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O Assassino de Butomadina [2]

Capítulo 1: https://www.recantodasletras.com.br/contosdesuspense/6530520

****

III

Quando Tuh era mais jovem, chegou a conhecer muitas terras, não apenas do território orc, mas dos draconianos e dos humanos. Era razoavelmente rico. Era de uma linhagem de prestigiados guerreiros, tinha uma propriedade de centenas de hectares (talvez milhares, ninguém nunca mediu direito), uma boa quantidade de ouro e relações políticas importantes. Aprendeu o básico do idioma dos elfos e dos anões, mas achava o idioma draconiano bem complexo, o que ele sabia ser estranho, porque é o mais parecido com o orc. O desafio, contudo, era bastante estimulante para a sua raça, mesmo que, nesse caso, um desafio intelectual. Quando conheceu sua primeira esposa, Aborpain, em Butomadina (capital do império Ros), esse foi um grande estimulante para que aprendesse o idioma dela, que, embora orc, só falava a língua draconiana.

Quatro anos depois, agora ao lado de uma humana que era uma vil imitação de sua mulher, ele sentia falta dela. Tentou ensinar àquela criatura de corpo frágil algumas das coisas que sua esposa fazia e que o encantavam, mas a única que ela aprendeu bem foi a tocar aquele instrumento de corda que Tuh nunca soube pronunciar o nome. Apesar disso, havia se apaixonado pela jovem. Alguma coisa nela lembrava o espírito da primeira Aborpain. Por isso, naquela noite, sentiu quando precisou sair do quarto dela e voltar para o seu. Orcs mais importantes não dormiam com suas esposas, apenas se juntavam com elas nos momentos em que isso era necessário, para depois voltar para os seus quartos. Mas, de vez em quando, o brutamontes de quase três metros ansiava por acordar agarrado com aquela coisinha.

Durante o desjejum do dia seguinte ele continuou a pensar no que havia pensado à noite anterior: como ele tinha sorte. Poucos orcs tinham a vida de rei que ele tinha, especialmente no passado. O café que ele tomava havia sido plantado e colhido em plantações ao sul, por escravos humanos. O chá era élfico. Creme e leite comercializado com os anões. Havia também mingau, marmelada, ovos e muitas outras coisas. Mas, como bom orc, o que ele gostava mesmo era acordar comendo carne assada.

- Dormiu bem? - Perguntou, quando sua esposa apareceu, sonolenta.

- Maravilhosamente. - Ela disse, humilde. Pegou uma tangerina e começou a chupar. Provavelmente não ia comer muito mais que isso. Impressionava-o como ela comia tão pouco e permanecia saudável. Logo a seguir entrou o príncipe Meadow. Cumprimentou os dois presentes e sentou-se à mesa posta para quatro. Havia chegado na casa de Tuh na noite anterior, e passaria uma temporada ali. Não haviam discutido nada até o presente momento, mas ambos estavam ansiosos para começar logo. Tuh fez uma pergunta aparentemente desinteressada sobre o exército de Ros, Meadow começou a discorrer, animado, sobre os planos futuros de aumentar o exército. Embora não fossem exatamente amigos, Tuh e Meadow já se conheciam há alguns anos e o príncipe gostava do anfitrião.

- O problema é que vocês começaram esses preparativos tarde demais. - Tuh lamentou. - Esperaram surgir uma ameaça de grandes proporções para depois reagir a ela.

- Sim, primo, concordo. - Respondeu o outro orc. A primeira Aborpain era uma parente distante da família imperial de Ros, então Meadow chamava Tuh, informalmente, de primo. - Os chefes do exército sabem disso. Mas vai explicar essas coisas para os políticos? Ah, nem parece que nós somos orcs, verdadeiros animais, máquinas de guerra... Mas agora é tarde, precisamos trabalhar com o que temos. Além disso... não temos certeza se Ros vai mesmo entrar em uma guerra, certo? - Disse Meadow, provocador. Tuh guardou alguns instantes de silêncio.

- Qual é a prioridade de vocês?

- Marinha. Estamos construindo barcos. Queremos expandir nosso território além-mar. Por isso estamos interessados em Range. - Meadow começou a jogar as cartas na mesa, interrompendo-se a beber um gole de chá. Range era uma região montanhosa controlada por tribos orcs, próxima da fronteira com Ros, com um largo contato com o mar. Tuh paralisou. Se fosse isso que eles pediriam em troca de seu apoio contra os doguos, seria muito difícil negociar. Ele não aprovaria expulsar outros orcs que nada têm a ver com o assunto de suas terras. - Se vamos lutar ao lado de vocês, precisamos ser fortes. Range é o que precisamos para nos fortalecer. Por isso, queremos vossa ajuda nesse ponto.

Tuh contraiu a testona, enquanto pensava no que falar. Meadow respondeu, não às palavras que poderiam ter sido ditas, mas à óbvia expressão que seu anfitrião fez.

