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FOTOS E VINGANÇA

  Fredson, de cinqüenta e três anos, branco, alto, gordo e rico, estava sentado diante de sua escrivaninha, no último andar do prédio de quinze, de sua propriedade. Era oito horas da noite daquela quinta-feira e todos já haviam saído. Caía uma chuva fina em São Paulo, típica do outono, o que dava um tom lúgubre ao ambiente. A temperatura girava em torno dos quinze graus.
  O ódio fazia seu coração ferver.
  Hugo lhe entregara o envelope há cerca de uma hora, juntamente com o relatório. O envelope pardo continha doze fotos, tamanho 10x15cm, coloridas e nítidas. Agora estava sozinho e olhava para as fotos, espalhadas sobre o tampo da escrivaninha.
  As fotos mostravam uma bela loira, aos beijos e abraços com um homem, ruivo, cerca de trinta anos, numa das mesas de um restaurante. Ela usava óculos escuros, os cabelos presos e ocultos numa touca e um casaco de peles, que a protegia do frio. Estava quase irreconhecível, mas para ele, que a conhecia muito bem, aquele disfarce não era suficiente. O casal estava na parte dos fundos do restaurante, obviamente com a intenção de ocultar, seu ato infame, dos olhares de algum conhecido.
  Também havia fotos dos dois num carro, entrando num conhecido motel da região. Hugo realizara um excelente trabalho. Disse que havia seguido os dois por várias horas. Até almoçara no restaurante, para manter a vigilância. Os dois entraram no motel às 13h15min, sob um frio de dez graus. E saíram de lá uma hora e meia depois.
  Fredson não tinha dúvidas do que aquelas fotos representavam.
  Suas mãos tremiam, tal a intensidade de seu ódio. No entanto, não fora pêgo de surpresa, pois já esperava por isso. Havia convocado os serviços de Hugo porque as suspeitas há muito tinham se enraizado no âmago do seu coração.
  Uma pergunta brotou em sua mente atribulada: o que devia fazer?
  Era um homem rico, dono de várias empresas e indústrias (vendia de tudo: de aço, materiais de construção, peças de tratores e caminhões, até roupas e cosméticos, tendo, inclusive, um supermercado), e muito influente. Tinha amigos em todos os escalões da sociedade: políticos, empresários, comerciantes, artistas, religiosos, desportistas, etc, na região, no Brasil e até no exterior. Alcançara um status inimaginável, muito acima até do que suas próprias expectativas previam. Tinha o poder que emanava da riqueza.
  Era considerado por todos como um homem honesto, simpático, habilidoso nos negócios, além de excelente esposo e pai de família. A fachada de sua personalidade fora construída por anos de intenso marketing pessoal. Fazia doações para instituições de caridade (a contragosto, diga-se de passagem, pois desconfiava de tais entidades), era sócio do Yate Center Clube (possuía um belíssimo iate, por sinal), de um dos clubes de futebol da cidade (ia ao estádio sempre que podia), do Clube Holler, de Golfe (uma das suas paixões), era membro da Associação dos Empresários do Estado, freqüentava as melhores festas da cidade e mantinha um excelente padrão de homem bem sucedido.
  No entanto, possuía uma outra vida, do passado, que quase ninguém conhecia, em que a honestidade e os escrúpulos não tiveram vez. Uma vida ignóbil e torpe, que, se descoberta pelas autoridades, poderia levá-o à prisão! Na ânsia de enriquecer, fora o responsável por inúmeros atos ilícitos no mercado financeiro, utilizando empresas fantasmas, subornos, falsificações, especulações fraudulentas, roubos de documentos e outros atos abomináveis. Anos e anos agindo assim e nunca foi apontado sequer como suspeito. Só num país como o Brasil isso era possível, claro. Isso sem contar que tinha contas na Suíça e em paraísos ficais do Caribe, além (como não poderia deixar de ser!) uma vida sexual secreta. Hoje já não roubava mais, nem praticava atos ilícitos. Afinal, não era necessário. Alcançara seu objetivo! Sua outra vida estava adormecida há mais de dez anos, tendo em vista ter alcançado o ápice da riqueza e do poder.
  No entanto, só conseguiu praticar tantos atos ilegais e escapar impune, por causa da profunda competência e lealdade de um homem: Hugo.
  Esse homem, seu fiel escudeiro por mais de vinte anos, lhe obedecia cegamente, sem fazer perguntas ou recuar ante um obstáculo. Hugo era um amigo de infância que, aos dezoito anos, optara pelo caminho das drogas. Todas as drogas de que se possa imaginar. Estava no fundo do poço (incrustado em profunda depressão e angústia!) quando fora salvo por Fredson, então um jovem empresário iniciante, ambicioso e audacioso. Em retribuição, Hugo tornou-se seu mais leal empregado.
  E o que ele fez? Hugo, hoje com cinqüenta e seis anos, divorciado e com um filho, sujeito magro, alto, frio, sério e de poucas palavras, simplesmente colocou em prática os atos ilícitos planejados por Fredson. Fora o encarregado de afastar (de modo brutal, se fosse o caso, aí incluindo dois assassinatos) os concorrentes, fazer negociatas escusas (com falsificações, roubos e subornos), intimidar quem ousasse atrapalhar os negócios do patrão, além de efetuar, esporadicamente, serviços investigativos e de segurança. Fredson tinha plena ciência de que, se não fosse pelas eficientes e inescrupulosas ações de Hugo, jamais poderia ter enriquecido de modo tão rápido. Devia muita coisa a esse homem frio e misterioso.
  Hoje era seu braço direito e possuía o cargo simbólico de gerente geral de uma de suas fábricas, mas que estava sempre pronto para agir, se fosse acionado.
  Pois era esse Hugo, com sua inteligência e discrição, que teria que ajudá-lo nesse caso. Somente ele poderia agir com cautela e crueldade.
  Imerso em ódio, Fredson havia tomado uma decisão: ela tinha que pagar! Não havia espaço para negociações, nem perdões, nem pedidos de desculpas. Os dias de amor e desejo tinham chegado ao fim. Não poderia ter sido diferente. Era poderoso demais para ignorar esse problema e agir de forma mais branda.
  Por isso, pegou o telefone vermelho, reservado somente para solucionar casos de extrema gravidez, e ligou para Hugo.

