(In)existir

..."só pode ser brincadeira". É esse o teor dos pensamentos, num lugar onde pensar dói a cabeça e é difícil também por outros motivos, um deles é manter-se em pé. Incredulidade e ofensa serviam de definição para ele. A razão? Uma jovem que colocou-se ao seu lado, mas o rosto estava virado de modo que não o via... no entanto, certeza tinha de que isso acontecera antes... e nada fez. A raiva, simplifico, se dava porque a moça, mesmo - supostamente - o vendo, não prestou um cumprimento sequer, mínimo que fosse; poderia apenas, quem sabe, sorrir falsamente com os olhos e virar-se, mas nem isso. Eles, evidentemente, se conheciam. Nada muito íntimo, relação quase inexistente, aliás - o que liga um ao outro é o fato d'ela ser amiga do irmão deste, agora, iracundo, e o mau sentimento d'ele, inclusive, não é forte assim à toa, vem se alimentando de migalhas já consumidas há tempos e vezes, não é a primeira vez que esse tipo de coisa acontece, mas é a primeira onde o irmão não está presente para o acontecido ser ainda mais flagrante, porém ele se enraiveceu com força agora.

Segura-se numa fina coluna e está escorado num canto de parede, o local está relativamente lotado. Onde se encontra é um dos poucos espaços para se tomar ar, por causa das janelas. Tem o costume de ficar nesse cantinho, assim fica sozinho e também longe do alarido entorpecedor. Vez ou outra alguém se aproxima para falar-lhe algo, mas, na maioria das vezes, entra e sai sem uma única pessoa dizer-lhe um boa-alguma-coisa qualquer, muito por conta de seu comportamento de fugitivo e de seu rosto sempre fechado, mesmo os chegados temiam que estivesse aborrecido e preferiam deixá-lo quieto, mas a verdade é que gosta muito de uma companhia, quando de um amigo, não alguém qualquer. Certa vez aproximou-se um homenzinho vigoroso de uns cinquenta anos, já estava sendo observado, vinha falando com ânimo a todo mundo, pegava na mão das pessoas e dizia algumas coisas tendo um sorriso visível de longe. Pediu muito que não o importunasse, mas não teve jeito. Lá estava o homem, na sua frente, estendendo-lhe a mão. Rapaz bem educado, sabe que a descortesia é vergonhosa, mas pensou que fingindo estar impossibilitado se livraria da obrigação de apertar sua mão e iniciar uma conversa. O fim? O homem insistiu, recebeu um olhar inocente de retribuição e seu rosto transfigurou-se para a de alguém insultado - saiu agradecendo, como desaforo, para que os em-volta ouvissem e lançassem suas censuras. Mas a culpa disso tudo, principalmente, era a timidez; lá estava, com frequência, quase por obrigação, e investia as horas em devaneios, julgamentos ou, quando de bom humor, contemplações.

Mas o momento não é de nada disso, agora a palavra é raiva. Fita os cabelos longos e cacheados dela, está de costas para si, vez ou outra vira o rosto e tem ele em seu campo de visão. Passou um tempo analisando sua aparência, tendo a certeza de já tê-la visto, esse esforço trouxe apenas esse fremir interior. Para você que não sabe, como antes disse, é coisa já oriunda do passado. Essa mulher, sendo amiga de seu irmão, já teve contato com ele... numa missa à tarde, talvez? Aí foi quando surgiu o sentimento. O irmão, grande, ao seu lado - e ela vindo com o namorado. Sabe o que aconteceu? Ambos sorriram e abraçaram apenas o irmão..., mas e ele? Parecia estar invisível, mal recebeu um olhar, e esse veio apenas pela apresentação. Essa situação se repetiu mais vezes, e na mente d'ele uma confusão sobre o motivo de ser ignorado e até xingamentos eram concebidos. Tinha já era certeza: raiva dela sentia. Odiava ser posto de lado, ignorado, desprezado ou o que fosse que lhe tirasse a dignidade, a honra e a própria sensação de existência. Era alguém... para ser visto, celebrado, contatado, nem para que o xingassem ou agredissem, queria apenas firmar sua presença aos outros, saber que não era um vulto esquecível, mas sofrera esse impropério... mais de uma vez. Foi ridicularizado, esfaqueado, deslegitimado. Esse estigma lateja nesse momento e suas mãos tremem, querendo apertar algo, e sua visão embaçou-se mais. Mais uns desses sopros de ódio, vindos de longe, soltos ao vento por toda parte do mundo - sente poder, só vê sacostas e as imagens de outrora.

Nesse mundo tem gente tanta

Que, assumo, até me espanta

Não ser geral essa matança

De povo que não se suporta

Até mesmo na bonança

- Amigo! - uma mão segurou seu antebraço esquerdo e um braço envolveu seu pescoço - não sei por que ainda te procuro em todos os lugares antes de vir aqui!

É alguém sorridente. Suspirou, o rosto ainda está um pouco avermelhado e arfa levemente, olhando para a jovem alta e forte. Será que se sente humilhado? O amigo estranhou, mas sabe dos problemas de saúde, uma queda de pressão, presume, e chama-o para fora, já levando. Ele ainda quis olhar para trás, com seu semblante cansado, para penetrar no fundo daquele olhar e provar sua presença - e, quem sabe, seu perigo.

Rodrigo Hontojita
Enviado por Rodrigo Hontojita em 16/06/2022
Código do texto: T7539249
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