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Perfurado

Ele olhou no fundo dos meus olhos enquanto atravessava uma lâmina em todo o meu corpo. Se deliciava com aquilo e pude sentir que estava realmente energético. O olhar sempre fixo em mim até mesmo depois de me abandonar naquele rio. Ele fez um trabalho bem sujo e se divertiu com isso. Mas essa história não é sobre vingança. Meu espírito nem pretende sair do seu eterno descanso para esquartejar esse idiota. Apenas explicarei o motivo ou talvez a falta de um motivo para tudo que aconteceu.
Você poderá amá-lo, até de um jeito que eu mesma nunca consegui, ou poderá odiá-lo. E eu desejo de verdade que sinta isso. Que sinta o sangue fervendo preso na garganta e uma vontade enorme de fazê-lo sentir o que senti naquela terça feira a noite.
Mas antes de tudo você, leitor, precisa ter uma imagem formada sobre ele em sua mente. Ou será qualquer bastardo que nutra algum ódio, e eu não quero que seja assim. É apenas ele. Decore o nome de Louis Souza. Repita esse palavrão todas as vezes que ver um corpo perfurado abandonado em algum lugar sujo. Mentalize isso em nome de todas que viraram comida de vermes assim como eu.
Louis Souza. Louis Souza. Eu jamais imaginaria que o rapaz mais bonito da faculdade surtaria por causa de uma nota de prova. Jamais imaginaria que ele planejaria tudo com duas semanas de antecedência enquanto eu organizava tudo para nosso casamento.
Nos conhecemos na faculdade, eu com 22 e ele um pouco mais velho. Fazíamos o mesmo curso e conseguimos manter a magia de um namoro ao mesmo tempo que líamos livros grossos em apenas dois dias. Em quatro anos de faculdade pude conhecer alguns de seus amigos e sua adorável mãe. Outra vítima, mas essa ainda não tinha sido perfurada com tamanho ódio.
Louis era extremamente bonito e igualmente vaidoso e inteligente. Se gabava de falar três idiomas fluentemente e gostava muito de ser paquerado pelas outras mulheres. Exibia muitos bens materiais, e sua sexualidade era completamente livre. Foi ele quem se aproximou com uma garrafa de vinho em um dia que foi um fracasso completo para mim. Me encontrou chorando no pátio e sua voz calma me trouxe bastante conforto.
No dia da minha morte a voz estava lá também. Mas nenhuma palavra tranquilizadora saiu daquela boca. Foi o contrário. Muitos insultos, alguns que eu mesma nem sabia que existiam. Ofensas para o meu corpo, para minha mente e alma. Naquele dia a calma de sua voz me causou medo. O fato dele falar tudo no mesmo tom arrepiou-me por completo. Eu devia ter esperado aquela faca.
De volta ao passado posso afirmar que eu acreditava levar uma vida perfeita. Namorava o homem mais bonito do campus, tirava notas medianas e podia bancar uma vida de luxo com muitos carros e roupas de grife. Entre quatro paredes eu permitia tudo e ele parecia ter um gozo com o que eu fazia (com o perdão do trocadilho).
Para ser honesta eu me sentia poderosa por viver daquele jeito. E por dois anos completos mantive a auto estima bastante elevada. Aquele homem me fazia eu me sentir especial. Tudo foi mudando lentamente após minha troca de curso. Estava insatisfeita com Medicina e sentia que poderia ajudar a mudar o mundo de outra forma, foi então que comecei a cursar Direito.
Com isso nosso tempo junto foi diminuindo. As festas não eram as mesmas e minhas notas começavam a aumentar. Eu notava um certo desprezo vindo de seu rosto todas as vezes que contava feliz que tinha ido bem em uma prova. Por conta do excesso de felicidade eu me permiti ter mais cuidado com meu corpo e minha mente. Comecei a frequentar academia e cursos curtos de teatro para dar uma relaxada após tantas provas.