***

  Entrou na mansão às dez horas da noite.
  O chuvisco persistia, enjoado e contínuo.
  Ela o recebeu de modo caloroso, sorrindo, e o abraçou e beijou.
  - Oi, amor. - ela disse, linda e maravilhosa. - Tudo bem?
  Adorava aquele olhar ignescente, os cabelos dourados, a pele lisa e sedosa e, principalmente, seus beijos e a forma carinhosa como o recebia. Vinte e dois anos de casamento lhes deram dois filhos: Márcia, vinte anos, hoje casada e residindo com o marido; e Fred, dezoito anos, solteiro, atualmente estudando nos Estados Unidos. Em conseqüência, moravam sozinhos naquela enorme casa, acompanhados apenas da antiga empregada. Tinham um ao outro, claro.
  - Sim. - disse, armando um sorriso falso.
  Gostou daquele abraço afetuoso, e poderia estar feliz com a vívida recepção da esposa, mas...
  Afastou-a delicadamente, ligou a TV e jogou seu corpo gordo no sofá de três lugares. Conectou num programa jornalístico. Ela sentou-se do seu lado e encostou seu corpo magro e esbelto ao dele.
  - Está chovendo. - ela disse - Você ainda quer sair para jantar?
  Tinha esquecido de que a convidara para jantar fora. Porém, apesar de estar com fome, não contava com muita disposição para sair, naquele momento.
  - Não. - respondeu - Prefiro ficar aqui, com você. O que me diz?
  - Acho que é uma ótima idéia. O vento lá fora está frio e enjoado. Que tal pedirmos uma pizza?
  - Tudo bem.
  Passou os braços por sobre aqueles ombros delicados e ficou em silêncio, os olhos fixos na tela, os pensamentos a muitos quilômetros dali.
  Ela, então, percebeu que algo estava errado.
  - O que houve, querido? - perguntou, preocupada, lançando sobre ele aqueles belos olhos verdes - Aconteceu alguma coisa?
  Sabia que ela ia perceber que algo estava errado. O que deveria dizer?
  Anos e anos proferindo mentiras e às vezes se perguntava se ela apenas fingia que acreditava em tudo. Se isso fosse verdade, era tão mordaz quanto ele. Infelizmente jamais conseguiu desvendar os segredos que se escondiam por trás daquele sorriso e daquele olhar magnânimo. Um olhar muitas das vezes estranho, que parecia querer perscrutar sua alma. Bem, mas viu-se obrigado a continuar com as mentiras, pois queria (e muito!) que tudo voltasse ao normal. Queria mesmo.
  - Não, querida. - disse, passando a mãos naqueles cabelos dourados e lisos - Tive alguns problemas na empresa, mas estão sendo solucionados. Não se preocupe. - a beijou na testa e lançou-lhe um sorriso tranqüilizador.
  - Ok. - ela não insistiu, mesmo sabendo que algo estava errado. Nunca o vira tão... tenso. O que teria descoberto? Bem, talvez pudesse descobrir tudo mais tarde. O momento não era propício. Por isso, perguntou, sorrindo: - Posso pedir a pizza?
  - Sim. - Fredson retribuiu o sorriso, aliviado com a mudança de assunto.
  Soube conduzir aquela noite com maestria. Jantaram, conversaram e dormiram juntos. Não fizeram amor, pois a tensão reinante não permitiu. Aquela não era hora para sexo! A frieza do homem de negócios sobrepujou o ódio de um homem atormentado. Apenas o chuvisco foi testemunha de seu dilema interno.
  Mas não conseguiu dormir direito.

