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Inferno Proprio

"Eu quero o seu amor e quero a sua vingança.Eu e você poderíamos escrever um romance ruim..."

Ela o olhava insinuante,com aquela conhecida expressão sarcástica que ele conhecia.Calcinha e sutiã vermelhos coberta por globos de cristal,linda na cama de com lençois de linho brancos.
A revista era nova e custara a ele dezoito reais o que ele não achou muito para vê-la.Em seu interior o odio tremulava ,na superficie fina do auto-controle.A corda custara 3,50,a fita adesiva 30 centavos,a serra média ele roubara de uma casa,"tudo por você querida" ele dizia para si.
Algo dentro dele parecia irremediavelmente destruido,magoado,dolorido como musculos expostos e crus no fogo.Ele fora dilacerado e quanto tempo fazia?Nem sabia.
Subiu pela parede de pedra como um bicho asqueroso,ele sabia que encontraria a janela aberta,entraria para torturar aquela vadia.Matá-la?Quem sabe?Deixá-la tão insana quanto o havia deixado era mais provável.
Ele se sentia asqueroso subindo pelas pedras lisas e frias,o cheiro de rosas selvagens vinha de algum lugar o enojando,o fazia lembrar do cheiro dela quando se aconchegava e chorava em seu ombro.Ele queria colocar as duas mãos ao redor daquele pescoço alvo,não,ele queria puxar uma a uma aquelas unhas bem esmaltadas,queria vê-las desprender da carne bem lentamente.Ele queria ouvir os gritos para não lembrar de quando ela ria de suas piadas ruins.
Já estava nas ultimas pedras,iria amordaçá-la e lhe pingar agua fervente nas costas,iria arrancar-lhe os olhos,costurar-lhe as palpebras e os lábios.Queira operá-la viva!Queria que doesse,doesse muito,que ela implorasse pela morte breve.Que chorasse e se arrependesse,que se humilhasse como um objeto que era.Suas mãos tocaram o parapeito finalmente e ele se espetou em um espinho de rosa mesmo assim pulou para dentro do quarto.
A iluminação era suave e indireta,véus diáfanos pendiam do teto,cobriam a cama de dossel.Espalhados pelo chão inumeras folhas de papel,confusão de partituras,textos e poesias.Paredes brancas adornadas com metades de globos de vidro.
Ajoelhada em meio a tudo estava ela,de costas, em um vestido parcialmente destruido,cabelos em desalinho gritando insanidades.Chorava ele ouvia,ela chorava em um ataque histerico.
Por um momento ele sentiu pena,que criatura deploravel ela se tornara,mas logo a raiva lhe voltou até com mais força.Ele se aproximou com a corda,iria enforcá-la até o desmaio depois acordá-la e refazer tudo,desejou um saco plastico para colocar em volta daquela cabeça nojenta.Ele se aproximou como uma doninha visando uma galinha,sorrateiro e distante.
Quase teve um infarto quando ela falou lucidamente.
- Então eu não tenho perdão?
- Não... - Ele disse se refazendo.
- Pena...Poderia ter sido legal...- Ela levantava.
- Foi legal...Por um tempo.Agora acabou e você também... - Ele pulou em direção ao pescoço dela.
Foi rapido,ela se virou e ele sentiu uma pontada na parte interna da coxa esquerda.No mesmo instante que ele a enlaçava,então agachada em frente a ele sentindo o aperto da corda no pescoço ela balbulciou.
- Desculpe...Não estou pronta.
Aos poucos o aperto foi afrouxando,as marcas no pescoço ficaram mas ela mal as sentia.Levantou enquanto ele caia,chutou-lhe levemente o braço para testar sua consciência,sorriu por fim.
- Desculpe amor,eu entendo suas razões,juro que entendo mas ainda não é a hora...Você vai voltar agora,para sua casa e seus amiguinhos,tudo vai voltar ao que era...Vou esquecer hoje e tudo vai ser divertido não vai?
Ele só a ouvia parcialmente,outra parte de si estava novamente se quebrando.Ele voltaria ao hospicio,vendo-a somente pelas revista,pelos jornais,aquela por qual perdera a sanidade,sua alma.
Ela se arrumou e trocou o vestido enquanto esperava os enfermeiros,beijou a aliança na mão esquerda prometendo a si mesma que o visitaria mais vezes talvez os surtos se tornassem mais espaçados.Logo ela esqueceria essa promessa também,lembrou de uma piada e riu enquanto os enfermeiros o levavam.Em seu riso havia algo de demonio luxuriante.
Ele era reconduzido a sua morada permanente,seu quarto acolchoado,seu inferno proprio.
Tinkerhell
Enviado por Tinkerhell em 03/01/2010
Reeditado em 04/01/2010
Código do texto: T2009792

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Sobre a autora
Tinkerhell
Maringá - Paraná - Brasil, 29 anos
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