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Fúria Lupina - Experiências Sádicas

Este é um trecho do livro "Fúria Lupina - Brasil", lançado em 2010.
Mais informações no site do autor: www.AlferMedeiros.com.br
Visite também o blog da série: http://furialupina.blogspot.com.br

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Charlene está exausta, machucada, deprimida. Ela está dentro de uma jaula quadrada, de grades grossas, com um tamanho aproximado de três metros por dois. Dois lados da jaula estão obstruídos por paredes, pois ela está em um canto de um grande porão, que cheira a terra úmida, mofo e excrementos. Ela sente frio, e sua respiração é difícil, porque aqui é muito abafado.

Olhando através de um dos lados livres de sua jaula, consegue enxergar suas irmãs, Rachel e Sarah, em igual situação, cada uma delas em um canto. O que elas têm em comum: estão aprisionadas, feridas, em forma de lobo, e foram traídas pela mãe.

Subindo as escadas do porão, nos deparamos com dois caçadores sentados em cadeiras toscas e velhas, em uma grande cozinha com ar de abandono, que faz parte de uma propriedade rural alugada, no estado do Maine (EUA). Joe Vansing faz um brinde de bourbon com seu amigo Ted Guent, velho parceiro de caçadas no norte do país, que passou a ser seu braço direito na caça aos “cães do inferno”, como ele mesmo chama às espécies de lobisomens. Eles comemoram os dez anos desde a morte do garoto-lobo sob o machado de Joe, naquela estrada deserta do México.

– Ao número um! – brinda Vansing.

– E às dezenas de cães que já mandamos para o inferno nesses dez anos! – complementa Ted, entornando seu bourbon.

O que os dois têm em comum, além do corte de cabelo no estilo mullet e a idade bem próxima (já passam dos trinta), é o gosto por perseguir, atacar e matar lobisomens, se possível torturando-os antes de despachá-los para o além. Guent já tentou fazer faculdade de biologia e de veterinária, sempre desistindo, pois gostava mais de matar seres vivos do que estudá-los. Por causa disso, ele agradece aos céus todas as noites a oportunidade que o amigo lhe ofereceu, de poder exterminar uma praga do seu país, e ainda ser pago para isso.

– Um brinde também a Margareth, a mãe do ano! Se não fosse por ela, não teríamos evoluído tanto na nossa pesquisa sobre esses bichos, hein, Joe?

– Um brinde a essa querida fanática religiosa, que nos entregou suas filhas de mão beijada, por achar que elas são um castigo divino!

– Viva a maluca! Ha-ha-ha!

***

Charlene (agora com dezesseis anos) e as gêmeas Sarah e Rachel (ambas com catorze) sempre foram reprimidas pela mãe. Após a morte do pai, há dois anos, isso piorou mais ainda. Margareth se afundou no fanatismo religioso, e quando a filha mais velha apresentou os primeiros sinais de que seria uma menina-loba, a mãe a convenceu a não “cair nas tentações de Satanás”, porque o seu mal seria curado através da oração.

O mesmo aconteceu com as gêmeas, assim que completaram treze anos. Por causa de ir contra sua natureza lupina, as garotas definhavam, viviam sentindo dores horríveis pelo corpo e apresentavam um aspecto horrível, com profundas olheiras, a pele com um tom acinzentado, além de tremedeiras, vômitos e convulsões.

Cada vez mais, eram obrigadas a ler a bíblia e orar pela sua cura. Acabaram isoladas dentro de casa, longe dos olhares curiosos da vizinhança. Até que um dia o inevitável aconteceu: Charlene, por não conseguir mais refrear sua ânsia pela transformação, transmutou-se involuntariamente em plena luz do dia, dentro de sua casa. Incontrolada, ela rasgou o colchão de seu quarto, quebrou móveis e espalhou suas roupas pelo recinto.

Tudo isso durou apenas alguns minutos, pois ela estava tão fraca que logo desmaiou e voltou à forma humana. A mãe, sem pensar duas vezes, ligou para o número de telefone que o pastor havia lhe passado. Ela queria se livrar desse problema de qualquer jeito.

A dupla de caçadores já era conhecida nos meios sensacionalistas da imprensa estadunidense, sendo motivo de piada em todo o país. Mas eles não se importavam, pois quem tinha problema com lobisomens de verdade os contratava, e pagava muito bem pelo serviço. Parecia que as autoridades faziam de conta que não sabiam de sua atuação, visto que eles faziam um bem para a nação, segundo eles mesmos.

No caso das três irmãs, a dupla enxergou uma oportunidade de colocar em andamento algumas experiências que estavam engavetadas, por causa de nunca conseguirem capturar um espécime vivo. Assim, fizeram o serviço com desconto, solicitando também o aluguel de uma propriedade no estado em que Margareth vivia, que fosse isolada e espaçosa.

No dia combinado, eles viajaram ao Maine com os equipamentos necessários, se apresentaram na casa das meninas como funcionários de uma clínica de repouso e as levaram para o seu cativeiro, com o consentimento da mãe. Ao ver o furgão se afastando, um pensamento da mãe fechou essa macabra barganha: “Meu trabalho está feito. O pastor ficará muito feliz por eu ter livrado nossa comunidade do mal, que com certeza é uma penitência de meu falecido marido.”

***

– As pesquisas com as feras lá do porão renderam bem, não acha, parceiro? – Ted consultava seus apontamentos.

