A TRILHA DA MORTE.

No pequeno vilarejo de Orange, Austrália, a vida seguia tranquila e monótona, como sempre. As pessoas viviam da agricultura e pecuária. O povoado foi fundado por imigrantes ingleses e romenos nos anos 20. As cartas e boas notícias sobre a riqueza da Austrália atraíram outras famílias européias. Logo, húngaros, irlandeses e poloneses chegaram em navios, fugindo da Segunda Guerra Mundial. As fazendas ao redor de Orange se proliferaram. O reverendo Jack Gascoigne se ergueu como o primeiro líder local. Ele uniu os moradores em torno do ideal de respeito às diferenças. -" Somos europeus mas a Europa está longe. Aqui somos de Orange. Essa é nossa terra agora. Já não há ingleses, eslavos ou irlandeses, somos australianos!" A população de 320 habitantes elegia, como regra, quem o reverendo Jack apoiasse. Em 1963 o reverendo apoiou o candidato a prefeito Stuart Mill Renhartn e o xerife Joubert O'Brian, todos eleitos com maioria de votos. As taxas de analfabetismo e violência eram quase zero. O xerife e seus três soldados viviam a caça de ladrões de galinhas ou de bêbados no armazém do húngaro Koscinsk. Os doces e tortas produzidas nas fazendas de Orange, além da beleza da região, com seus lagos e florestas, chegou a Europa. O reverendo, em suas andanças pelos campos, decidiu criar uma trilha, um caminho semelhante ao de Thiago de Compostela, na Espanha. A trilha de Orange tinha 38 quilômetros de caminhada. Início era na praça da vila, em frente a prefeitura e percorria as muitas fazendas da região. O reverendo e os seus fiéis instalaram placas pela trilha. Quem se dispusesse a completar a trilha teria de passar por campos, montes e florestas. Lindo seria passar a beira de lagos e belas cachoeiras. Em cada fazenda os caminheiros poderiam descansar nas fazendas. Os fazendeiros passaram a lucrar com hospedagens e vendas de doces e queijos. Panfletos e mapas da trilha, espalhados pela Europa, Estados Unidos e América latina, atraíram mochileiros e viajantes aos montes pra pequena Orange. O ruivo Theodor, de trinta anos, neto de húngaros, colhia repolhos pra levar a feira do povoado. Seu primo Philip, morava com eles. Theodor era de poucas palavras e de poucos amigos. A sua mãe vivia numa cadeira de rodas e o irmão mais novo sofria de retardo mental. O pai de Theodor morreu no navio que trouxe-os da Europa. Ver o pai ser jogado ao mar mexeu com o irmão de Theodor, Paul. A caminhonete amarela pegou a estrada velha até Orange, passando ao lado do lago Star. Em um belo trecho, árvores frondosas, em cada lado da estradinha, formavam um caminho agradável de sombra e frescor. Theodor conhecia aquele caminho como ninguém. Ele parou a caminhonete, a seis quilômetros de casa. Uma jovem se banhava no lago. Estava nua. Theodor pegou o binóculo na caminhonete. O grupo de mochileiros estava a trinta metros da mulher. Eram cinco com a jovem no lago. Theodor ficou admirando a beleza da jovem. -" Passaram pelo sítio do velho Gregory. Vão ter de pousar lá na nossa fazenda!!!" Disse a si mesmo. Theodor foi a cidade e logo retornou. A visão da jovem nua no lago não saía de sua cabeça. Duas horas depois. Achou que os viajantes estariam já na fazenda mas viu-os ao redor do lago. Parou a caminhonete. Assavam salsichas numa fogueira. Uma das duas moças tocava violão. Os três rapazes estavam com varas de pesca. Theodor riu da cena. Theodor foi até eles. Estavam a cinquenta metros da estrada. Theodor, botas altas, calça xadrez e chapéu grande. O bigode grosso o fazia parecer mais velho. Sardas no rosto e uma cicatriz no braço. Os jovens ficaram estáticos ao vê-lo. Sorriu forçado. Dentes amarelados. -"Hello... Oi... Welcome to Orange. Bem vindos." Um rapaz negro o cumprimentou. -" Olá... Sou Jim. Esses é Tom, de Toronto como eu. Esse é Bruno, brasileiro. Elas são chilenas mas moram no Brasil." Theodor cumprimentou os jovens. Isabelita tinha 53 anos, psicóloga chilena. Theodor se encantou