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Blackout - 6


TINA LAGEMANN ESTAVA no escuro, mas não estava sozinha.
     O medo estava com ela, abraçando-a como um amigo fiel e amoroso, juntamente com o passado, sentado ao seu lado e sorrindo-lhe como um parente que ela não visse há anos - um parente que ela lutava constantemente para que estivesse morto.
     Nando Fernandes rasgou um A5 em "Epicentro", e a primeira lágrima brotou, tímida no início, depois descendo pelo seu rosto como um riacho de encontro a um rio maior, livre e rápida. E ela soluçou.

     "Jud veio até ela com seu visual emblemático - cabelo na altura dos ombros, camiseta e jaqueta de couro pretas, calças jeans azul-fosco e botas Chelsea pretas, um tanto gastas pelo uso contínuo -, os pelos ralos e claros da primeira barba despontando no rosto fino e moreno, muito parecido com o seu. Ele se ergue na sala de casa, excitado e nervoso, e ela está do seu lado, jogada no sofá, os pés para o alto. Sua mãe e seu pai também estão lá: o pai distraído com alguma coisa na TV, a mãe, aflita, tão nervosa quanto o próprio Jud - a ideia daquela viagem tirara-lhe o sono desde que fora mencionada, e quando ele aparecera em casa com o ingresso ("Veja, Tina!" , a cena tomou, por um átimo, o foco da principal, e ela viu Jud balançando entusiasticamente o bilhete diante de si. "Cavalo Vapor! São Paulo! Que é que eu lhe disse, hã?"), ela quase surtara.
     "Jud se mexe quando o farol alaranjado entra pelas frestas da porta e a buzina soa lá fora, chamando-o com urgência. Ele se dirige ligeiro até o pai e lhe dá um beijo no rosto, se liberta do abraço choroso da mãe e sai pela porta. Ela e a mãe o acompanham até o hall. Ela o abraça, e a mãe torna a fazer o mesmo, implorando para que ele tome cuidado.
     "'São só quatro dias, mãe’, ele diz impaciente, mas em tom gentil, antes  de conseguir finalmente deixá-la e correr para o carro, onde é recebido com vaias estrondosos."
 
     Ela liberou um arquejo - o primeiro de uma cadeia deles (depois do primeiro é sempre mais fácil), pairando entre fluídos agudos e berros guturais, ora sobrepondo a música ora se juntando a ela, uma união incompatível e agônica -, na verdade fora forçada a isso, ou sufocaria no próprio choro.

