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SEJA BEM VINDO Á ESCURIDÃO ( A SAGA DE LUKE)

  Todo amaldiçoado tem sua própria história, suas próprias origens, sua própria tragédia pessoal. Cada um de nós leva consigo uma espécie de herança genética que nos faz mais fortes, mais aptos ou até mais sábios uns do que os outros. Assim como os humanos transmitem aos seus filhos a cor do cabelo, o padrão de altura, as feições do rosto e tantas outras características genéticas, os vampiros podem transferir suas melhores habilidades para suas criações. Posso dizer que aprendi isso e muitas outras coisas como todo ser de minha raça aprende: pelo sangue. Lembro-me como se fosse ontem o que aconteceu comigo há tantos séculos atrás.
   Era uma noite escura de domingo quando eu voltava de um baile na corte de Nostemburg, Inglaterra. Minha visão estava um pouco turva por causa do vinho e me esforçava para ficar de pé, enquanto vagava rumo ao feudo de meu pai. Eu estava sozinho em meio a uma imensidão de mata fechada e vazia. O silêncio era aterrador, e o sibilar do vento varrendo os galhos das árvores  causava-me um arrepio na espinha.
  Aquele uivo da brisa sussurrava uma melodia sinistra que se perdia nas profundezas da floresta, mas estranhamente isso me lembrava do dia em que minha pequena irmã nascera. Seu primeiro choro,os gritos agonizantes de minha mãe á beira da morte, a voz desesperada de meu pai em busca de socorro, tudo fundia-se  magicamente numa sinfonia infernal oriunda das trevas. Durante algum tempo fiquei ali, hipnotizado pelos pensamentos distantes, um tanto nostálgico diante das lamúrias da vida. Isso tornou-me completamente inocente ao ambiente demoníaco que formava-se pouco a pouco diante de mim. E Não mais que de repente, todos estes devaneios ébrios se dispersaram ao passo de uma visão perturbadora que chamou ainda mais minha atenção...
  Á frente de minha trilha, um grande vulto cortou o caminho para o lado esquerdo que dava para a vila central. Meu coração disparou, meus pés se congelaram instantaneamente e não pude proferir sequer um terço do medo que se alastrou em minha mente. A figura parecia humana, mas trajava uma larga manta escura e antiga. Possuía grande estatura e seus olhos brilhavam na penumbra da floresta. Ele também me viu, mas com certeza não era seu desejo ter sido visto. A partir daí, não sei se foi o efeito do álcool ou o fruto de meu pavor, só sei que agora ele parecia sorrir para mim.
  Não sei relatar o que aconteceu naqueles breves momentos, mas o ambiente encheu-se de uma maldade imensurável. Meu corpo todo se relaxou e meus olhos pesaram mais que o chumbo. Tentei correr, mas era impossível. Estava completamente dominado por uma força sobrenatural que me mantinha fixo no chão, como uma presa aguardando o abate iminente. Ouvi uma respiração ofegante em minhas costas, mas não havia coragem ou forças em mim para volver os olhos naquele sentido. Com certeza havia outra daquelas coisas me espreitando, deliciando-se de minha impotência diante da lúgubre situação. O letal silêncio foi quebrado por uma voz gutural:
 -O que achas, Orgius?
 -Não sei Luxur, ele parece tão doce, tão delicado. É uma pena ter que matá-lo.
 -Não seja tolo, meu irmão. Eles são apenas alimento, quantas vezes terei que lhe dizer isso?
 -Mas ao menos uma vez poderíamos fazer diferente. Ao menos SÓ DESTA VEZ, só para provar da herança do sangue.
 -Esta é uma decisão que pode ser fatal para nós, meu irmão!
  Minha cabeça girava. Tudo estava confuso para mim. Além de embriagado, eu estava paralisado por algum tipo de poder sedutor muito forte. Aquela discussão não parecia ter sentido nenhum, mas na verdade ela decidiria meu destino. Era estranho ouvir aqueles homens falando. Cada olhar, cada gesto... Por mínimo que fosse parecia levar algum tipo de mensagem, algo que não havia como meu vagaroso cérebro interpretar. Pareciam ler a mente um do outro sem precisar das palavras para expressar suas vontades. Só mais tarde eu entenderia que tudo o que meus ouvidos humanos escutaram nunca fora necessário para aquele diálogo. Era apenas mais um modo de me  aterrorizar ainda mais. Os gêmeos demoníacos sempre sentiram prazer nestes jogos psicológicos.