por Carmen, a moça do lago. Devia ter uns 22 anos. Era morena de olhos verdes. Sorria fácil. Encantava fácil também. Um corpo escultural. Theodor viu o mapa da trilha no chão. -" Minha casa. A fazenda Orion, a próxima da trilha. Serão bem vindos!!!" Theodor se despediu deles. Assim que chegou em casa foi logo dando ordens a Philip. -" Lave o alpendre e tranque os porcos no chiqueiro. Está tudo fedido aqui." Philip sorriu. -" Quer que lave e passe perfume nos suínos? Você nunca ligou pra isso!!!" Theodor carregou as caixas de compras pra dentro da casa. Dois pequenos chalés de madeira, perto do celeiro, serviam de repouso aos mochileiros. Theodor percebeu que, das fazendas da região, a sua era que oferecia menos comodidade aos visitantes. Ele e Philip faziam quase tudo. A mãe cozinhava até que bem. Sentiu falta de um jardim e de bancos de madeira. Sentiu falta de tanta coisa. Sentiu falta do pai. Decidiu lavar a casa toda. Colheu flores no campo e as enfiou numa garrafa. A mãe estranhou. -" Flores? Está apaixonado, filho???" O moço não respondeu. Ficou lá fora, sentado numa pedra, olhando o ocaso. Um pôr do sol belo, céu de azul, laranja e vermelho. Céu australiano. Começava a escurecer quando os cinco mochileiros chegaram a fazenda Orion. Ele fez as honras e apresentou sua família. Philip levou os jovens aos chalés. Todos se reuniram no alpendre para o jantar. Paul fez festa ao ouvir um dos jovens tocar o violão. Theodor não tirava os olhos de Carmem. Philip percebeu. Eram dez horas da noite quando os mochileiros foram dormir. Jim armou uma barraca colorida no gramado. Theodor não dormia. Viu quando Carmen saiu nua do chalé e entrou na barraca de Jim. Logo, Theodor ouviu sussurros, risos e gemidos vindos da barraca. A família já dormia. Theodor resolveu ir para cama. Após o nascer do sol e o café, os mochileiros foram embora. Jim e Tom pagaram pela estadia. Theodor insistiu mas eles quiseram seguir viagem. Teriam mais treze quilômetros pela frente. Passariam pelo sítio do Castor e pela fazenda Pollack, ponto final da trilha. Theodor guardou o dinheiro na gaveta do armário. -" Preciso comprar arame e feno em Abilene. Levarei Paul." Disse pra mãe. -" Traga pregos, Theodor!!!" Pediu Philip. Abilene era um centro maior que Orange. Tinha vários armazéns. Ficava a quarenta quilômetros de Orange. Theodor partiu, as nove horas, com Paul, na caminhonete. Retornaram de Abilene às quatro horas da tarde. Chegaram a tempo do café da tarde em família. Na manhã seguinte, as sete horas, o velho fazendeiro George Flint, da fazenda do Castor, chegava a Orange na sua caminhonete azul. Trazia com ele quatro jovens mochileiros, Jim, Tom, Bruno e Isabelita. Estavam com frio e assustados. O xerife e o reverendo foram chamados. Um corpo estava na carroceria, inerte, duro, sem vida. Coberto com uma lona. O reverendo puxou a lona e viu o rosto de Carmen. Morta. Ele fez o sinal da cruz. -"Ela sempre se distanciava de nós pra se banhar. Se afogou!!!" Disse Jim ao xerife O'Brian. Ele colheu o depoimento dos amigos da morta. Nada viram de estranho. Ninguém por perto. Nenhum grito. A notícia se espalhou por Orange. O xerife e seus homens verificaram o local da morte. Nenhum rastro. Nenhuma pista. Philip deu a notícia a Theodor e sua família. Theodor chorou. Paul ficou triste e calado. O prefeito e o reverendo levaram os jovens e o corpo de Carmen até Abilene. De lá, iriam pra Adelaide. Bruno e Adelita acompanhariam o caixão de Carmen. A família da morta esperava o corpo no Brasil, onde moravam. O xerife O'Brian arquivou o caso de Carmen como mero afogamento. A vida em Orange voltou ao normal até que um mês depois um grupo de três mochileiros panamenhos encontrou o corpo de uma bela jovem italiana, morta, boiando, junto a cachoeira das noivas!!!! (CONTINNUA...)

marcos dias macedo
Enviado por marcos dias macedo em 06/03/2019
Reeditado em 06/03/2019
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