     "A mãe surgiu diante dela com uma expressão mortificada, os olhos tristes e velados, os lábios brancos - a aparência de um defunto que se erguera de seu leito de morte antes que pudesse ser enterrado. O pai está do seu lado, o rosto duro e sombrio, ambos olhando para o caixão cor de madeira conforme este é gradualmente encerrado para olhos humanos por pazadas de terra fresca, produzindo abafados e desconfortantes tru-tup, tru-tup, ao se chocarem com a madeira.
     "Há mais uma porção de gente ali, um borrão escuro espalhado em volta da cova - e embora seja apenas isso que ela vê dali, sentada abraçada contra os joelhos ossudos, sabe exatamente quem o compõe, além de colegas de escola, professores e a gente irrelevante que comumente infesta tais ocasiões, como se fosse lá apenas para bater papo, falando solenemente sobre a morte e rememorando velhos defuntos, ou simplesmente pelo estranho prazer de presenciar o sofrimento alheio: o Pe. Sérgio (amigo de seu pai desde muito antes de descobrir sua vocação para o sacerdócio), à beira da cova com a Bíblia aberta (No livro de Salmos, ela lembrava perfeitamente, assim como da passagem: 103: 15,16: "Quanto ao homem, os seus dias são como a erva, como a flor do campo assim floresce. Passando por ela o vento, logo se vai, e o seu lugar não será mais conhecido."); vovó Ilda e vovô João (vovó Ilda semimorta sobre a cadeira de rodas que a casa dos 80 lhe presenteara), pais de sua mãe; vovô Lucas, pai de seu pai (vovó Tina, de quem ela herdara o nome e, por ironia jamais gostara, morrera de causas naturais, três anos antes); tio Rogério, tio Fabio, tio Ney e tio Jó, os irmãos mais novos de seu pai (os três primeiros acompanhados das mulheres e dos filhos, o último sozinho, porque, segundo ele, não tinha vocação para pai de família - o que não o livrou de estar, dali a dois anos, na constantemente crescente lista dos pagadores de pensão alimentícia); tia Sara, tia Gel, tia Leda e tia Sandra, as irmãs de sua mãe (tia Sara e tio Eliel, seu marido, eram os padrinhos de Jud, e o paparicavam como qualquer um deseja ser paparicado por padrinhos), com seus respectivos maridos e filhos (que juntos, ultrapassavam a conta de dez); e por fim, os amigos inseparáveis de Jud e seus companheiros de banda (que se chamava "Heaven and Hell", como a música do Black Sabbath, de quem faziam cover e da qual Jud era baixista): Zeca (Zeca Alba, sua primeira paixão - aquele sentimento que nada mais é do que o encanto puro e estúpido que professores e amigos de irmãos mais velhos tão naturalmente parecem despertar), "Orelha" (Dante Salgueiro ganhara tal apelido por causa do seu volumoso par de orelhas, como facilmente leva-se a imaginar, uma deformidade que ele disfarçava com o cabelo longo e compensava toda vez que pegava numa guitarra - quando fazia todos eles engolirem suas piadinhas idiotas, não que elas o afetassem tanto como costumavam afetar, na infância), "Baquetas" (Eduardo Ramos era o mais velho da turma e o responsável, ao lado de Jud, pela formação da "Heaven and Hell", logo após vir de São Paulo, quando tinha 13 anos) e Pedrinho (Pedro Alves era seu primo em primeiro grau, filho do meio de tia Sara e tio Eliel, e o melhor amigo de Jud - colados como gêmeos siameses, para não usar a velha expressão unha e carne; o tipo de amizade que as pessoas dizem ser mais comum entre primos do que entre irmãos -, mas ela própria tem os olhos voltados para a lápide acima desta, uma placa quadrada de mármore encimada por um anjo de semblante destemido, segurando uma espada nas mãos - o Arcanjo Miguel, ela assimilou; aquele que liderará as forças da Luz contra Satanás na batalha do Apocalipse -, refulgindo de um modo quase celestial sob a luz daquele dia quente de final de primavera.
     "Na lápide está gravado:
                 
                         "'JUDAS LAGEMANN TERCEIRO
                03 de abril de 1984 – 07 de dezembro de 2003'

     "e o epitáfio diz:
                        "'I’M ON STAIRWAY TO HEAVEN'

     "Ela tem a expressão pétrea ao olhar para a lápide, como se houvesse um botão On na sua cabeça e este tivesse sido desligado; ela permanece assim até depois de o Pe. Sergio finalizar o sermão e fechar a Bíblia e a turma de Jud entoar, à capela, "Strawberry Fields Forever", dos Beatles, quando então as pessoas começam a se mover, silenciosas e muito provavelmente derretendo sob toda aquela roupa preta."

     Dali, da sala inundada de escuridão do apartamento de Ed, ela sabe exatamente no que está pensando enquanto diante da lápide de Jud: naquele dia no parquinho, há duas quadras de sua casa, quando ela tinha 4 anos e Jud, às vésperas de completar 12; um dia qualquer para o irmão, provavelmente, porém muito importante para ela. E, como se o espetáculo do enterro fosse repentinamente encerrado e seu cenário deprimente rapidamente retirado, ela se via agora a assistir a esse dia, as lágrimas embaçando sua visão, formando losangos e círculos, enquanto molhavam seus joelhos, aos quais ela permanecia a se agarrar como se fossem o único ponto seguro no meio de um vendaval.

