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Fúria Lupina - Surge Um Caçador

Este é um trecho do livro "Fúria Lupina - Brasil", lançado em 2010.
Mais informações no site do autor: www.AlferMedeiros.com.br
Visite também o blog da série: http://furialupina.blogspot.com.br

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Joe "Hell" Vansing aprecia a sua tequila, recostado no balcão. Morador de Hidalgo (Texas), ganha a vida com negócios ilícitos, como contrabando e golpes. Adora armas e, segundo ele mesmo, "toda cria do Tio Sam deve empunhar uma arma de fogo e se orgulhar disso". Além disso, possui um gosto todo especial pela caça, "um prazer quase sexual", conforme costuma dizer. Já fez parte de caçadas, tanto legais quanto clandestinas, em território norte-americano, e também na Austrália e na África.

"De vez em quando preciso arrastar meu esqueleto até o México, onde posso cometer alguns excessos que não ousaria na minha amada pátria", diz o caçador sempre que é questionado sobre suas visitas ao país vizinho. Não entraremos em detalhes sórdidos sobre tais práticas, porque todos os interesses mundanos de Vansing se tornarão insignificantes após os acontecimentos desta noite.

Joe está em um bar não muito bem frequentado, na periferia da cidade de Reynosa, sentado em frente a um balcão manchado e molhado. Movimenta os olhos vagarosamente, visualizando o ambiente ao seu redor. Cerca de dez homens mal-encarados distribuem-se entre a velha mesa de bilhar, o pequeno balcão e a área livre existente entre a porta do estabelecimento e os banheiros, à direita de quem entra.

Uma mistura caótica de sons inunda o ambiente, formada pelas animadas conversas dos grupos de frequentadores, por uma velha jukebox executando sofregamente uma versão de "Cama de Piedra", de Cuco Sánchez e, finalmente, por uma pequena TV atrás do balcão, ligada no noticiário local.

O clima geral é de comemoração, visto que o México acaba de sagrar-se campeão da Concacaf, conquistando assim uma vaga para participar da Copa do Mundo de Futebol do ano seguinte (1978), na Argentina. O telejornal da TV mostra os gols da última partida da seleção nacional, destacando a intensa participação da torcida mexicana, nesse campeonato em que foram anfitriões.

– Isso para mim é esporte de garotinhas! Pagaria para ver esses morenos na Liga Nacional de Beisebol ou na NFL. Teriam umas aulinhas práticas sobre o que é esporte de homens de verdade! – sussurra para si mesmo Joe, sem disfarçar um sorrisinho de escárnio.

Quando o assunto do noticiário passou para política internacional, o destaque foi o presidente norte-americano que tomou posse naquele ano, Jimmy Carter. Nesse momento, Vansing se levanta do banco, termina sua bebida de forma rápida, paga a conta e deixa o bar. "Era só o que me faltava! O pior não é ter de aturar esse democrata maricas, que se esforça tanto para fazer acordos com os inimigos vermelhos!", pensa, indignado, "Pior mesmo é ouvir isso até em língua estrangeira! Não vou gastar meu espanhol com isso."

Pisando duro e bufando, ele entra no seu jipe Willys 1961, verde como o do exército. Chave na ignição, charuto na boca, chapéu na cabeça, fita cassete no rádio. Das caixas de som, a voz profunda e inconfundível de Johnny Cash entoa "Send a Picture of Mother". "Sim senhor", diz em voz alta o caçador, já melhorando seu humor, "agora somos só eu e Mr. Cash, rodando até os Estados Unidos da América, embalados pelo show de Folsom Prison!" Ele pega uma estradinha de terra mal-iluminada, atalho já bem conhecido até a fronteira.

Passados alguns minutos, com a música "I Got Stripes" finalizando, algo inesperado acontece: ele nota um movimento no mato alto da beira da estrada, à direita, algumas centenas de metros à frente. Prontamente, diminui a velocidade do carro e observa. Bem à frente do veículo, surge em fuga alucinada uma cabra, na mesma direção em que ia o Willys, em diagonal. No seu encalço, o maior cachorro que Joe já tinha visto em toda a sua vida.

