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O Homem Morcego

Ele era um homem comum e de boa aparência, não fora o pobre curriculo que lhe rendeu uma vaga como bartender numa casa noturna na esquina da enorme SP. O local era muito movimentado e frequentado por adolescentes querendo se passar de maiores de idade. Henry sabia das identidades falsas mas não recusava o que lhe pediam: martines de maçã, vodkas, licores multicores, gim, rum e tequila. Tinha perdido a conta de quantas vezes viu várias delas desmaiarem nas mesas completamente bêbadas. Ele bebeu um liquido avermelhado com forte odor e brincou com o copo entre os dedos quando a dona do estabelecimento chamou-o.
- Quando terminar quero falar com você. - disse a mulher loira do físico corpulento e atraente.
A noite estava abafada e sem lua.
Henry fechou a porta do escritório atrás de si, que ficava nos fundos do bar.
No final do expediente ele voltava para casa, a rua vazia e molhada. Em cada quarteirão havia a foto de uma pessoa desaparecida, a maioria mulheres. Alguns quarteirões mais adiante e estaria em casa. Henry procurou a chave nos bolsos, subiu as escadas daquele condomínio, enfiou na fechadura e entrou: apartamento pequeno e ideal para um solteiro, cozinha americana, uma sala com um sofá desarrumado e o quarto da desejar. Do quarto saia um fedor do banheiro.
- Que droga!
Mesmo incomodado ignorou e foi até a geladeira onde havia várias garrafas com um liquido avermelhado entre outros produtos. Não tinha amigos e por isso ninguém perguntaria o que eram. Agora consciente que o cheiro ruim poderia importunar os vizinhos resolveu limpar o banheiro e retirar marcas de gordura. Ao passar pelo unico espelho da pia encarou seu reflexo: os olhos avermelhados e a pele ressecada. Cansado, desabou no sofá.
Certa noite, Henry escutava os prantos de um rapaz, afastado algumas mesas, que lamentava a termino do relacionamento. De repente, uma moça de olhos e cabelos escuros contrastando com a pele branca, o corpo esbelto vestido com uma roupa decotada chamou sua atenção.
- O que deseja senhorita?
- Vinho.
- Vinho branco, vinho inglês...
- O vinho mais puro e vermelho que você tiver.
A voz da moça era sedutora mas sua aparência escondia a idade, devia ter menos de dezoito anos no entanto apreciava a bebida vermelha. Henry ficou curioso mas disfarçou sua intenção.
Diferentemente das moças que havia presenciado, que bebiam de uma vez e pediam várias rodadas, esta parou e ficou encarando o copo como se fosse uma obra de arte. Depois tomou um gole se sentiu a garganta arder por causa do conteúdo alcoólico.
- Está sozinha?
- Muito indiscreto.
- Desculpe meu atrevimento mas qual a sua idade?
- Dezesseis.
A dedução de Henry estava correta.
Ao lado um cavalheiro completamente bebado estava com cabeça deitada no balcão.
- Vou chamar um taxi! - disse Henry.
- Eu tenho carro, não precisa - dizia o homem com a voz entrecortada.
- Não pode dirigir neste estado, senhor.
- Pode encher minha taça novamente? - perguntou a moça.
Henry obedeceu. Adiante, pegou um braço do homem colocou envolta do pescoço saiu do estabelecimento e acenou para um taxi. Passava das onze da noite.
Quando Henry voltou para o balcão a moça pediu para repetir a dose.
- Calma ai, o efeito você vai sentir depois.
- Mas eu estou pagando por isso; vai recusar grana?
A cada gole que a moça dava, Henry ficava mais impressionado, um pouco do vinho escorreu pela lateral dos lábios fazendo um caminho avermelhado no pescoço. O coração de Henry acelerou, sua pupila dilatou e as mãos ficaram geladas.
- Você está bem? - perguntou ela.
- Sim, foi só um ligeiro mal estar.
Completou mal sua jornada de trabalho, no trajeto de casa sentia sua visão escurecer e uma ligeira tontura que fazia-o cambalear pela calçada. A lua estava cheia. Henry sentiu uma sede violenta e acelerou o passo. Não tinha nada nem ninguém na rua. Empurrou a porta do apartamento, abriu a geladeira e esvaziou as garrafas em poucos segundos mas não foi suficiente. Henry sentiu uma queimação por todo corpo, e a sensação provocava dores fazendo-o tropeçar as coisas. Os vizinhos ja estava acostumados achando que ele sempre chegava em casa bebado.
- Esse homem não tem jeito! - reclamou um deles.
Henry se aproximou do espelho e seus olhos estavam amarelados, na boca varias presas afiadas, no lugar dos dedos garrafas afiadas e um pelo escuro por todo corpo.
Aproveitou a escuridão e o horário e saiu para caçar. Embora fosse de madrugada seus sentidos o guiavam para um lugar repleto de mamíferos. Suas pupilas saltaram dos olhos quando notou um gado adormecido afastado dos demais. Esperou a vigia afastar-se. Aproximou-se, mordeu a vitima e sugou seu sangue. Na manhã seguinte, o dono das cabeças de gado reclamaria de mais um ataque misterioso.
Aos poucos, Henry sentiu o rosto queimar, uma brecha no telhado deixava o sol penetrar livremente. Estava em casa. Alguns lampejos na memória, do dia que levou uma mordida de morcego, do outro dia que cometeu o primeiro assassinato da sua vida levado pela necessidade de se alimentar. Levantou rapidamente, olhou no espelho, seu rosto voltara o normal. Era domingo dia de folga mas lembrou também da doce menina de dezesseis anos.
Nefer Khemet
Enviado por Nefer Khemet em 13/01/2019
Reeditado em 13/01/2019
Código do texto: T6550129
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Sobre a autora
Nefer Khemet
Pacajus - Ceará - Brasil, 23 anos
28 textos (2793 leituras)
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Nefer Khemet