Sem Saída

Mas que lugar é esse? – Eu pensei subitamente enquanto acordava lentamente naquele lugar estranho e sombrio. Era uma espécie de galpão montado às pressas com ripas de madeira desiguais, porém, fortemente fixadas. O calor era ardente e o local não devia ter mais de dois metros quadrados. A sensação claustrofóbica só não me enlouquecia porque, estranhamente, havia um odor muito agradável que me recordava o cheiro de terra molhada.

Entre as frestas daquela construção que mais parecia uma cabana reforçada, pude perceber a acolhedora luz do sol tocando-me suavemente, como um carinho. Mas tudo estava fechado, não conseguia encontrar algo que sequer lembrasse uma porta ou janela. Joguei meu corpo contra uma das paredes na esperança de me libertar daquele sufoco e foi bem nessa hora que percebi como estava fraco. Despenquei no chão com uma dor inimaginável que se estendia do meu ombro direto até as costas da minha mão. Era o aviso de que não deveria ter feito aquilo, pensei. Não havia saída.

Felizmente a ansiedade afastava minha fome e, não que eu recusasse um copo d'água, porém, parecia tolerável ficar sem ele naquele instante. Eu precisava sair daquele lugar, era só isso que pensava, mas, dadas as circunstâncias, provavelmente o melhor era esperar alguns minutos para que meus músculos se recuperassem da minha primeira tentativa de fuga frustrada. Meu corpo realmente não estava bem, mas minha mente parecia funcionar como de costume. Por vezes me vinham cenas de filmes hollywoodianos, imaginava se haveria algum enigma naquele lugar ou, pelo menos, um ponto fraco naquelas paredes que me permitisse escapar.

Estranhamente não me questionava muito sobre as possíveis razões daquela bizarra experiência. Fosse um sequestro, um atentado ou um ato de pura covardia, que diferença faria? Eu estava sozinho em um campo aberto. Quando gritava, nem mesmo um inseto ou pássaro parecia reagir. Eu estava focado: precisava apenas sair dali, mas não podia.

Aos poucos tentei me reerguer. Tocava cada ripa de madeira como um perito, motivado pela expectativa de encontrar alguma maneira de escapar. Aproveitei para tentar enxergar o lado de fora pelas frestas, mas era impossível. Os filhos da mãe provavelmente usaram umas três ou quatro camadas de madeira. Só mesmo a luz do sol era capaz de atravessar as minúsculas frestas que existiam. Era assustador e delirante, mas, por algum motivo, me lancei novamente ao chão e comecei a rir. Seja quem fosse o responsável por de tal absurdo, ele era bom, um baita detalhista.

Após algumas dezenas de tentativas de derrubar a parede e com o corpo totalmente dolorido, simplesmente me entreguei. Deitei-me com calma para não me lesar ainda mais e coloquei-me exatamente na mesma posição em que acordei. Não via mais alternativas, aquele era mesmo o meu fim, e seria uma morte triste e agoniante. No entanto, por mais estranho que pareça, eu não me sentia mal. Pelo contrário, fui tomado por uma sensação de paz que nunca havia sentido antes.

No princípio não entendia bem aquele sentimento e tentava me divertir fazendo racionalizações sobre aquela sensação mágica que me possuía. Pensei que muitos no meu lugar entenderiam aquilo como um presente divino, uma forma de Deus nos presentear com um final tranquilo. Outros, mais pragmáticos, provavelmente entenderiam como uma mera explosão final de endorfina, uma evidência clara de que meu corpo estava se preparando para a morte. Entretanto, o que isso importava, afinal? Lá estava eu, sozinho tal como despertei neste mundo, livre de toda a ansiedade causada por meus problemas, obrigações, expectativas e sonhos tolos. Pela primeira vez me senti realmente livre, ironicamente quando estava dentro de uma prisão apavorante.

Quando fechei os olhos e me permiti descansar, experimentei um sono maravilhoso que, infelizmente, durou pouco. Finalmente despertei sobre uma pilha de papéis que preenchia em minha mesa. As memórias, aos poucos, se recompunham enquanto a sensação de paz e liberdade era substituída gradualmente pelo estresse rotineiro daquele dia, algo muito semelhante à sensação claustrofóbica que senti em meus primeiros instantes naquele lugar estranho que sonhara. Eu estava exausto e sobrecarregado, porém segui com meus compromissos como de costume.

Eu jamais me esqueci das emoções e resoluções que vivenciei naquele lugar. Pode ter sido apenas um baita pesadelo, mas faria tudo para viver outra vez àqueles últimos minutos na estranha cabana.


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Coletânea Ditos e Feitos - 2020
Recanto das Letras