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BILHETE DA MORTE

Florianópolis.
Encontrou o cadáver quando faltavam dez minutos para as sete horas da tarde daquela sexta-feira, no horário de verão.
Resolvera cortar caminho, aproveitando o resto da claridade e o fato de que nunca voltava para casa nesse horário.
Ao descer do ônibus, andou um pouco e dobrou à esquerda, entrando numa estrada de terra batida, deserta, curta, com o matagal do lado esquerdo e o campo de futebol do direito. Depois do muro que cercava o campo, os quintais das casas da rua adjacente. Os meninos do bairro geralmente paravam de jogar lá pela seis. Raramente passava por ali e nunca se interessou em ver a pelada da rapaziada.
No matagal havia uma espécie de abismo, uma depressão do terreno, em que se via mato e rochas.
Fazia um calor infernal, comum no mês de janeiro.
O cadáver estava ali, perto das rochas, a seis metros abaixo do nível da rua. Andando rente à depressão, não pôde deixar de vê-lo.
Levou um susto, ao ver o corpo.
“Um cadáver! Meu Deus!” - pensou, cabreiro.
Nunca tinha visto um cadáver de perto. Seu nervosismo era latente.
Mesmo assim, a curiosidade sobrepujou o medo e ele resolveu dar uma olhada. Antes, observou a área, temendo o pior. Seus olhos assustados não vislumbraram ninguém nas imediações. Estava sozinho.
Respirou fundo, preparando-se para a empreitada.
Desceu, então, a depressão, lentamente (tomando cuidado para não tropeçar nas pedras), e agachou-se diante do cadáver. Algumas moscas sobrevoavam o local.
Tratava-se de um homem, magro, barba por fazer, alto, e provavelmente com mais de trinta anos. Não o reconheceu. Havia dois ferimentos de bala no corpo, na região do peito. O sangue do peito estava coagulado. Os olhos arregalados, o rosto com um aspecto grotesco e a pele já adquirindo uma rigidez maquiavélica diziam que estava morto. Mesmo assim, apertou o pulso esquerdo do homem e comprovou a ausência de movimento. Morto, morto, morto...
Notou que o homem usava calça jeans e camisa de meia-manga, branca, com botões. Roupas velhas, assim como os sapatos.
Com certeza fora assassinado em outro local e deixado ali pelo assassino (ou pelos assassinos). O que poderia ter acontecido? Acerto de contas? Vingança? Crime passional? Latrocínio? Um “serial killer” atuando na região?
Sentiu uma leve repulsa, ao ver aquele corpo sem vida. Estremeceu, ao ver a morte tão próxima, dominando e quebrando o equilíbrio da sociedade. A morte cruel, insensível, pragmática e que arrebentava a dignidade humana.
Engoliu em seco e controlou a vontade de vomitar.
Olhando atentamente aquele homem, de repente, sem poder explicar como, sentiu vontade de mexer no corpo, talvez para identificá-lo. Sabia que isso poderia ser perigoso e, caso algo desse errado, poderia ser usado contra ele.
Mesmo assim, o demônio da curiosidade o dominava.
Precisava mexer, merda! Era como uma força maligna, o impulsionando!!!
Por isso, com os dedos trêmulos, fazendo careta de nojo, rebuscou os bolsos da camisa e da calça, até tocar em algo. Retirou o objeto do bolso esquerdo.
A carteira!
Ansioso, deu uma olhada na mesma. Era de couro marrom (de péssima qualidade), provavelmente do tipo vendida pelos camelôs. Abriu a referida. Surpreso, descobriu que, dentro dela, havia... dinheiro. Sim. Por incrível que pareça, viu dinheiro, (as cédulas brilhando!!!), algo não muito provável de encontrar.
Além da grana, os documentos do morto também estavam ali. Incrível!
Perguntou-se: por que o assassino (seria mais de um?) não levou a carteira? Por que deixou os documentos e o dinheiro? Pressa? Algo o impedira? Que espécie de criminoso agiria com tanta imprudência?
Sem pensar duas vezes, mesmo sabendo tratar-se de uma loucura, colocou a carteira do cadáver no bolso da própria calça. Não era ladrão e nunca havia roubado nada na vida, mas sentiu que a oportunidade era propícia para ganhar um dinheirinho fácil.
Quer dizer, não via aquilo como um roubo. Digamos que havia achado a carteira no terreno, num suntuoso golpe de sorte.
E por que levar a carteira?
Tinha vinte e oito anos, solteiro e estava desempregado há três dias. Três dias terríveis, em que a procura por um novo emprego era angustiante e irritante. Acabara de ser entrevistado (no centro da cidade) para a função de balconista em uma farmácia, mas sem grandes perspectivas. Morava só e tinha pouca grana na poupança. A necessidade o impulsionava. Além disso, calculou as possibilidades. Bastava ficar com o dinheiro, tirar as impressões digitais e abandonar a carteira em qualquer lugar e pronto. Quem iria querer procurar pelo dinheiro de um morto, estando com os documentos em mãos?
“Dane-se!”, pensou. O morto com certeza era um ladrão, um vagabundo, que fora assassinado por comparsas, e esse dinheiro não lhe faria falta.
Por isso, levantou-se e subiu a depressão. Ainda estava nervoso, mas se acalmou um pouco ao notar que não havia ninguém nas imediações. Alcançou a rua quando a tarde já dava lugar à escuridão da noite. As luzes dos postes estavam acesas.
Abandonou o cadáver, levando a carteira.

