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Rasga-mortalha

Contos desconexos na madrugada

Rasga-mortalha

A noite parecia pesar dentro da minha mochila. Eu caminhava apressado pela rua que, àquela hora, estava deserta. Levei o capuz do casaco à cabeça e aumentei o ritmo das passadas. Nunca voltara tão tarde da faculdade.
A torre do convento do meu bairro apontava para o firmamento negro, com o relógio que não andava e com sua cruz imponente a vigiar toda a cidade e com o sino que tanto me irrita sempre que soa. Já estava próximo de casa, bastava-me apenas subir a rua, passar pela lateral do convento e virar à esquerda.
O som penetrou na minha alma; aquele piar rasgado e agourento. Senti medo, apesar de já ter escutado aquele som inúmeras vezes quando por ali passei, à noite.
Mais uma vez o cântico noturno ecoou nos meus ouvidos e eu olhei instintivamente para o alto da torre do convento. Pude divisar a pequena coruja branca em vigília à borda da torre.
Seu cântico aterrorizava as pessoas, que acreditavam cegamente que o pássaro era agourento, dizendo logo, sempre que o ouviam:
— Viva os noivos!
Ri com essa menção. De fato, fui educado escutando essas crendices, mas estava longe de acreditar nelas, assim como não acreditava em boa parte do que as outras pessoas costumavam crer. Imagina: como uma coruja poderia ser tachada de agourenta e predizer a morte de seres humanos?
— Ridículo!
Pensei comigo mesmo.
Ouvi que sempre que uma rasga-mortalha sobrevoa uma casa e emite o seu canto decrescente e sonoro, semelhante ao rasgar de um tecido, um falecimento na tal casa é inevitável. Mas, naquele instante, o animal notívago estava muito quieto na sua torre, não estava agourando ninguém.
Ou estava?
Os faróis ofuscaram a minha visão de tal forma, que mal percebi a que distância aquele maldito carro estava. Pareceu-me ter saído do nada.
Passou e tirou um fino de mim. Senti um frio na espinha. Foi por muito pouco: senti o vento, a velocidade com na qual aquele motorista desvairado estava. Talvez estivesse fugindo de um assalto. Talvez fosse o próprio assaltante com o carro roubado. Talvez batesse mais à frente...
A coruja continuou a me agourar, pois eu acabara de por na cabeça que aquele ser infame estava a zombar de mim, dos meus pensamentos bobos.
Sentia vontade de subir até o alto da torre e entoar o sino fortemente, até que todas as pessoas do bairro estivessem bem acordadas. Aí, quem sabe, alguém desse conta de um familiar morto durante o sono, isso segundos após uma rasga-mortalha ter passado às pressas sobre sua casa.
Ri mais ainda com essa cena na minha cabeça.
Deitado, um vulto negro debatia-se contra o portão da capela do convento.
— Um mendigo – pensei.
As batidas tornavam-se ainda mais violentas e descompassadas. A noite estava fria e o ar quente de minha respiração se chocava contra ela.
Atravessei a rua e caminhei para o portão da capela. Aproximei-me daquele corpo convulsivo e percebi que já estava parando de tremer. O que restou dentro de alguns segundos foi o corpo de um mendigo tremendo de febre, enrolado em cobertas velhas e fedorentas.
Ajoelhei-me, tirei o meu capuz e notei que ele fizera uma espécie de barreira em volta de si com paralelepípedos em torno de seu leito. Verifiquei a sua respiração e a senti fraquinha, mas ainda não era a respiração de alguém à beira da morte. Notei que o sangue jorrava-lhe da boca, pois certamente mordera a língua durante a convulsão. A cabeça também sangrava.
— Vida horrível – falei baixinho.
Era deprimente demais: um pobre coitado, abandonado ao relento e ainda a ouvir o canto de uma rasga-mortalha. Certamente faminto também...
Tateei em redor e peguei uma das pedras cúbicas do cercado do enfermo. Ergui-a com minhas duas mãos sobre minha cabeça, contemplei aquele corpo raquítico agasalhado ao meu lado.
Mirei na cabeça.
— Não, não terei força para arrebentar o crânio...
Senti que ele tremeu um pouco mais, quando falei essa última frase.
Soltei a pedra nas costelas do moribundo. Ouvi um “tlec” e tive a certeza de que havia conseguido quebrar ao menos uma costela. Desferi mais um golpe só para garantir que a costela perfuraria o pulmão.
Levantei-me, recoloquei o meu capuz e segui o meu caminho. Não ouvi nem vi mais a coruja branca na torre.
Dobrei à esquerda e me perdi na escuridão da minha rua, enquanto pensava no peso da consciência daqueles que, ao abrirem os portões da capela pela manhã, viriam o corpo teso daquele que tanto perturbara se debatendo contra as grades frias do portão. Fiquei feliz ao imaginar a paz que aquele ser sentiria quando, enfim, não conseguisse mais puxar o ar para os pulmões e acabasse ali, agasalhado em sua mortalha remendada e suja, mas longe de qualquer sofrimento.


FIM
Alisson Herbert
Enviado por Alisson Herbert em 30/09/2007
Reeditado em 21/08/2010
Código do texto: T674297

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Sobre o autor
Alisson Herbert
Campina Grande - Paraíba - Brasil, 27 anos
10 textos (7276 leituras)
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Alisson Herbert