Uma freada brusca, chapéu no colo, charuto no chão, rádio silenciado. Ele não acredita no que presencia naquele momento. Após um salto incrível, a fera crava suas garras no caprino, que acaba se desequilibrando, tombando a aproximadamente cem metros do jipe.

No tempo de uma piscada de olho, o pobre animal já está convulsionando na beira da estrada, sucumbindo à feroz investida da besta selvagem. A cabeça lupina desce, num movimento rápido e preciso. O pescoço da presa é dilacerado de uma forma mortal por presas infernais. Um jorro de sangue banha a estrada, sendo prontamente obstruído pelo focinho do atacante, que parece se deleitar em beber o líquido espesso e quente, segurando a cabeça da cabra com uma pata dianteira e o corpo com a outra.

O lobo, posicionado de lado em relação ao jipe, não toma conhecimento da luz dos faróis nem da presença do humano, pois sua sede é insuportável, turvando seus sentidos. Vansing, recuperado do susto inicial, vê uma oportunidade de ouro de levar esse troféu para casa.

Sem desviar os olhos da cena, apalpa o banco traseiro, à procura de uma sacola com valioso conteúdo: Christine, sua velha espingarda. Nunca se sabe quando a sua queridinha pode ser requerida, e ele agradece aos céus quando sente seu toque frio e reconfortante. Procurando ser o mais silencioso possível, ele abre a porta do jipe, posiciona a mira e dispara.

O tiro acerta a lateral da cabeça do bicho, e o caçador orgulhosamente solta um "headshot!", velho bordão que adota quando a bala acerta o alvo dessa maneira. Nem bem teve tempo de baixar a espingarda, e seus olhos arregalam-se, não acreditando no que veem.

O canídeo, que deveria estar estatelado na estrada, simplesmente vira a cabeça na direção dele e emite um urro medonho, que é um misto de protesto e intimidação. Pior ainda: ele se levanta nas patas traseiras e vem caminhando, como se fosse uma pessoa! Novamente, Christine é posicionada, e outra bala voa com endereço certo, desta vez no meio dos olhos do cão dos infernos.

– Jesus Cristo! – é a única frase que Joe consegue formular nesse momento de pavor.

Mesmo indo contra toda a lógica, ele pode jurar que a bala ricocheteou, ao invés de estourar a cabeça desse ser, fruto algum pesadelo. A única reação do lobisomem foi parar sua marcha ameaçadora, levando as garras à cabeça e demonstrando uma certa desorientação, visto que cambaleia levemente em direção ao meio da estrada.

O único som audível neste momento é uma marcha arranhada, engatada às pressas, seguida de um arranque violento do jipe. O caçador, cego de pavor, nem vê como a criatura foi atropelada, sente somente o solavanco das rodas do lado esquerdo, passando por cima do ser macabro.

Ele para algumas dezenas de metros à frente, torcendo para que tivesse sobrado algo da carcaça para ele levar aos EUA. Pelo menos a cabeça ele manteria como troféu. Ainda sentado, ofegante e suando em bicas, apoia o braço no banco do passageiro e se vira para ver o resultado do seu ataque. Naquela direção, a escuridão é quase total, amenizada somente pelas luzes de freio do automóvel.

Para seu desespero, o demônio peludo se levanta, sujo de terra e emitindo um rosnado ameaçador. Em meio a todas as formas possíveis que Joe conhece de amaldiçoar alguém em inglês norte-americano, o jipe parte para o ataque, em marcha-a-ré, atingindo novamente a criatura, que desta vez procura se segurar junto ao estepe que está posicionado na traseira.

A velocidade aumenta. De relance, o Vansing acredita ver um volume à beira da estrada, um barranco ou algo do tipo. Com uma manobra brusca, a traseira do carro é conduzida nessa direção, e um grande estrondo preenche a noite quando ocorre o choque.