***

  No dia seguinte, sexta-feira, manhã fria, houve um tumulto no centro da cidade.
  Havia um corpo estendido na rua, perto do meio-fio. O corpo tremia. Via-se sangue nas roupas. As pernas estavam numa posição estranha e grotesca. Seus gemidos foram ouvidos pelos transeuntes e comerciantes. As pessoas ficaram horrorizadas com a cena. Um médico, que passava por perto, examinou o corpo e o imobilizou, deixando-o numa posição mais confortável. Um guarda mantinha as pessoas a uma distância segura e organizava o trânsito, enquanto esperava a chegada da ambulância.
  Testemunhas disseram que a mulher foi atropelada um pouco depois das dez horas. Tratava-se de uma mulher loira, bonita e bem vestida. Saía de uma loja e ia atravessar a rua, na faixa de pedestres. Foi jogada a metros de distância, ao ser atingida pelo Vectra. Ou teria sido um Corsa? Seria um carro verde escuro? Ou azul escuro? As poucas pessoas que viram o acidente estavam indecisas e ninguém lembrou de anotar a placa do carro.
  O motorista não parou o veículo. Após o choque, arrancou com o carro, em alta velocidade, se evadindo do local. Era o típico caso de atropelamento e fuga. O sujeito deu sorte, uma vez que a rua estava com pouco movimento, àquela hora, e o trânsito livre e sem engarrafamentos. Buscas estão sendo feitas, para tentar achar o autor do atropelamento.
  Meia hora depois, a ambulância chegou. O corpo foi imobilizado e colocado numa maca. A loira foi levada para o hospital.