Então tivemos nossa primeira briga. Ele tinha bebido e depositou toda sua frustração em mim. Eu acreditei de verdade que ele estava magoado por eu ter me afastado um pouco e acabei largando a academia. Ainda mantinha os sábados para nossos devidos passeios. Mas não parecia o suficiente para Louis. Ele sempre reclamava.
No nosso aniversário de 3 anos de namoro eu já não me sentia completamente confortável e tudo que eu fazia tinha o dobro de cuidado. Não queria magoá-lo novamente e evitava a qualquer custo uma separação.
Ele então começou a demonstrar bastante ciúme dos meus amigos o que me obrigou a dar uma afastada em alguns deles. Nessa época eu não sei o que exatamente passava na minha cabeça. Não sei se tinha medo do relacionamento acabar ou de perder meus amigos. Com isso eu passava muito tempo me sentindo sozinha. Ele chegava muito tarde e eram poucas as vezes que não estava bêbado.
Foi então que apanhei. Tudo por uma fatia de bolo do aniversário dele. Não mencionei anteriormente, mas ele tinha uma fascinação pela perfeição. Tudo o que tocava ficava muito organizado e eu podia ter certeza absoluta que não teria algum imprevisto desagradável. Eu confiava em qualquer escolha que ele fizesse. Por causa disso ele não perdoava nenhuma falha. Principalmente as minhas.
No dia do seu aniversário eu tinha dividido as fatias do bolo para distribuir para os convidados. E uma das fatias acabou ficando um pouco maior, o que por motivos óbvios eu acabei oferecendo esse pedaço para ele. Grande erro meu. Ele notou rapidamente o que eu fiz e pediu licença para os convidados. Fomos para o quarto conversar e não vi o momento exato que aquele cinto apareceu marcado em meu pescoço. Ele só parou quando eu me desculpei.
Ele acabou dando uma desculpa qualquer para seus amigos e fiquei trancada no quarto pelo resto da noite. Louis dormiu fora de casa e nessa época eu sentia muita falta dele. Eu não tinha mais ninguém.
Eu não saia mais de casa, a visita do cinto era frequente e muitas vezes não conseguia me olhar no espelho depois das brigas. E depois de um certo tempo, com ajuda de uma amiga, eu acabei indo embora da cidade. Pedi transferência da faculdade para um outro campus e permaneci quieta desde então.
Espero que tenha preparado você, leitor, para o que ocorreu naquelas duas semanas. Enquanto eu morava no interior do estado e ele continuava com a mesma vida de sempre. Uma amiga em comum sempre me alertava quando ele estava por perto e mudávamos de lugar até termos certeza que ele tinha voltado para a capital.
Depois de uns meses soube que ele tinha arrumado outra pessoa e tinha parado de perguntar sobre mim. Fui criando coragem novamente e voltei a frequentar lugares públicos e aos poucos voltei para a faculdade, afinal era o último ano e faltava apenas uma prova para conseguir me formar.
Naquele ano meus colegas antigos marcaram um encontro de despedida no campus da capital e todo mundo foi convidado. Eu não podia me esconder dele por mais tempo. É claro que eu ainda não estava preparada para enfrentar o mundo novamente. Mas o fato da festa ser no campus e todos estarem presente acabou sendo o principal estímulo, e quando me dei conta já estava lá rodeada de amigos, e pude sentir novamente como era viver. Aquela mesma emoção que senti nos primeiros dias da faculdade, antes mesmo de conhecer Louis. A turma tinha ficado dividida quando souberam o motivo do meu sumiço e da minha transferência. Alguns acreditaram em mim, outros foram seduzidos por Louis. Mas isso não impediu muitos deles de me abraçarem.
Louis apareceu com a atual namorada, e conversou cordialmente comigo. Era novamente o homem que eu conhecia anos atrás. De voz calma e sorriso perfeito. Me ofereceu carona para minha casa e acabei aceitando. Depois da festa ele arranjou motivos perfeitos para aparecer de surpresa em minha casa.
