Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Sensibilidade à dor

Ainda estava zonzo quando o capuz foi arrancado da sua cabeça. Das trevas às trevas: uma luz ofuscante jogada sobre seu rosto fez com que fechasse os olhos novamente; mas ainda estava na sala de estar de sua casa, num condomínio fechado, com câmeras de vigilância e segurança armada 24 h por dia. Tudo inútil, percebeu tardiamente. E sua família...

Ao virar a cabeça para o lado, através das pálpebras semicerradas, viu que estavam todos ali, a mulher e os dois filhos, na mesma situação que ele: amarrados em cadeiras, mãos para trás, um capuz preto na cabeça. Ainda desacordados, aparentemente. E, muito provavelmente, com a boca fechada por uma tira de fita adesiva, exatamente como ele.

Piscou, encarando a luz, e testou as amarras dos braços. Serviço de profissional, avaliou, só poderia tentar se livrar se estivesse sozinho, e sabia que seu captor estava bem diante dele, aguardando por suas reações. Com a luz forte batendo no seu rosto, só conseguia distinguir uma silhueta alta e negra, cabeça coberta pelo que parecia ser uma máscara de esqui, braços cruzados.

- Eu tenho a sua atenção? - Indagou o homem, em tom sarcástico. - Creio que sim, já que está olhando na minha direção.

O captor puxou uma das cadeiras vagas da mesa de mogno e sentou-se diante dele, uma perna cruzada sobre a outra, numa atitude displicente.

- Lamento que nossa conversa tenha que ser substituída por um monólogo, mas por razões óbvias não posso lhe dar o direito de resposta. Prometo, todavia, ser breve e tentarei não enfadá-lo com detalhes desnecessários. A principal pergunta que deve estar se fazendo é: como eu entrei na sua confortável residência, tão bem defendida por guardas armados? Bem, não pense que irei lhe dar qualquer detalhe sobre isso e imagino que mandará fazer uma investigação completa tão logo eu o solte...

E abrindo os braços num gesto expansivo:

- Surpreso? Imaginou que este seria o discurso do supervilão, revelando seus planos para o herói antes de matá-lo? Primeiro, eu não me considero um supervilão e não creio no papel de super-herói e paladino da justiça que a mídia lhe atribuiu... mas tenho poderes, os quais você irá conhecer intimamente em breve; aliás, você e sua adorável família, aqui presente. Segundo, não tenho qualquer intenção de lhe matar ou a qualquer um dos seus; o que não quer dizer que o destino que lhes está reservado não será bastante desagradável, se ousar fugir ao roteiro que irei lhe dar. É isto: agora você é o meu ator e eu sou o seu diretor. Um diretor com um poder direto sobre a qualidade da sua atuação, digamos assim... ah, mas estou divagando...

Reclinou-se na cadeira, antes de prosseguir.

- O que eu quero? É muito simples. Você irá denunciar seus chefes e seus comparsas publicamente... tenho uma lista dos crimes aos quais deverá dar destaque. Poderá se confessar arrependido e pedir perdão ao público que enganou, não me interessa. Você terá doze horas para reunir a imprensa e começar a cantar como um passarinho.

Inclinou-se para a frente, mão no queixo.

- Ah, mas e se ao entregar a sua quadrilha você for morto? Ossos do ofício, meu caro. Pensasse nisso antes de se vender para quem lhe prometeu fama e dinheiro. E se você tiver a má ideia de não me obedecer e resolver agir pela sua própria cabeça confusa?

Apoiou ambas as mãos nos joelhos.

- Eu lhe disse que tinha poderes? Pois vou lhe dar uma amostra, com a sua distinta senhora.

Virou-se para a mulher, ainda desacordada, e de súbito, ela retesou-se, como se estivesse sentindo uma dor excruciante, as cordas marcando sua carne enquanto ela se retorcia, grunhindo na cadeira. O captor fez um gesto com a mão e a mulher desabou, pendendo inerte das amarras.

- É suficiente para você? - Indagou o captor, diante dos olhos cheios de lágrimas do cativo. Este apenas balançou violentamente a cabeça, grunhindo.

- Perceba que posso aplicar o meu método a qualquer um de vocês quatro... as crianças, naturalmente, são mais suscetíveis à dor. E, lamento dizer para você, isso funciona a qualquer distância sobre a superfície da Terra. Instantaneamente. E não há analgésico, mesmo de uso hospitalar, que bloqueie a reprogramação dos seus nervos. Apenas eu tenho esse poder - e se eu for morto, pode ter certeza de que em 24 h vocês irão preferir arder no fogo do inferno.

Diante do silêncio do cativo, que apenas o encarava com expressão enfurecida, o captor cruzou os braços.

- Crê que estou sendo metafórico? Talvez a demonstração com sua mulher não o tenha convencido? Bom, nada como sentir na própria pele... vou lhe aplicar dez segundos de nevralgia do trigêmeo.

A dor o atingiu na face esquerda como se fosse um ferro em brasa enfiado pelo seu maxilar. Teria urrado se não estivesse amordaçado. Debateu-se em convulsão, enquanto as ondas dolorosas percorriam seu corpo. Após o que pareceu uma eternidade, o tormento cessou por um gesto de mão do captor.

- Convencido agora? - Indagou placidamente este.

O cativo apenas balançou a cabeça, enquanto as lágrimas lhe escorriam pelo rosto.

- Ótimo! Então vamos à lista que preparei... há crimes seus bem antigos, mas creio que irá se lembrar de todos os detalhes sórdidos quando estiver falando aos seus amigos da imprensa.

E, juntando as mãos como que em oração:

- Lembre-se que a confissão faz bem para a alma!

- [13-01-2019]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 13/01/2019
Código do texto: T6550387
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Texto original do site http://recantodasletras.com.br/autores/raymundo.). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
1350 textos (67899 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/02/19 13:52)
Alex Raymundo