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North Ville

Em North Ville o frio embaçava as janelas das casas e, na única rua do pequeno povoado escondido em algum lugar bem distante daqui, ninguém era visto há essa hora. Todos cultivam o hábito do silêncio, e nem mesmo a linha de trem que corta o lado oeste do vilarejo e segue até chegar às gélidas montanhas do condado de Yellowblue consegue penetrar os ouvidos dos "caipiras surdos", como são chamados. A ausência de ruídos só é quebrada pela natureza, que os moradores sabem ser impossível controlar. Mais que isso não se ouve, não há.
Há, entretanto, em North Ville, uma linha de trem e um estranho fenômeno, que nenhum cientista de parte nenhuma do mundo conseguiu desvendar. Desde uma enorme catástrofe ocorrida em 1886, na qual duas locomotivas chocaram-se provocando um estrondo que gerou uma quantidade de decibéis jamais escutada, os habitantes da pequena e reclusa vila não conseguem ouvir barulho algum que seja provocado pelos trens. Logo que o fenômeno foi descoberto, os estudiosos chegaram à conclusão de que o fato seria fruto de um trauma psicológico coletivo. A hipótese foi aceita até o nascimento do primeiro bebê após o acidente. Apesar de ter sido concebido após o infeliz acontecimento - a criança nasceu um ano e dois meses depois - ela também apresentava a perda da audição dos sons provenientes da estrada de ferro e suas locomotivas e vagões. Depois do primeiro bebê, outros nasceram. Todos eles apresentaram a mesma característica.
O acidente teria causado alguma modificação genética na população a ponto do trauma tornar-se hereditário? "Impossível", os cientistas descartam essa hipótese; não sabem, porém, o que provocou tal peculiaridade.
O silêncio de North Ville é respeitado por todos, sejam moradores, sejam forasteiros, pessoas que de alguma forma passam pelos arredores do local. Todos têm pena deles, os olham com melancolia, observam seu silêncio e relacionam à tristeza. Mas os moradores de lá são pessoas como todas as outras, em geral nem muito alegres, nem muito tristes. A diferença é não conversarem além do essencial, não escutarem o barulho do trem.
As janelas embaçadas das casinhas de madeira e com telhados cobertos de neve agora refletem uma enorme locomotiva que acaba de cruzar o vilarejo. As linhas de trem que vêm da planície de DogVille e seguem até Yellowblue já não são mais tão fortes e seguras. Todos em Northville dormem. A locomotiva que vem trazendo dezenas de passageiros em seus vagões chacoalha de forma estranha no trecho ruim da linha bem em frente às casas. O gongo bateu na lateral da locomotiva e nenhum passageiro arriscou um pio. Passa o susto. A pouco menos de cem metros da vila os passageiros já voltam a conversar. Outro trecho ruim da estrada não dá chance à locomotiva. Os passageiros não têm tempo de gritar. Subitamente todo o trem é engolido pela garganta de um penhasco e colide com o chão provocando uma enorme explosão.
Um menino em North Ville acorda assustado. A mãe o acalma dizendo que era só um pesadelo.
Álvaro Andrade
Enviado por Álvaro Andrade em 04/10/2007
Código do texto: T680634

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Sobre o autor
Álvaro Andrade
Salvador - Bahia - Brasil, 31 anos
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