     "'E aí, falta muito?', ela pergunta novamente para Jud, dando pulinhos nervosos em torno dele, como se apertada para fazer xixi. Eles estão diante da garagem de casa, cujo portão está escancarado; a manhã, que se iniciara cinzenta e nublada, ameaçando chuva - e por consequência sua diversão no parque -, agora refulge sorridentemente cálida, o sol desimpedido lá em cima, refletindo nos seus cabelos cor de pêssego, divididos em maria-chiquinha.
     "'Agora é só colocar a roda', Jud responde animadamente, manuseando o pneu entre as mãos pretas de graxa, 'e apertar as porcas’. Ele está sentado no chão, com a caixa de ferramentas do pai de um lado e a pequena bicicleta quadro-de-moça do outro, sem o pneu traseiro e revirada de cabeça para baixo, o selim sobre o tapete de entrada da casa, onde diz “SEJA BEM-VINDO".
     "'Porcas?', ela pergunta franzindo as sobrancelhas.
     "Jud sorri, o que faz uma mancha de graxa em sua bochecha se alargar, e diz, apanhando e mostrando para ela uma das porcas ali no chão:
     "'Isso são chamadas de porcas, e são elas que mantém a roda firme no lugar. Sem isso aqui', ele completa jogando a porca no ar e apanhando-a de novo, ‘o pneu da bicicleta vai sair correndo sozinho, antes mesmo que você possa se dar conta de que está com a bunda no chão.'
     "'Hum', ela faz junto com um muxoxo, e fica a estudar curiosa as estranhas porcas por um instante, para depois dizer: "Posso pôr uma? Eu ponho de um lado e você do outro, aí vai ser mais rápido.'
     "'Ei', Jud diz fingindo tom de protesto, 'eu não estou tão lento assim, ora. Você é que tá muito apressada'. Ele então encaixa a roda na bicicleta e posiciona a corrente na catraca. 'Mas, ok. Tome. Pode colocar uma. Role-a no eixo até onde puder, o resto eu faço com a chave. Mas, espere'. Ele tateia o chão à sua volta e entrega-lhe uma rosca. 'Ponha isso primeiro, ela impede a porca de encostar diretamente no ferro, o quer dizer que eu posso apertá-la até ficar vermelho, sem no entanto correr risco de danificá-lo.'
     "'Está bem', ela diz sorrindo e se abaixa animada sobre a bicicleta, e faz exatamente como Jud dissera. Ele, então, certificar-se de que a corrente está como devia estar, ou seja, nem folgada nem muito esticada, e finaliza o aperto das porcas com a chave. Em seguida se ergue e desvira a bicicleta, pondo-a sobre os pneus, para, por fim, reposicionar as borrachas do freio traseiro sobre a roda e apertar seu suporte, logo abaixo do selim.
     "'Pronto', ele diz estapeando as mãos e abaixando-se para recolher a bagunça.
     "Ai, até que enfim', ela diz agarrando ligeira a bicicleta. 'Vamos.'
     "De nada!', Jud diz fechando a cara e a caixa de ferramentas.
     "'Ah, Jud!', ela resmunga impaciente, 'você fica enrolando! Vamos logo. A Lis já deve está lá.'
     "'Ei, espera um pouco aí, tá legal?', ele responde encaminhando-se para a garagem, com a caixa de ferramentas, a sacola com os remendos e a cola e as rodinhas traseiras que acabara de retirar da bicicleta. 'Alguém tem que limpar a bagunça, e você podia ajudar, levando o tapete para a porta.'
    "Ela larga mal-humorada a bicicleta sobre o gramado, apanha o tapete e leva-o para a porta, carrancuda. Retorna correndo para a bicicleta e espera Jud montada, mordendo o lábio e tremelicando sobre o selim, parecendo mesmo muito apertada para fazer xixi.
     "'Ju-di', ela choraminga para a garagem, mas Jud leva ainda um segundo para aparecer, passando a mão no rosto lavado e negligentemente enxugado. Ela o observa fechar o portão da garagem batendo os pés de impaciência, desconfiando que faz isso tão lentamente apenas para irritá-la.
     "'Ai, que demora!', ela diz quando ele afinal se junta a ela, e desvia rapidamente a atenção para o guidom, agarrando-o firmemente com as mãozinhas gorduchas. Porém ainda permanece imóvel, a expressão tensa e excitada ao mesmo tempo, como se tomando coragem para pedalar.
     "'Tem certeza?’, Jud pergunta para ela, olhando-a com divertida expectativa."