Ainda zonzo, o motorista pega uma lanterna no porta-luvas e sai, cambaleando para a traseira do jipe, do lado do passageiro. Ele percebe que o que ele achava ser um barranco é, na verdade, uma pequena formação rochosa. O lobisomem encontra-se prensado em diagonal, entre o estepe destruído junto com a traseira do jipe e a rocha. Por incrível que pareça, uma respiração curta e fraca ainda escapa do focinho, que sangra sem parar. Um braço está preso junto ao para-choque, outro está retorcido em meio aos destroços.

Espantado pela criatura não ter sido cortada ao meio no choque, Vansing o analisa com calma pela primeira vez. Sob o facho da lanterna, visualiza os tons de cinza e marrom do pelo, que vão clareando na área dos olhos, bochechas, em boa parte do focinho e no início do pescoço. "É um autêntico lobo mexicano!", pensa Joe, tirando um punhal do bolso. Ele pretende dar um fim a essa vida nefasta, através de uma sangria pela veia jugular.

Outro palavrão é jogado ao ar, quando não consegue furar o pescoço do bicho, danificando o punhal nas violentas e inúteis investidas. Aproximando a mão em pinça à área da tentativa frustrada de corte, através de um potente beliscão, ele descobre uma pele grossa como a do rinoceronte, porém mais flexível. Quase que o seu relaxamento, proveniente da curiosidade, lhe custa caro. Repentinamente, o lobo vira a cabeça e tenta mordê-lo, e ele escapa por muito pouco.

– Vou te mostrar do que Hell Vansing é feito! Tenho um brinquedinho que vem bem a calhar!

Voltando à cabine do jipe, procura novamente a sacola de onde tirou Christine. Dela, retira um machado bem afiado, apesar da lâmina oxidada e do cabo gasto. O homem-lobo urra agonizante, diante da aproximação de seu carrasco. Um sorriso sádico rasga a face do caçador, e assim permanece enquanto o machado sobe e desce sem parar, num violento vai-e-vem que arranca faíscas da rocha, sangue do pescoço do lobo, e uma risada insana de Joe.

Quando finalmente a cabeça rola pela grama, o homem está exausto, seus braços tremem pelo esforço, que foi maior do que esperava (ele parou de contar na décima machadada), mas ele está satisfeito. Larga o machado, abaixa-se e pega a grande cabeça de lobo pelas orelhas.

– Eu venci no final, seu desgraçado! Filho de uma cadela sarnenta! – seu momento de glória, porém, dura pouco. – Mas que diabos de magia-negra é essa?

Espantado, ele larga a cabeça no chão, pois ela está se transfigurando. Os pelos caem e tornam-se cinzas retorcidas, ao mesmo tempo em que as feições de lobo tornam-se cada vez mais humanas. Ao final do processo, ele tem a seus pés uma cabeça de um adolescente de aproximadamente 15 anos de idade, com a pele do rosto pálida e macilenta.

Ao se virar para a traseira do Willys, percebe que a mesma metamorfose ocorreu com o corpo, que agora está aos pedaços. Um mal-estar indescritível invade suas entranhas e ele vomita, sofrendo de terríveis contrações no abdômen, mesmo não tendo mais nada no estômago.

Ele não sabe dizer quanto tempo levou até ocultar os restos mortais do garoto, jogar fora suas roupas sujas e limpar a traseira do jipe. Tem apenas uma leve noção de que faltam poucas horas para o raiar do dia. Ainda não conseguiu digerir o acontecido naquela estrada deserta do México, mas sabe que deve iniciar um exaustivo trabalho de pesquisa e aprimoramento, pois acaba de encontrar um objetivo para sua vida. E é em meio a esses pensamentos que prossegue em seu caminho de volta para casa.
Alfer Medeiros
Enviado por Alfer Medeiros em 08/09/2014
Reeditado em 09/09/2014
Código do texto: T4954324
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Sobre o autor
Alfer Medeiros
São Paulo - São Paulo - Brasil, 45 anos
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Alfer Medeiros