***

Morava numa pensão de alvenaria, de dois andares.
Na pensão havia oito quitinetes, todas ocupadas. Residia na última, do andar de cima. Abriu o portão de entrada, atravessou o pátio e subiu as escadas. Lá em cima, caminhou pelo corredor, passando na frente da porta dos três primeiros quitinetes, até alcançar o seu.
A janela do segundo quitinete estava aberta, mas ninguém puxou conversa com ele. Ótimo. Na verdade, morava ali há apenas seis meses e não tinha (nem queria) intimidade com nenhum dos moradores.
Entrou na quarta quitinete (constituída de sala, quarto, banheiro e cozinha, tudo apertado e reduzido, porém aconchegante).
Fechou a porta e abriu a janela. Ligou a lâmpada de mercúrio, o ventilador (o vento do aparelho amenizou o calor reinante) e a TV. A linda âncora apresentava o jornal local. Retirou a camisa e a jogou no sofá. Retirou os sapatos.
Sentou-se no sofá e, ignorando as notícias da TV, concentrou suas atenções na carteira. Retirou o dinheiro e o contou. Trezentos e vinte e três reais. Soltou um assobio de surpresa. Muita grana, sim senhor! Por que o assassino (ou quem sabe os assassinos?) não levou a carteira ou esse dinheiro todo ou mesmo os documentos?
Dane-se! Esse mistério provavelmente nunca seria solucionado.
Era uma quantia considerável e que iria amenizar as coisas para seu lado. Bem, a grana agora era a sua, por uma questão de sorte e oportunidade. Por isso, a guardou na própria carteira, satisfeito com o que fizera.
Continuando a pesquisa, retirou todos os documentos e papéis da carteira do morto e os espalhou sobre a mesinha de centro.
O que viu foi: uma carteira de identidade, (o nome de João Raimundo Lubber Janson em destaque), a carteira de habilitação (categoria B), o certificado de registro e licenciamento de um Fiat Palio, um calendário (no verso a foto de uma santa), um pedaço de papel com o nome “Renato” e um número de telefone (escritos à caneta de tinta azul), um bilhete da Mega-Sena, dois reais e vinte e cinco centavos em moedas, um cartão de crédito, a foto de uma mulher, o cartão do CPF, o título eleitoral e um cartão de propaganda de uma oficina.
Ficou olhando para todo aquele material, os pensamentos a mil por hora.
Tinha dois nomes, dois números de telefone (aí incluindo o da oficina), mais os dados do carro e seria fácil localizar o endereço do morto. No entanto, não iria fazer isso. Nem pensar! Que a polícia se encarregasse das investigações.
João Raimundo, o que você aprontou? Que crime cometeu? Onde errou?
Dane-se!, pensou. Não iria se preocupar com essas bobagens.
Começou a colocar os documentos e os papéis de volta na carteira. Todavia, ao pegar o bilhete da Mega-Sena, notou uma mancha avermelhada no canto superior direito. Tal mancha teria, no máximo, um centímetro de diâmetro e possuía o formato de uma maçã. Uma maçã, num desenho bem delineado.
