A Alma do Gato

O antigo relógio com formato de 8 bateria onze pancadas, se não estivesse parado há anos. E tudo estava parado no enorme casarão.

Vitrôs fechados, e as altas portas de duas folhas seladas com pesadas trancas de ferro.

Tudo eram sombras, meros vultos fantasmagóricos no salão da frente. Eram mesas gastas e rústicas, com peças em gesso, um velho sapatão com sola furada, garrafões empoeirados, havia três ou quatro.

A moringa jazia ao lado de um bule de cobre de um mil novecentos e nada. Telas apenas começadas esperavam nos três cavaletes por traços e tintas.

Rangeriam nesse momento as tábuas desgastadas do assoalho, se alguém por ali caminhasse, e continuariam a ranger pelo corredor com enormes quadros dependurados nas paredes, e ainda outros amontoados no chão. Duas portas davam acesso a um pequeno cômodo, com mais ou menos as mesmas bugigangas do salão, que de vez em quando se transformava em lugar para dormir, e o outro pequeno quarto verdadeiro, embora simples.

No final do corredor, outro salão. Maior que o primeiro.

A um canto, o sofá velho, mas mais moderno que o resto da mobília, e suas duas poltronas. Uma delas, vazia, desocupada, sempre a espera de um visitante. A outra, no entanto, vazia no momento, mas com sinais de uso constante, pelo afundamento no encosto e assento, três ou quatro livros igualmente velhos, e um cinzeiro de porcelana pintada com tocos de cigarros até a boca.

Ao lado da poltrona, uma mesa de ferro, com tampo de vidro, sustentava mais livros, cadernos, um lápis e borracha, papéis, cartas abertas e esquecidas.

Acima, uma prateleira presa à parede sob o largo vitrô, suportava estátuas em gesso, outros papéis e livros e o grande “Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa”.

Espremido entre as tábuas, passava o ruído miúdo, quase imperceptível, de início. A seguir, principiaram os guinchos acompanhados do som fofo, de um corpo mole, chocando-se repetidas vezes no chão de tijolos do porão.

O Comendador remexeu-se na cama, custando a perceber que o barulho não fazia parte de seu sonho, mas sim, que vinha lá de baixo da casa. O porão corria sob o assoalho de seu quarto também.

Permaneceu quietinho, um olho aberto e outro fechado, esperando...

Silêncio...

Desta vez, porém, tremeu debaixo do pijama.

O som alto fê-lo abrir e muito bem ambos os olhos e sentar-se na cama.

Identificou a origem do som:

“Vem aí de baixo. Que será?”

Apurou bem os ouvidos, mas nada mais conseguindo ouvir, preferiu deitar-se de lado e voltar a dormir.

Não acreditava em fantasmas, e também se os houvesse, contra ele nada poderiam fazer. Ladrão debaixo da casa não teria nada a fazer. Talvez fosse uma raposa ou coisa semelhante, pensou o homem, procurando sempre dar uma explicação racional ao fato mais extraordinário que pudesse parecer.

O negócio era ficar quietinho, esperando o sono voltar, e o dia amanhecer.

Três dias amanheceram e três noites vieram.

As sombras cobriram os salões, os vultos e as frestas do assoalho não mais deixaram passar qualquer som. No entanto, o que se espremia entre as tábuas era um cheiro adocicado e morno. Quase um mau cheiro.

No quarto dia, o Comendador pulou da cama ao som estridente da campainha.

Vestiu as calças e a camisa, e passando as mãos na cabeça para colocar os fios de cabelos no lugar, abriu o portão da rua.

A vizinha, bondosa mulher, amante e protetora dos animais, lá estava na calçada da casa da Rua do Vergueiro.

- O comendador me desculpe. Vim saber do meu gato. O senhor não viu ele por aí? Sumiu faz uns quatro dias. Coitado... Não sei, não, mas acho que alguma coisa ruim lhe sucedeu.

- Não vi, não senhora. Mas se quiser ver no quintal, entre e fique à vontade.

- Com licença então.