***

  No mesmo dia, o ruivo estava deitado, cochilando e curtindo o frio. Morava, de aluguel, no sétimo andar de um prédio de dez. Trabalhava como orientador de educação física, numa academia, e o expediente só começaria às duas horas da tarde. Tinha, portanto, a manhã toda para relaxar e descansar.
  De repente, ouviu o retinir contínuo da campainha. Triiimmm!!! Um som absurdamente chato! A princípio, julgou que não seria a do seu apartamento. Não era possível! Talvez fosse a do vizinho. Tinha que ser! Abriu os olhos e o pior se confirmou: era a sua campainha.
  Levantou-se, chateado, e olhou o relógio de pulso: dez horas. Droga! Não estava esperando visitas. Quem poderia estar ali, a essa hora, incomodando-o?
  Vestiu bermuda e camisa meia manga, de algodão, e seguiu, em passos trôpegos, até a sala. Deu uma olhada pelo olho mágico. E o que viu?
  O carteiro! Era um homem alto e magro, com olhar sério, que vestia o conhecido uniforme dos Correios. Carregava no ombro esquerdo a bolsa azul, com alça, e, na mão direita, um maço de envelopes. Sim. O carteiro ousou interromper seu descanso. Bem, mas poderia reconsiderar, uma vez que o cara estava apenas fazendo o seu trabalho.
  Resignado, abriu a porta.
  - Pois não? - perguntou, com a voz sonolenta.
  - Bom dia. Seu nome é Gilberto? - o carteiro indagou.
  - Isso mesmo.
  - Temos um Sedex para o senhor. Poderia assinar aqui, por favor?
  - Sedex? Posso ver?
  Deu uma olhada no envelope. Era um envelope pardo, tamanho 22x32cm, com o logotipo dos Correios nas laterais. Provinha de uma empresa chamada “Madson Materiais Esportivos”, com endereço do sul do país. Não conhecia tal empresa e tinha certeza de que jamais trocara correspondência com eles. Não sabia o motivo de ter recebido a correspondência e ficou curioso.
  - Tem caneta? - perguntou, a chateação dando lugar à curiosidade.
  - Oh, esqueci a caneta lá embaixo. Desculpe. O senhor poderia arrumar uma?
  - Tudo bem. Entre.
  O carteiro entrou e o ruivo fechou a porta.
  - Espere um pouco que irei buscar.
  O ruivo, ainda pensando no envelope da Madson (provavelmente seria propaganda de aparelhos de ginástica, pois com certeza sabiam que ele trabalhava numa academia), foi até a sala de estar e pegou uma caneta, escrita azul, que se encontrava em cima da escrivaninha. Quando retornou para a sala, teve uma surpresa.
  O carteiro segurava uma pistola (com silenciador) e a apontava para ele. Havia deixado todo o material no chão.
  O ruivo chegou a ficar nervoso (não conseguia parar de olhar para aquele cano escuro e macabro!) e ainda sem entender o porquê daquilo. Depois, acalmou-se, antevendo as chances que tinha de se safar. Provavelmente seria um assalto. Um maldito assalto! O que as pessoas não faziam para ganhar dinheiro fácil. Droga! O Brasil estava mesmo cheio de crápulas e facínoras! Mas não sentiu medo. De modo frio, analisou a situação e viu que teria que negociar com aquele sujeito, enquanto pensava num modo de reagir e imobilizá-lo.
  - Escute. - começou a dizer, estendendo os braços - Eu...
  Sentiu o impacto da bala no peito. Surpreso, tentou respirar e não conseguiu. Não sentiu dor e, sim, uma angústia incômoda. A visão ficou turva e um filete de sangue saiu do buraco no peito, sujando a camisa. O ar! Meu Deus!, pensou, em pânico, estou morrendo! Tentou esboçar algum tipo de reação, mas... não deu. Foi um único tiro. Um único e desgraçado tiro! No estertor de sua agonia, logrou rebuscar, no fundo da mente, um motivo plausível para merecer isso. Não conseguiu descobrir. Tentou falar e não pôde. Lentamente, caiu sobre o tapete e, em convulsões, rastejou por alguns metros. Sua mão direita tocou a base do sofá. Uma golfada de sangue jorrou de sua boca. A dor veio (maléfica, transportando sua vida para os confins do inferno!), porém tudo aconteceu de modo rápido e brutal. Não demorou a morrer.
  O “carteiro” não perdeu tempo.
  Rebuscou visualmente o apartamento, sem tocar em nada, e encontrou a carteira da vítima. Levou-a consigo, juntamente com o relógio de pulso. Retirou, com um lenço, as impressões digitais dos pontos onde tocara. Nenhuma pista foi deixada.
  A missão estava comprida.
  Ou quase.

***

  À tarde, Fredson recebeu a notícia de Hugo, por telefone.
  - Missão concluída, chefe.
  Eufórico, conteve a ânsia de perguntar sobre os detalhes, de como tudo aconteceu e se nenhuma pista fora deixada. Estava ciente da competência de Hugo para esses assuntos, mas... Bem, saberia de tudo no sábado, pelos jornais, Internet e TV.
  - Obrigado, Hugo. - disse, mantendo a calma e desligou.
  Seus olhos brilharam de contentamento.
  Não conseguiu pensar em mais nada.