- Não precisamos do apoio bélico de vocês, apenas o apoio moral. Queremos que vocês reconheçam publicamente que aquela área nos pertence. Que ameacem qualquer um que tentar se intrometer nessa questão. Que legitimem a conquista, quando ela acontecer. Bem, essa é a nossa proposta. Se precisar conversar com o teu rei antes de continuarmos...

Tuh ficou tenso alguns instantes, depois sorriu. Agora entendeu o estratagema. Primeiro o príncipe insinuou uma proposta absurda, pois os angios estavam evitando, nos últimos anos, conflitos com outros orcs. Então, ao demonstrar que a sua verdadeira proposta era bem mais simples do que insinuara, isso conduziria Tuh a enxergar a proposta como mais simples do que ela realmente era. "Fui tapeado", ele pensou, e logo expressou isso em palavras.

- Estou orgulhoso de você, meu rapaz.

IV

Naquela mesma manhã, Xueze descobriu onde o príncipe ficaria hospedado, pois este não teve nenhuma preocupação em se esconder. O problema era como chegar perto o bastante para matá-lo. A primeira coisa que ele precisava era de uma espada que não fosse muito grande e desse para esconder nas roupas. Decidiu não trazer consigo de Butomadina pois um draconiano em território orc, ainda que cada vez mais comum, trazia desconfiança; se ele estivesse armado na cidade então, pior ainda. Portanto, só conseguiria uma boa espada quando já tivesse descoberto onde ficaria o príncipe, o que foi bem mais rápido do que pensara.

Parou com o cavalo roubado na porta de uma taverna. Era uma única sala, baixa e despojada, com um balcão no outro lado. Praticamente só havia orcs velhos bebendo ali. Foi até o balcão, pediu um copo de cerveja e um bom pedaço de carne. Não foi difícil avistar o que estava procurando: um anão. Devia ter 1,20m de altura, com uma cabeça desproporcionalmente grande, vestia um colete de couro por cima de uma camisa sem colarinho. Dois capangas orcs estavam sentados junto a ele e um grande cachorro negro acorrentado a uma pilastra ao seu lado. Passados alguns minutos, aproximou-se da mesa do anão.

- Senhor Mao? - O draconiano perguntou em língua orc.

- Quem é você? - Respondeu o anão, mal-encarado. Xueze esperava uma voz bem fina e esganiçada, mas o sujeito com menos da metade da sua altura tinha mais voz de dragão do que ele.

- Podemos conversar sobre negócios?

- Não.

- Eu soube que você vendia armas roubadas e vim comprar uma.

- Quem te disse isso mentiu. Mas, se por acaso eu vendesse, o que você iria querer?

- Uma hebian. Não precisa ser muito nova, pretendo usá-la uma vez só mesmo.

- Não tenho. Mas, se eu tivesse, quanto você estaria disposto a pagar?

O draconiano mostrou-lhe um pesado saco com moedas, o anão pesou-o com o olhar e ficou satisfeito. Fez um gesto para um dos capangas, que saiu. Dois minutos depois ele voltou com um embrulho de pano. Xueze pegou-o e examinou a espada. Tirou-a da bainha e a olhou contra a luz do sol. A lâmina tinha 73 centímetros, ligeiramente curvada, cabo para duas mãos, com guarda punho circular. Era pequena para ele, descendente de dragões, mas algo muito grande seria mais difícil de esconder.

- Guarde isso, idiota. Não precisa mostrar para toda a bosta dessa cidade.

- Preciso examinar o produto antes de adquiri-lo, não? - Respondeu o draconiano, agitando a espada levemente no ar.

- Guarde logo esta bosta! - Ordenou Mao. - Dê-me logo as moedas e saia da minha frente.

Uma onda de tensão subiu pela garganta de Xueze. Ele engoliu em seco. Apontou então sua espada, ameaçador, para o anão. Os dois capangas rapidamente se colocaram cada um do seu lado.

- Preciso experimentar a arma. - Xueze disse, em tom desafiador. Os capangas sacaram grandes facões. A taverna mergulhou em silêncio, rompido apenas pelo rosnado do grande cachorro. Finalmente, Xueze abriu as grandes asas negras, com vários metros de envergadura, parecidas com as de um pterossauro. Isso assustou os adversários, dando-lhe tempo para zunir para a porta. Ao invés de voar, porém, montou no cavalo e saiu cavalgando. Seus inimigos também não podiam chamar muita atenção para si, então decidiram deixar para lá, por enquanto.

V

- Não podemos apoiar Ros contra Range. - Sentenciou Cleric. O líder tribal (ou "rei", como era mais chamado) Ernest estava oferecendo um banquete em homenagem ao príncipe Meadow, e Cleric chamou Tuh para um lugar afastado para conversarem.

- Eu já imaginava que você não ia gostar da ideia. - Respondeu Tuh.

- No máximo podemos negociar com as tribos de lá, conseguir que os barcos draconianos tenham livre acesso ao litoral de Range. Um pacto de não-agressão, algo do tipo. Diabos, por que eles querem barcos? Os desgraçados têm asas enormes!