     Ainda que brevemente, aqui ela sorriu, e as lágrimas que desceram de encontro a seu sorriso eram de divertimento.
     O momento decisivo se devia às rodinhas traseiras, ou melhor, à falta delas. Aquela seria a primeira vez que ela andaria definitivamente sem elas - definitivamente sozinha, sem Jud por perto, empurrando-a e assegurando que ela não caísse. Estivera treinando o mês inteiro para isso, e sabia que conseguiria - estava ansiosa para fazê-lo, principalmente para mostrar às amiguinhas, sobretudo para Lis, que era apenas quatro meses mais velha que ela e já andava sozinha.
Prendera Jud a essa causa três vezes por semana, uma tabela que ele cumpria obrigatoriamente; ou era assim ou nada de ensaios com a banda - sim, as coisas chegaram a esse ponto. "É terrível o que irmãos caçulas podem conseguir", ela ouvira Edu "Baquetas" dizer para Jud certa vez, e sentira-se o máximo com isso - vaidosa, na verdade, ainda que não soubesse disso na época, e foi essa frase, de certo modo, que desencadeara, com o passar assustadoramente rápido da infância, a distorcida e perigosa ideia - especialmente perigosa para quem está prestes a pisar no "Planeta Adolescência" - de que podia ter o que quisesse.
     Os treinos aconteciam às sextas, sábados e domingos, sempre pela manhã, para o caso de Jud ter algum compromisso, além dos ensaios com a banda. Contudo, mesmo quando um desses compromissos surgiram e o deixavam ansioso para ir embora, ela ainda conseguia segurá-lo por mais algum tempo além das três horas combinadas, se assim quisesse, e isso o tirava do sério.
     "Vamos embora, Tina!”, ele dizia impaciente. “Você sabe que eu odeio sair correndo."
     "Mesmo você saindo no horário", ela rebatia para ele com a sabedoria irritante que algumas crianças têm, "ainda chegará atrasado, de qualquer maneira”. E completava, em tom comicamente adulto - e ao qual ele nunca escapava de sorrir, mesmo irritado: "Ah, Judas Lagemann, você tem um problema sério com horário."

     "Ela fita o guidom por um segundo mais, mordendo o lábio, e então, com um suspiro rápido, imperceptível, força os pezinhos sobre os pedais; o arranque é um tanto desequilibrado e alarma Jud, que desce ligeiro o leve declive da entrada da garagem, em seu encalço; mas, antes que ele se aproxime muito dela e a segure, ela grita pressurosa, em tom de advertência:
     "'Não, Jud! Eu consigo!'
     "E dobra a rua numa curva longa e vacilante, para em seguida seguir, perfeitamente equilibrada e sorrindo para o sol, junto ao meio-fio.
     "Jud a observa sorrindo por um momento, as mãos na cintura, os cabelos castanhos balançando com leveza à brisa fresca, e sai correndo para alcançá-la.
     "Chegam ao parquinho dois minutos depois, ela pedindo aflitivamente para que Jud fique longe; não quer correr o risco de o mérito pelas rodinhas lhe ser arrancado pela presença auxiliadora do irmão. Assim, ao vê-la pedalar empavonada para junto das amiguinhas e dizer, tão vaidosa, "Olha, Lis! Sem as rodinhas", Jud se senta num dos bancos, provavelmente desejando ter trazido seu walkman, por que aquilo vai demorar e ele rapidamente assume a expressão-enteiada-do-irmão-mais-velho-que-é-obrigado-a-fazer-as-vontades-da-irmã-caçula.”

     O toca-discos reproduzia agora "Antes só", encaminhando-se insuportavelmente rouca para o seu final, o que faria qualquer pessoa sana querer arrancar os cabelos e quebrar o disco ao meio. No entanto, ela mal escutava a música, tal como mal escutava a própria voz, pastosa, inteligível, dizendo para o escuro: "Desculpa, desculpa, desculpa!"
     A única coisa que Tina Lagemann escutava agora era a voz na sua cabeça: "Em frente, garota, em frente, garota!", cujo tom passara de somente incentivador para fortemente autoritário, opressivo.  "Agora já é tarde demais para voltar atrás, para se esconder como um rato num buraco. Vamos lá, garota!"
Ronei de Jesus
Enviado por Ronei de Jesus em 13/01/2019
Código do texto: T6550223
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Sobre o autor
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Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 23 anos
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Ronei de Jesus