Entrou com passos envergonhados, seguida pelo Comendador.

A essa hora, uma bela claridade de manhã acariciava o segundo salão e cozinha.

Desceram as escadas da varanda para o quintal.

As folhagens banhavam-se na fresca brisa, e as vinólias acordavam sua cor lilás vibrante.

Galos e galinhas ciscavam pela terra, tranqüilas, ignorando por completo a chegada dos dois.

Percorreram todo o quintal, levantando galhos e folhas, chamando pelo bichano.

- Não está por aqui, não, Comendador.

- E o porão? Olhe lá, fique à vontade, por favor.

Havendo penetrado apenas uns poucos metros no porão, o cheiro desagradável invadiu as narinas da mulher.

- Hm, é cheiro de bicho morto, Comendador...

- Será possível?

- E vem daquele lado de lá.

Entraram até onde suas cabeças tocaram o teto. Nada viam, apenas sentiam o cheiro tornando-se mais forte. Não era possível enxergar nada lá no fundo, a não ser vultos escuros.

Precisaram recuar. O cheiro era insuportável.

Não havia dúvidas de que havia ali um animal morto em adiantado estado de putrefação.

A vizinha despediu-se pesarosa, com a certeza de que seu gato era o defunto a exalar o mau cheiro.

- Era um gato lindo. Todinho preto. Peludo...

- Pode não ser ele. Pode voltar!

- Tomara, Comendador. Se Deus quiser, ele volta.

O bichano não voltou.

O Comendador conviveu ainda alguns dias com o cheiro de carniça, até que este enfraqueceu e acabou desaparecendo por completo.

Tudo já estava completamente esquecido na sexta-feira em que a filha do Comendador chegou de viagem.

Ela chegou e como sempre, foi recebida com alegria por seu pai, com o café fresco, o leite gelado e o pão torrado.

Depois da refeição, foi o sentar-se no salão perto da cozinha. O Comendador acomodou-se em sua poltrona e sua filha naquela outra vazia durante a semana, a espera de um visitante.

- Então, vamos lá. Vamos contar as misérias da vida.

A conversa estendeu-se até por volta da meia-noite, quando o Comendador foi ao banheiro, retirou a gravata, acendeu um cigarro e foi para seu quarto.

A moça arrumou seu colchão no quarto da frente, pensando no que iria fazer.

Durante toda a semana, planejara aproveitar o final de semana desenhando na casa de seu pai, que era uma Academia de Arte.

A cabeça em gesso patinada em negro do venerável capuchinho, primeiro mestre de pintura de seu pai, quando menino, chamou-lhe a atenção.

Era esse mesmo que seria seu modelo para o desenho a carvão.

Prendeu na prancheta o papel branco, com percevejos, colocando-o num cavalete. Estudou demoradamente o busto, sua posição, sombra e luz, após o que, começou a riscar com carvão o modelo.

O relógio deixou de existir daí em diante. A madrugada estendia-se agradável, assistindo silenciosamente a execução do desenho.

De repente, o som chegou aos ouvidos da desenhista. Prestou mais atenção e identificou o ruído: a torneira da pia da cozinha pingava compassadamente. As gotas batiam no alumínio da pia.

Incomodada, a filha do Comendador foi à cozinha e apertou a torneira.

Aproveitou a oportunidade para colocar no fogo água para ferver.

Fez um café solúvel, voltando para o salão com a xícara. Bebericava o café, admirando o desenho. Conseguira uma bela cabeça.

Satisfeita, acendeu um cigarro, e sombreou mais um pouco o desenho.

Parte dos olhos pronta, e parecia que eles enxergavam por trás dos óculos.

- Frei Paulo, ajude-me a fazê-lo bem!

Feita a invocação, firmou mais algumas sombras com o carvão, tirou lá e aqui, para dar volume e brilho.

Era hora de parar e ir para a cama.

Escovou os dentes, acendendo a lâmpada do corredor que levava ao banheiro. Na volta, tocou o comutador, desligando a luz. Passando pela cozinha e pelo salão fez a mesma coisa. Apenas a lâmpada de seu quarto estava acesa e do corredor diante dos dois quartos.