- Pelo mesmo motivo que nós usamos espadas, ao invés de morder com nossas presas. Adaptação. Com o desenvolvimento econômico dos draconianos, eles estão comendo melhor, ficando mais pesados. Está se tornando mais difícil para eles voar por longas distâncias. Mas, não reclame, isso vai ser bem vantajoso para nós.

- Como assim?

- Bem, vamos garantir que aquela área se torne uma zona neutra. Assim, se Ros vai poder usá-la à vontade, nós também iremos.

- Oh, mas é claro! - Cleric riu. - Será que eles vão aceitar essa condição?

- Não acho que será tão fácil. Certamente eles vão querer mais detalhes de como isso vai funcionar.

- Então só deixarei o chefe Ernest informado do assunto quando as negociações estiverem mais avançadas. Vamos apresentar a proposta ao príncipe Meadow imediatamente.

- Não. - Tuh balançou a cabeça, enérgico. - Esse não é o momento apropriado.

- Não podemos ficar esperando o momento apropriado, Tuh. A guerra pode estourar a qualquer momento.

- Falarei com Meadow amanhã. - Respondeu Tuh, inflexível. Cleric podia ser, na hierarquia pouco formal dos orcs, superior a Tuh, mas este sabia se fazer obedecer quando era preciso. Ao retornarem ao salão principal, o banquete estava acabando. Tudo o que havia para comer havia sido majestosamente devorado. Por mais educada que a alta classe orc tentava parecer, a hora de comer era uma daquelas em que era difícil deixarem o instinto animal de lado. Com todos alimentados, Tuh pediu para que um criado chamasse sua carruagem para que ele e sua família pudessem ir, juntamente com o príncipe. A carruagem levando Tuh, sua esposa, sua sobrinha que vivia com ele e Meadow saiu depressa em direção à sua propriedade, escoltada por dois draconianos Mudamir, uma classe guerreira que, com pesadas armaduras que cobrem todo o seu corpo, carregam grandes tridentes. Um dos dois era Xezue.

Era o momento perfeito. O príncipe só dispunha de um segurança. Ele certamente era muito mais forte que Xezue e, com essa armadura, ele não conseguiria sair voando. Mas seria difícil outra oportunidade como aquela. Ele estava ansioso também por fazer aquilo. Já podia ver a notícia se espalhando, os ânimos dos revolucionários se acendendo, a rebelião alcançando todo o império Ros... Ele só precisava achar a hora certa, quando a carruagem estivesse em um local mais afastado, para atacar rapidamente o príncipe dentro da carruagem e correr o mais rápido que pudesse, se livrar da armadura o mais rápido possível e sair voando. Se precisasse lutar, entretanto, o seu disfarce pelo menos serviria como proteção. Ele só dispunha, porém, de poucos minutos, pois a casa de Tuh ficava próxima do forte onde vivia o Chefe Ernest.

Ouviu um grito feminino. Não era um grito de pavor, parecia mais uma risada, mas a voz era muito aguda para uma orc, e ele tinha certeza que só a família de Tuh e o príncipe estavam dentro da grande carruagem fechada. Apreensivo, mandou a carruagem parar. Tuh abriu a porta, irritado, perguntando o que estava acontecendo. Daí ele viu que, junto com os três orcs, havia uma humana.

- Alkaliba? - Perguntou ele, reconhecendo-a. Ela também pareceu reconhecer sua voz. O verdadeiro draconiano Mudamir, entretanto, percebeu que era um impostor, especialmente porque ele cometeu o erro de falar na língua draconiana, e não na língua orc com a qual o draconiano que ele tomou o lugar se comunicava.

- Cuidado! É um impostor! - O segurança gritou, e deu a volta na carruagem para atacá-lo. Era agora ou nunca. Com um movimento rápido, Xueze tentou atacar o príncipe com seu tridente. Mas ele não estava acostumado com uma armadura, então não pôde atacar rápido o suficiente. Meadow escapou do golpe, o tridente ficou cravado no banco onde ele estivera sentado um segundo antes, ele abriu a porta do outro lado, puxando consigo as duas fêmeas.

No instante seguinte Tuh estava atacando o inimigo com um facão.  Xueze só conseguiu colocar o braço, instintivamente, para se defender. A armadura foi forte o suficiente para impedir que o golpe lhe amputasse o membro, mas a lâmina conseguiu penetrar sua carne. Dominado pelo desespero, Xueze largou o tridente e fugiu.

- Volte aqui, desgraçado! - Gritou Tuh. Ele e o draconiano segurança correram atrás do inimigo. Enquanto tentava se livrar da armadura, olhou para trás e percebeu que, mais rápido que os outros dois, Meadow se juntara à perseguição e estava próximo dele. Não podia, porém, se arriscar mais agora; não era um suicida. Quando finalmente conseguiu tirar boa parte da armadura, jogou alguma coisa pesada com toda a força contra Meadow, abriu suas grandes asas e levantou voo.
Raphael Andrade
Enviado por Raphael Andrade em 31/12/2018
Código do texto: T6539849
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Sobre o autor
Raphael Andrade
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 24 anos
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