 -Esta é minha decisão final, Luxur. Quer você queira ou não, eu tornarei este mortal meu escravo para sempre!
 Os olhares das feras cruzaram-se instintivamente. Quase cheguei a pensar que testemunharia um embate de demônios, mas um deles começou a gargalhar de repente.
 -HÁ,HÁ,HÁ,HÁ,HÁ! Você meu irmão, sempre tempestuoso e imaturo. Já o conheço há séculos, não esperaria outra coisa de você, seu patife!
 -Isso quer dizer que concorda comigo?
  Nesse momento Luxur franziu a testa com um semblante muito compenetrado.
 -Claro que não Orgius! Jamais poderia fazer suas vontades como você bem o deseja. Você acabaria por me escravizar, como deseja fazer a este pedaço de lixo inútil aqui (ele apertou meu braço, fazendo com que meus ossos se estalassem incômodamente). Eu proponho lançar sua sorte na primeira caçada. Caso ele consiga se alimentar antes do sol nascer, você pode ficar com ele. Do contrário, teremos perdido seu “escravo” e também nosso jantar. O que você acha?
 -Oh, Luxur. Você tem cada idéia brilhante! Será divertidíssimo, com certeza eu aceito. Ele será meu cãozinho de estimação. Fará tudo o que eu ordenar e poderei brincar com ele por toda a eternidade...
 -Mas não se empolgue tanto assim, meu caro. Primeiro terá que provar que pode se alimentar sozinho. Caso não tenha sucesso, os raios de sol queimarão sua pele até que se converta em cinzas, o que seria muito mais vantajoso para mim.
  Os dois entreolharam-se um tanto desconfiados diante das atitudes um do outro, mas logo lhes veio á memória o que deveriam fazer, e depressa, já que em poucas horas o sol estaria novamente de pé. Eu até já podia sentir minhas pernas e braços saindo do encanto quando um deles segurou-me firmemente pelas costas permitindo que o outro desferisse uma poderosa mordida em minha garganta na ânsia de roubar minha vitalidade. Mesmo ainda não conhecendo o mundo dos amaldiçoados, senti que a criatura excitava-se com aquele ritual macabro.
  O outro que me mantinha preso não resistiu á fome e também se dependurou sobre minha jugular fazendo com que os dois irmãos desfrutassem ao mesmo tempo de meu sangue. Um quadro de horror fora pintado naquela densa escuridão. Um mero mortal era agora abraçado pelo poder da maldade manifesto em Orgius e Luxur, os filhos do pecado.
  Em breves momentos, roubaram o meu passado. Meus sonhos, meus medos e tudo o que me fazia humano escoou-se junto à  bebida avermelhada que adoçava os lábios dos dois monstros.
  Minutos depois, Orgius me conduziu em seus braços até o mais profundo da floresta vazia, deixando-me deitado em uma cama de folhas secas e terra umedecida. Nem mesmo os animais ousavam se aproximar daqueles espectros malignos que vagavam pelas trilhas da mata cerrada.
 -Pobre criança. Indefesa e confusa. Mas esta noite provará seu valor... Será que tem um nome?
 -Cale a boca Orgius! Deixe de ser dramático. Partiremos agora, para amanhã à noite retornaremos aqui. Mas espere, olhe isto...
  Luxur abaixou-se suavemente e tomou a pulseira que me pai me dera quando completei 18 anos de idade.
 -Não querias saber o nome desse lixo? Eis aí, se isso lhe importa alguma coisa. Tome, veja o que diz aí!
  Orgius leu meu nome esculpido em madeira no frágil objeto.

 -Então esse é o nome de meu servo...

 Senti que algo gelado tocou minhas bochechas. Era o beijo de Orgius (o beijo da morte).
 -Seja bem vindo á escuridão, meu filho. Seja bem vindo, meu caro HENRY.


Lembra-te e cuida bem de tudo que é teu passado.
Um dia sempre ele volta, nem sempre como se quer.
Kuida então e vigia para mantê-lo distante
E mesmo distante perto, contendo-o como puder.


C.M.poco.
Cayus Marcws pocotirios
Enviado por Cayus Marcws pocotirios em 17/10/2008
Reeditado em 01/03/2010
Código do texto: T1233565


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Sobre o autor
Cayus Marcws pocotirios
Manaus - Amazonas - Brasil, 32 anos
48 textos (8707 leituras)
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Cayus Marcws pocotirios