Ao chegar o dedo para apagar a luz do corredor, sentiu um imenso arrepio percorrer-lhe a pele. Seus olhos voltaram-se para os fundos da casa, ao ver a luz do corredor da cozinha acender-se sozinha.

Apesar de sua idade, sentiu-se uma criança pequena que acorda no meio da noite, com um medo inexplicável e chama pela mãe, mas agora chamou foi pelo pai, chegando bem perto da porta de seu quarto.

A voz saía trêmula, mais baixa que alta.

Para seu desespero, o Comendador, em seu sono profundo, não emitiu qualquer resposta

Tentou de novo, e mais uma vez, e a resposta veio mole, sonolenta.

- O que é?

- Pai, a luz acendeu...

- O quê?

- A luz... acendeu...

- O quê? Não entendi. Espere um pouco.

Ela ouviu seu pai colocar a roupa. Este abriu a porta, só um pouquinho, pondo a cabeça na fresta.

- O que é?

- A luz... acendeu...

- Que luz?

- Lá do corredor...

- Pois então, apague.

- Ela acendeu sozinha.

- Vá, vá, vá. Vá lá e apague.

- Nem morta.

- Êh, deu de ficar medrosa agora? Vamos lá.

- Mas e se houver alguém?

- Dou um murro nele.

E lá foram os dois. Nada havia de concreto para explicar o fato.

- Pai, pai. Não acredito em fantasmas, mas...

- ... que los hai, los hai.

- É...

- Pronto, minha senhora. Posso continuar dormindo agora?

- Pode, claro. Mas espere que eu entre em meu quarto antes e feche a porta.

- De que adianta fechar a porta?

- É... para fantasmas não há barreiras. Bom, se for o espírito do Frei Paulo que veio por eu tê-lo desenhado, espero que tenha gostado do trabalho, e não esteja vindo vingar-se.

Poucos instantes depois o casarão estava totalmente imerso nas sombras. Humanos e fantasmas mergulhavam no sono. No dia seguinte, o Comendador e sua filha comentavam e riam do fato ocorrido. Mas a dúvida persistia sempre. O que houvera na realidade? Como aquela lâmpada acendera?

Não há temor que resista à luz do sol. Parece que os fantasmas dormem durante o dia, ou simplesmente ficam a espreitar os vivos, a estudar suas reações, seus hábitos, seus temores. Durante a noite, porém, eles acordam. Surge neles o desejo de se comunicarem, de se fazerem presentes. Mas eles aguardam pelo silêncio. Não lhes basta apenas que haja caído a noite. E sempre escolhem uma única vítima por vez.

A filha do Comendador desenhava novamente. Até a hora de deitar-se, nada acontecera. Mas...

Logo após ter-se acomodado no colchão, às três e meia da madrugada, as coisas começaram a acontecer. Eram leves passos de algodão a percorrer o assoalho, não se sabia de qual cômodo provinham. Eram passos espaciais, nada que se pudesse localizar com precisão.

Com os olhos arregalados na escuridão do quarto, a moça tentava descobrir se o barulho acontecia na casa ou fora dela. Fixou sua atenção no quarto de seu pai. Ele talvez estivesse insone, e houvesse se levantado para fumar.

Definitivamente, não vinham de lá os passos.

Esperou.

Cessaram os sons, por instantes.

Desta vez, o som não deixava dúvidas. Algo caíra no andar de cima, no atelier do Comendador.

Não dava mais para esperar. Levantou-se, acendeu a luz de seu quarto e foi bater à porta do quarto de seu pai.

- Pai...

— O silêncio respondeu-lhe. Apenas na terceira tentativa, a voz sonolenta respondeu.

- Pai, ouvi barulho...

- O quê? Espere um pouco, que não estou entendendo nada.

Encostou o ouvido à porta.

- Fale de novo, devagar.

- Ouvi barulho.

- Chê. Já vou.

Abriu a porta após haver colocado as calças, meias e sapatos.

- O que foi desta vez?