Surpreso, decidiu passar o dedo polegar em cima da mancha (seria sangue? Ou tinta?), no intuito de tirá-la, mas, subitamente, sem entender o motivo, suas mãos começaram a formigar, como se tivesse com cãibra. A sensação foi ruim! Logo em seguida, sentiu, por segundos, uma estranha e angustiante falta de ar.
Não conseguia respirar!!!
Apavorado, involuntariamente retirou o dedo da mancha (não notou sequer quando isso aconteceu) e, num frêmito intenso, voltou a respirar normalmente. Voltou a respirar!!! Ohhh, o ar lhe voltou aos pulmões. Aspirou fundo o precioso ar! A sensação angustiante passou. Igualmente sumiu o formigamento nas mãos.
Ainda segurava o bilhete e não relacionou o que sentiu com o toque da mancha. Olhava para o bilhete e notou outro aspecto singular. Os números 09, 13, 14, 34, 41 e 58, válidos para o concurso do próximo sábado, brilhavam! Era um brilho fluorescente, sinistro e sobrenatural. Era como se o bilhete tivesse sido... o quê? Não quis pensar nisso. Não podia pensar nisso, porra!!! Passou as mãos nos cabelos.
Sem saber o motivo (talvez uma força estranha e pragmática, da qual desconhecia a origem, e que dominou seu cérebro - ou talvez suas mãos não quisessem largá-lo!), optou por ficar com o bilhete. Nunca jogara na Mega-Sena, seja por comodismo ou por não acreditar no Sistema ou nas probabilidades (as chances eram de uma em mais de 50 milhões - algo quase impossível!), mas chegou à conclusão de que não custaria nada guardar aquele bilhete em especial. Ficou com bilhete, pois era como se alguém o impulsionasse a isso. O bilhete fluorescente!
Colocou o bilhete (evitando tocar o desenho da maçã) na própria carteira, guardou a carteira do morto dentro da gaveta central do guarda-roupa, no quarto (iria se livrar dela no sábado) e seguiu para o banheiro, onde tomou um banho demorado. Depois, enxugou-se e vestiu bermuda jeans e camisa amarela, de meia manga. Para comemorar a aquisição financeira (sua sorte grande), decidiu jantar num dos restaurantes do bairro.
Saiu da quitinete e percorreu, a pé (não possuía carro), as ruas do bairro, até desembocar na rua principal.
Jantou bife acebolado, no restaurante “Garfo do Kleber”, e tomou três cervejas, saboreando essa refeição inusitada. Chega de macarrão instantâneo, né? Riu consigo mesmo. Devorou tudo lentamente, enquanto via a tela da TV. Nada saiu na telinha, a respeito do morto. Óbvio. Com certeza só encontrariam o cadáver no sábado.
Depois, saciado, e ligeiramente tonto, retornou à quitinete. Viu TV. Ouviu música. Deitou-se perto da meia-noite, ainda com a deliciosa embriaguez do álcool na mente.
Subitamente, teve um pesadelo. Um pesadelo!!! Sonhou com vermes, milhares de vermes horripilantes (o corpo gosmento e esguio), rastejando em sua direção. Ele corria num matagal denso, nu e em desespero. De repente, tropeçou numa pedra e caiu. Os vermes (muitos com trinta centímetros de comprimento) o alcançaram e começaram a sugar seu sangue. Ele gritava de dor, mas não conseguia fugir.
Acordou, em pânico, e sentou-se na cama.
- Que pesadelo estranho, porra! - murmurou, cabreiro.
Demorou a dormir.

