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A SOMBRA DE AUSCHWITZ
 
1943
 
 
   Querido diário, hoje um nazista morreu dentro do campo de concentração. Fora encontrado com a cabeça esfacelada num muro, como se alguém tivessem acertado seu crânio contra o concreto até que partisse ao meio. Alguns homens estão falando em rebelião, faz duas horas que levaram vinte dos nossos para a sala escura de onde nunca retornariam. Estou ocupada tentando convencer Waldertrik a não sacrificar minha família. Não tenho ideia de onde estão, ou como estão, levaram meus pais para a área leste, meus irmãos para a área sul e minha filha para a oeste. Wald, diz que não preciso ficar preocupada, que tudo acabara bem no final.

    Na sexta-feira passada, um dos coronéis mandou que sacrificassem três doentes na praça central, e fizeram-nos assistir. Um dos homens a ser morto era meu pai, os açougueiros de Auschwitz deixaram-no só de cuecas e o penduraram num mastro, haviam hematomas roxo-alaranjado por todo corpo, fora uma ferida no alto do ombro, como um tiro que gangrenava assiduamente, seus olhos vermelhos sangravam expectorando sangue continuadamente. Fechei os olhos no minuto em que atiraram um barril de querosene ao corpo. Seus gritos duraram uns dois minutos, foram os dois minutos mais longos da minha vida, ouvir meu pai gritando daquele jeito, incessantemente, destruiu meu coração e quando tudo ficou quedo um cheiro de carne queimada alcançou meu nariz e ouvi de longe gargalharem enquanto começavam a queimar os próximos doentes.

    Wald não apareceu no dia seguinte, nem no dia depois dele, nem o resto da semana. Não ter certeza se seus familiares estão vivos ou mortos é algo indescritível, o pânico de pensar que foram brutalizados como meu pai, ou que foram levados a sala escuro, poderiam tê-los colocado na câmara de gás, ou levados aos contêineres de ácido. Tentei não pensar nisso, mas a dor no meu coração impediu-me de fechar os olhos. Um dos companheiros de quarto, Martta Ollen, filha de judeu como eu, relatou que na semana passada houve boatos de alguma coisa assassinando os soldados. Perguntei a ela do que poderia se tratar, talvez até um pouco feliz com a notícia, e acreditei que fosse algum judeu corajoso que estivesse vingando nossos mortos, entretanto, os boatos mencionavam uma sombra, ditos por nossa raça como a sombra do ódio, uma entidade perversa com o apetite doentio por morte. Já era de se imaginar algo tão venéfico neste lugar.

   Na noite que se sucedeu, Wald apareceu, estava estranho e assustado, havia um corte unilateral que descia do alto do seu pescoço até o braço. Pensei em ignora-lo, mas quando comentou sobre minha família, não tive como não lhe ouvir. — Venha, vou tira-la deste lugar... Sua família já está do lado de fora. Não tinha como recusar, e se fosse verdade e se realmente minha família estivesse lá fora, seria o paraíso, sair daquele inferno.

   Ele me levou até a área de carregamentos, aonde recebiam os mantimentos e me colocou em seu carro, um Toyota AC 1943. Não acreditava que estava mesmo acontecendo, sentir o ar puro fora do campo de concentração era incomparável. Com menos de meia hora de viagem, o carro parou, Wald havia me colocado no porta-malas — Ela esta aqui como queria, agora por favor, deixe-me livre. Levantei alguns centímetros o capo traseiro e observei Wald conversando com o nada, estava chorando, inquieto e ofegante. Então, sem ter ideia do que estava acontecendo, a cabeça de Wald virou para trás, pude ouvir o são do pescoço quebrando. Fiquei aterrorizada dentro daquele carro, afinal não havia nada lá fora, e ainda assim, algo matara Wald, e depois levou seu corpo para fora do alcance dos meus olhos. Sei que não devo sair do carro, mas já fazem três dias que estou aqui no porta-malas, trancada. Espero que alguém me encontre, está muito calmo aqui...
Vinícius N Neto
Enviado por Vinícius N Neto em 28/01/2018
Reeditado em 28/01/2018
Código do texto: T6238590
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Sobre o autor
Vinícius N Neto
São Paulo - São Paulo - Brasil
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