- Ouvi uma porção de barulhos. Quero dizer, primeiro foi o som de passos pelo assoalho. Agora, foi algo forte e pesado, como alguma coisa caindo no chão do atelier.

- Não há nada!

- Nunca soube que nada faz um barulho desses.

Nem acabara de falar, a luz do corredor piscou duas vezes.

- Viu, pai? Agora o senhor viu.

- Não vi nada. A luz apenas piscou. Acho que é chuva que vem por aí, e o vento deve ter derrubado qualquer coisa lá em cima.

- Então vamos lá no atelier olhar...

- Chê, precisa é? Vá você lá.

- Eu? Imagine! Vamos comigo.

Subiram a estreita escada, fazendo rangerem seus degraus de madeira e deram no cômodo mal iluminado.

O cavalete enorme parecia um gigante bem no centro do atelier. Tudo estava em seus lugares, desarrumados, como habitualmente. Não havia qualquer sinal de objeto caído no chão.

- Aqui está tudo certo.

- Isso é que me assusta.

- Vá, vá, sua boboca. Você deve ter sonhado.

- Tenho certeza de que não. Estava acordadíssima.

- Vamos dormir e parar de caçar almas penadas.

Desceram.

- Pai, acho que gostaria de um café fresco.

- Pô, a essa hora? Tá bom. Vamos lá fazer o café. Que horas são? Não, não diga.

- São quatro e quinze.

O que aconteceu então, ninguém acreditaria se fosse contado.

Um vento forte começou a soprar ao redor da casa.

- Viu, vem temporal por aí.

- Perfeito para uma noite de terror.

- Você leu “O Morro dos Ventos...

- Uivantes”. Li. De Emile Brönte. É o que isto aqui está parecendo hoje.

A ventania fazia baterem as venezianas. No quintal, as árvores gemiam retorcendo-se. Mas além do uivo do vento, um som estranho começou a chegar aos ouvidos dos dois.

- O senhor ouviu isso?

- Agora ouvi.

- Olhe, está aumentando. É um miado, pai. Está vindo do porão.

- É um gato, pronto. Mistério desvendado.

Assim cria o Comendador até o momento em que o som tornou-se mais alto e subiu para o salão, cozinha. A casa toda encheu-se do miado estridente.

- Pai... A coisa está preta.

- Preta, porquê?

- Veja aquela parede.

O Comendador olhou para o lugar para o qual apontava a filha e viu a imensa mancha negra. Era um vulto enorme com as formas de um gato. A sombra abria a boca enorme emitindo o já conhecido som.

- Que coisa espantosa!!!

- O que vamos fazer, pai?

- Acho que nada.

Tomaram o café, trêmulos, sem, no entanto, perder de vista o vulto ameaçador que continuava a soltar seu miado profundo e sofrido, enquanto pancadas contra os tijolos do porão se faziam ouvir em cima.

- Gato envenenado...

- Gato assassinado, pai.

A ventania acalmou-se apenas quando a tênue claridade da manhã veio aos poucos dissipando o negror da noite.

O vulto negro e seus gritos foram sendo carregados pela última rajada de vento.

Dormiram um sono agitado, entremeado de despertar assustado e horríveis pesadelos.

O domingo chegou, enfim, claro, ensolarado, sem vento, sombras ou miados.

O Comendador e sua filha foram ao porão levando consigo uma lanterna. Circularam com o foco de luz as partes escuras do porão. Queriam encontrar a explicação para os fatos, embora estivessem temerosos do que poderiam encontrar.

A luz bateu no lugar exato. Uma carcaça preta e decomposta de gato lá estava, retorcida. A cabeça ainda intacta tinha os olhos abertos, fixos no vazio, e a boca escancarada punha à mostra as gengivas vermelhas e afiadíssimos dentes brancos.

- Deve ter morrido já faz tempo. Está com a pele colada aos ossos, pai...

- É o gato que a vizinha procurava.

- Agora o senhor sabe com quem vai estar durante as madrugadas. Agora em sua casa, habita a alma do gato.