– Pode ter certeza disso! Com base nelas, já sabemos a dosagem certa de tranquilizante a aplicar, como funciona a cicatrização acelerada das criaturas, quanto aguentam de porrada, quanto tempo conseguem ficar sem comer... Além disso, percebemos que cada um tem características dos lobos de seu local de origem, ou seja, o comportamento dos lobisomens variam, dependendo de onde vêm.

– Sabe, às vezes eu fico com um pouco de pena... elas são apenas adolescentes.

– Pena? Você tem pena dos porcos quando vê uma dona toda embonecada com maquiagem? Ou se lembra dos ratos quando toma algum remédio? Tem dó dos malditos macacos, quando vê nossos heróis americanos desbravando o espaço?

– Claro que não! É que nesse caso...

– Aquelas coisas lá embaixo não são humanas, são animais! E os animais só servem para duas coisas: para nossa diversão e para servirem de cobaias no avanço da ciência!

– É isso aí, Hell, você tem razão. Nesta noite, faremos o teste final dos elementos, correto? Estou louco para sair deste buraco de rato no meio do nada e partir novamente para a ação.

– Sim, hoje concluiremos nosso sagrado aprendizado. Vamos comer alguns hambúrgueres e tomar umas geladas!

***

Charlene desistiu de lutar pela vida. Nas últimas semanas, foi mal alimentada, dormiu pouco, esteve sempre sob tensão, sem transmutar da forma de loba, enclausurada nesta jaula. Foi cortada, trespassada, queimada. Seu poder de cura, que deveria ser um dom maravilhoso, foi sua ruína, um prolongamento do seu tormento.

O pior não foi a indiferença e a maldade de seus dois algozes, que a feriam e estudavam friamente suas reações. O pior de tudo isso foi a indiferença de sua própria mãe. “Por que não nos aceitou como éramos? Porque não lutou por nós? Onde está o amor incondicional ao próximo, que tanto é pregado nas escrituras sagradas?”

Ela está deitada de costas no fundo da jaula, sentindo o cheiro da terra revirada e olhando para a lua, parcialmente encoberta por nuvens. Lua que parece uma bela pintura, emoldurada pelo quadrado de terra, formado pelas bordas da cova, no fundo da qual sua jaula repousa. “Que assim seja. Nada do que virá após a morte será pior do que esta vida.” Lá em cima, uma escavadeira começa a empurrar a terra para dentro da cova. Escuridão, peso, sufocamento. “Não sentirei saudades...”

E a morte vem, lenta, torturante, impiedosa.

***

Rachel se atira de encontro às grades. Está descontrolada, deixa toda a sua fúria fluir, pensamentos homicidas tumultuam sua mente. Ela quer se vingar daqueles dois, descontar tudo o que fizeram a ela e às suas irmãs, esmagar, dilacerar, cortar e fazê-los sofrer. Um nome flutua no mar de ódio que entorpece a mulher-lobo: Margareth.

Mais um salto insano, e a jaula cai de lado. Ela arranha o chão e as grades com um ímpeto tão violento que algumas garras são arrancadas. Nenhuma dor é sentida. Um traço de pânico toma conta de seu ser, quando o cheiro de querosene invade suas narinas.

O combustível derramado sobre a criatura irrita seus olhos e seus ferimentos. Ela sabe o que vem em seguida, e tudo o que consegue fazer é urrar e se debater em meio às grades. Um fósforo é riscado de maneira displicente e seu trajeto no ar forma um arco, que termina em uma pequena explosão, seguida de uma bola de fogo que urra e esperneia de maneira sobrenatural.

Calor infernal, agonia indescritível. A pele grossa suporta as chamas por mais tempo do que deveria, aumentando o sofrimento. A loba começa a sufocar, por conta das chamas que engole na respiração. Por fim, a desidratação e a falência múltipla dos órgãos internos. Rachel leva doze longos minutos até encontrar o abraço reconfortante da morte.

***

Torpor, fraqueza nos músculos e enjoo. “Mamãe, hoje não quero ir para a escola.” Sarah acha que está no quarto de sua casa, mas na verdade está deitada de bruços, nua em sua forma humana, salivando sem parar.

Por ter sido a principal cobaia das doses de tranquilizante, os últimos dias foram nebulosos e surreais, ela não sabe o que foi pesadelo, delírio ou realidade, em meio a todos os abusos que sofreu. Sua jaula foi içada sobre um pequeno lago, no fundo da velha propriedade alugada para os caçadores.

As polias do suporte que sustenta a jaula começam a ranger, quando um cabo de aço desliza vagarosamente, guiando Sarah para o fundo do lago. O contato com a água gelada é desagradável para a moça, e em débeis movimentos ela tenta em vão alcançar as cobertas imaginárias de sua cama inexistente.

A respiração fraca vai aos poucos enchendo seus pulmões com água. Antes de deixar escapar seu último suspiro, um pensamento invade sua mente: “Por que será que mamãe nunca nos ensinou a nadar? No próximo verão, pedirei isso a ela...”

***

Um dia depois de concluírem a “pesquisa”, Joe e Ted estão no aeroporto de Bangor, preparando-se para voltar para casa. Vansing vai a uma cabine telefônica e faz uma ligação para Washington.

– Alô, Johnny! É o Hell Vansing. Temos mais três Chaneys voltando para casa. Mantenha o protocolo “ninho de cobra” na gaveta. Câmbio, desligo.
Alfer Medeiros
Enviado por Alfer Medeiros em 09/09/2014
Código do texto: T4955454
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Sobre o autor
Alfer Medeiros
São Paulo - São Paulo - Brasil, 45 anos
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