu sabia?!”, Gabriel falou e os olhos de Natália se alegraram. Ele sentiu que a vida era linda, misteriosa. Ele agora via. Pensou “Por que vivi isso?”, e o que ele não entendia se manteve em silêncio. Mas ali estava a resposta...
       “Não brinca amor, é sério? Que legal! Te amo tanto! Que tal tentarmos fabricar nosso herdeiro, heim seu cansadão?”, e aquela alegria penetrou em seu peito e ele então agradeceu...
       Havia se encontrado no deserto...


*Palestina é um dos municípios mais pobres de Alagoas.
Edgar Lins
Enviado por Edgar Lins em 29/12/2018
Reeditado em 29/12/2018
Código do texto: T6537955
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Edgar Lins
Maceió - Alagoas - Brasil, 30 anos
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Edgar Lins