***

No sábado, insone (só conseguiu apagar lá pelas quatro horas da madrugada), alimentou a preguiça e decidiu permanecer deitado. Só levantou da cama quando passava das dez horas de uma manhã quente. Mesmo assim, estava animado e pensou que esse seria um dia de sorte. Era um homem sortudo, porra!, pensou, sorrindo.
Fez suas necessidades, escovou os dentes, tomou banho (cantando um rock agitado) e preparou o desjejum. Detonou uma xícara de café instantâneo com leite e comeu seis bolachas de água-e-sal com margarina. Comeu duas bananas, em seguida, e bebeu um copo de água gelada. Pronto. Estava revigorado e em condições de seguir em frente.
Esqueceu o pesadelo, esqueceu os problemas (só lembrou do dinheiro que ganhara, num lance de sorte), fez suas necessidades e colocou as roupas sujas numa bolsa preta. Lembrou-se da carteira do morto e a colocou no bolso esquerdo da calça. No direito, sua carteira, com a grana e o bilhete da Mega-Sena.
Saiu para as ruas do bairro (o dia estava bonito, com o sol radiante), em passos lentos, carregando a bolsa preta, e seguindo na direção da lavanderia.
Pensou no que deveria fazer com a carteira do tal de João Raimundo. Poderia deixá-la perto de uma agência dos Correios ou mesmo próximo da sede de uma das rádios da cidade. Ou quem sabe numa praça ou igreja. No entanto, não viu nenhum objetivo prático nesses procedimentos. De que adiantaria devolver os documentos de um morto? Um morto que provavelmente seria um bandido? Bobagem! Optou, então, por jogá-la no lixo (simplesmente isso), num bairro distante. Algo mais simples e menos arriscado. Depois que deixasse suas roupas sujas na lavanderia, pegaria um ônibus, desceria num bairro qualquer e jogaria a carteira na primeira lata de lixo que encontrasse. E dane-se o resto!
Decisão tomada, dobrou a esquina e entrou na rua principal. Passou na frente do restaurante “Garfo do Kleber” e seguiu em frente. A rua (que possuía um aclive suave) estava tranqüila e com poucos carros.
De repente, o cenário mudou. Um carro (talvez um Monza preto - ou seria um Corsa verde escuro?) surgiu do nada (como um demônio ensandecido), do alto da rua, descendo em alta velocidade e completamente desgovernado. Aquele maldito carro estava vindo na sua direção, pensou.
Por alguns segundos, ficou perdido no limbo de sua desgraça. Não conseguiu esboçar nenhum tipo de reação. Não conseguiu compreender porque dera o azar de estar ali, no caminho daquele carro sem controle. Não conseguiu entender porque as coisas aconteceram desse jeito. Não conseguiu aceitar sua sorte! Não, não, não!!!
Então, como num filme de terror, foi atingido em cheio e teve o corpo prensado contra a parede de uma loja. O barulho foi ouvido longe. A parede ruiu e o carro ficou em frangalhos.
Nada sentiu. Apenas ouviu o barulho dos seus ossos sendo esmigalhados.

***

No domingo, foi divulgado na televisão:
“Prêmio acumulado da Mega-Sena, no valor de 22 milhões de reais, saiu para um apostador de Florianópolis. Os números sorteados foram: 09, 13, 14, 34, 41 e 58. A aposta foi feita na casa lotérica “Sorte Suprema”, localizada na...”

***

Jamais teve conhecimento dessa notícia.
Sua carteira (na qual estava o bilhete premiado) foi guardada, por seu irmão mais velho, no quarto da quitinete (na gaveta central do guarda-roupa). Seu irmão ficou com o dinheiro (que ajudaria nas despesas médicas), mas não soube do bilhete.
Todos os parentes e amigos aguardavam sua recuperação.
Mas ele jamais se recuperou.
Permaneceu em coma permanente, respirando por aparelhos.
Morreu dois anos depois, sem recuperar os sentidos.

FIM




Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 13/11/2007
Reeditado em 13/11/2007
Código do texto: T736114
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 52 anos
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Joderyma Torres