***

  Entrou na mansão numa noite sem chuva e com a temperatura estacionada na casa dos vinte e quatro graus.
  Ela o esperava, como sempre, linda e maravilhosa.
  - Oi, amor. Tudo bem? - sempre o recebia com essa frase e com aquele sorriso estonteante nos lábios.
  Trocaram beijos e abraços. Afagou aqueles cabelos dourados.
  - Sim. E aí, minha linda? Vamos jantar fora hoje?
  - Por mim tudo bem.
  Saíram e foram a um restaurante italiano, onde comeram massas, tomaram vinho e conversaram amenidades.
  Retornaram depois da meia-noite e fizeram amor de modo ardoroso. Sentiu orgasmos indescritíveis, um prazer que há muito não sentia, em que o cheiro dela o inebriou de modo profundo, em que suas carícias o levaram às nuvens.
  Estava feliz e nunca amara tanto sua esposa.
  A vida, afinal, tinha suas compensações, pensou.

***


  Porém, no sábado, de manhã cedo, os policiais apertaram sua campainha. Surpreso, não conseguiu esboçar nenhuma reação.

***

 No mesmo dia, à tarde, a loira (que usava óculos escuros) estacionou o carro diante do hospital. Tratava-se de um prédio imenso, com três andares, limpo e organizado, embora precisando de reformas.
  Entrou no saguão e conversou com a recepcionista.
  Logo obteve a informação que desejava.
  Percorreu o largo corredor, cruzando com enfermeiras e médicos, e entrou no elevador. Subiu até o terceiro andar.
  Conversou com outra recepcionista e seguiu em frente, até o quarto 212.
  Havia seis camas ali, das quais duas estavam ocupadas, a um e a cinco.
  Aproximou-se da paciente da cama de número cinco. Puxou uma cadeira e sentou-se diante dela.
  - Oi. - disse, sorrindo.
  A paciente, outra loira, apresentava um aspecto sofrível: gesso no braço direito, bandagens no rosto inchado e na perna direita e tomava soro. No entanto, podia falar.
  - O-Olá. - murmurou.
  - Acabou dando tudo certo, embora não do modo como planejamos. - falou baixinho, embora a paciente da cama um aparentemente estivesse imóvel e de olhos fechados.
  - E-Eu poderia ter morrido...
  - Sinceramente eu não esperava que ele fosse fazer isso. - mentiu, pois sabia muito bem do que o marido era capaz. Na verdade, a usara como cobaia de um homem perverso e não se arrependia disso. Dane-se! Ela tivera sorte em sair viva. Muita sorte.
           Para disfarçar, soltou um falso sorriso e disse: - Queria apenas receber as fotos e os vídeos e pedir o divórcio. Sinto muito.
  - T-Tudo bem.
  - A polícia encontrou as fotos e as imagens do vídeo no teu apartamento.
  - Q-Que bom...
  - Ele foi preso e responderá pelo assassinato do Gilberto, além de tentativa do seu assassinato. Hugo e os outros comparsas também foram presos.
  - Ele... ele... adorava transar com a luz acesa. F-Facilitou minhas filmagens. E nunca percebia...  q-quando o Gilberto tirava as fotos. Você tinha razão. Ele não resistiu aos meus encantos. E desculpe-me por dizer, mas, apesar de gordo, ele era ótimo na cama. Um garanhão! Bem dotado! Insaciável! Um... amante de primeira q-qualidade, mais carinhoso até do que... - engoliu em seco e continuou - do que... o próprio Gilberto. - tentou sorrir, mas só conseguiu emitir uma careta de dor - Mas... p-por que você... fez... fez... isso?
  Sabia que essa pergunta viria. Nunca havia conversado com ninguém sobre isso. Era seu segredo, guardado a mil chaves. Nem os filhos ou amigos sabiam. E eis que alguém queria saber e eis que chegou à conclusão de que o momento de confessar chegara.
  Por isso, resolveu falar, expurgar, colocar para fora aquilo que estava preso dentro de si. Além disso, aquela loira, paciente (mulher detestável), que, milagrosamente escapara de um atropelamento, não iria usufruir de tal informação:
  - Simples. Eu o odiava! - respondeu, com a voz firme, olhos fixos na parede, o olhar mostrando insanidade - Primeiro, descobri que ele era um bandido, que roubava e subornava as pessoas para enriquecer. Um crápula! Um verme! Depois, soube que ele me traía com várias mulheres e o odiei por isso. Sempre o odiei. Quer dizer, eu o amava e odiava. Sei lá. - enxugou uma lágrima que começou a rolar por seu rosto - Eu amava o modo carinhoso como ele me tratava e como fazia amor comigo. Mas... mas... o ódio sobrepujou o amor. O ódio que senti foi mais forte! E decidi dar um basta nisso. Eu queria a separação, porém precisava de um motivo. E foi assim que bolei esse plano. É por isso que preparei a armadilha, contratando-a para seduzi-lo, função que você desempenhou com maestria. Parabéns! - respirou fundo, voltando a adquirir o controle e a frieza, e levantou-se - E agora, com minha vingança consumada, irei pedir o divórcio e serei uma mulher livre, divorciada e rica. - suspirou - Bem, tenho quer ir. Irei providenciar para que você tenha um tratamento digno e eficiente. Logo receberá alta e, embora tenha que depor e testemunhar, sua vida será mais tranquila. Você merece. Ah, sim. Assim que receber alta, lhe darei o cheque, ok?
  - O-Obrigada.
  De repente, a loira pegou o travesseiro da cama quatro.
  Seus brilharam. Não disse uma palavra sequer. De modo brutal, pressionou o travesseiro de encontro ao rosto da paciente. Apertou com força. A paciente, pêga de surpresa, se debatia e tentava se livrar do aperto. A cena era grotesca. O corpo se debatendo, no afã de buscar pela vida que se esvaía.
           - Morra, sua puta depravada e imunda! Morra! - terminou por gritar, baixinho, num rompante de raiva, ao notar a insistência da outra em permanecer viva.
  Apertou o travesseiro com mais força. Pressionando. Os dedos e músculos doendo com o esforço. O esgar da morte nos braços!!! Alguns minutos depois, o corpo da paciente soltou a última convulsão e não se mexeu mais.
  A loira respirou fundo, massageou os braços e se preparou para o último ato do plano que há anos vinha elaborando. Seria o ápice da vitória.
  Colocou o travesseiro de volta na cama quatro e correu para a porta. Abriu a porta e gritou para o corredor, evidenciando um falso desespero:
  - ENFERMEIRA! SOCORRO!!! SOCORRO!!!
  A enfermeira, mulher magra e aparentando ter trinta anos e com os reflexos apurados para tais emergências, veio correndo e entrou no quarto. Ao constatar que a paciente estava morta, disse:
  - Ela sofreu uma convulsão. Uma pena...
  Quando a enfermeira disse aquilo, entrou num estado de tanta felicidade que a custo conteve a vontade de soltar uma gargalhada. Queria gritar ao muindo o quanto era esperta! Ela conseguira! Tudo saiu de modo perfeito! Perfeito como a liberdade e a riqueza!
  A enfermeira cobriu a paciente com o lençol e disse:
  - Irei chamar o médico para os exames finais. Não há nada que possamos fazer. Os pais dela moram no interior de São Paulo, mas ficaram de chegar hoje. Ficarão desolados. A senhora é parente dela?
  - Não. Sou apenas uma amiga. - fingiu estar triste - Coitada!...
  Já iam sair do quarto, quando o inesperado aconteceu!

***

       Estremeceu ao ouvir um grito pavoroso!!!

***

  De repente, ouviu a paciente da cama um gritar:
  - EU VI TUDO!!! ELA A MATOU! ELA A MATOU!!! EU VI TUDO!!!
  A loira se assustou e, por alguns segundos, o brilhou do medo despontou em seus olhos.
  “Meu Deus!” - pensou, em pânico - “Esqueci completamente essa desgraçada!”
  Começou a tremer, o rosto pálido, ao perceber que tudo estava perdido. O que seus filhos iriam pensar?
            "Não! Não" Não!", refletiu, em desespero.
           
FIM
Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 13/10/2007
Reeditado em 14/10/2007
Código do texto: T692458
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 52 anos
70 textos (15122 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 15/12/17 14:48)
Joderyma Torres