Foram quatro visitas durante duas semanas. Caronas diversas, jantares pagos e por algumas vezes até consertos elétricos ele fez. Me questionava o que teria feito de tão errado em nosso relacionamento para ele ter mudado completamente de personalidade. Ele parecia perfeito novamente. Apaixonante por uma segunda vez.
Eu me sentia confiante de estar perto dele e por várias vezes me senti confortável de desabafar e pedir ajuda em situações estressantes. Ele estava sempre por perto. E vinha rapidamente toda vez que o chamava.
Na segunda feira os resultados das provas finais saíram e eu não podia estar mais radiante. Finalmente estava formada e poderia ser a advogada que tanto sonhei. Eu poderia então ajuda todas as pessoas que passavam por situações desagradáveis. Naquele dia eu recebi uma ligação dele. Me parabenizou e marcou um jantar para o dia seguinte, na terça feira a noite.
Nessa altura eu já não queria mais conquista-lo, mas ainda sim precisei me sentir confiante e bonita novamente. Aquele homem exigia altos padrões e inconscientemente me sentia obrigada a cumprir.
Então chegou a noite. Bastante fria e quieta. Minhas amigas estavam no bar comemorando e pedi que ficasse tranquilas com a visita de Louis. Eu não ficaria sozinha com ele afinal era um jantar comemorativo de fim de graduação e a namorada dele fez questão de se convidar. Chegou a hora, ouvi o barulho na porta e para garantir espiei no olho mágico. Ela não veio. Mas ele estava impecável parado na varanda.
- Vamos, abre aí! Trouxe vinho para gente!
Eu não sabia o que dizer. Parecia um segundo encontro. Decidi arriscar perguntando sobre a namorada dele.
- Terminamos ontem, eu não aguentava mais enganar vocês duas. Eu sempre te amei.
Novamente eu pude me sentir confortável. Eu gostei de saber que ele me amava ainda. Mesmo depois de tudo. Mas não senti coragem para abrir a porta. Conversei por alguns minutos com ele do lado de fora e eu com alguns cadeados pelo lado de dentro.
- Aquilo foi um erro, eu parei de beber. Estou sóbrio por quase um ano. Confia em mim.
Eu não podia não confiar nele. Meu cérebro me dizia que eu o conhecia bem. Sempre soube quando ele falava a verdade, pelo menos era o que eu achava. Acabei abrindo a porta e o convidei para entrar.
Fui para a cozinha esquentar a janta e o ouvi fechando a porta da sala. Disse que não precisava chavear afinal ele estava comigo então nada de ruim poderia acontecer.
- Vamos lá, eu sei que você não colocou esse cadeado para ladrões.
Nesse momento eu senti o primeiro arrepio. Ele me deixou sem argumentos e para uma advogada recém-formada isso era terrível. Só pude sorrir e pedir novamente que abrisse o cadeado.
- A chave está em cima da mesa do lado da televisão – eu disse.
- Eu sei
Segundo arrepio. Por instinto eu olhei para onde ficava a chave e ela não estava lá. Ele pareceu notar meu desespero.
- Qual o problema? Acho que você gostava de ficar trancada quando morávamos juntos.
Eu não conseguia me mover. Seus olhos estavam fixos em mim e ele estava bloqueando a passagem da porta. Meu cérebro começou a imaginar diversos cenários e em todos eles nada de bom acontecia. Pensei em pegar meu celular, mas infelizmente o mesmo estava do lado da televisão e qualquer movimento em falso ele poderia reagir de uma forma muito desagradável.
A partir desse momento eu não lembrava mais como respirar. Meu corpo não me obedecia e Louis calmamente falava:
- Você sempre quis me superar, eu permitia, pois, acreditava que não seria capaz de ser melhor que eu. Você não tem estudos bons. Confesso que fiquei fascinado quando vi sua nota alta no mural do campus. Nunca achei que fosse capaz.
Último arrepio. Sua expressão facial parecia irritada, mas seu tom de voz se manteve. Calmo e doce. Ele foi se aproximando devagar.
- Hoje você morre sua desgraçada.
E então a primeira facada. No braço. Olhei para ele horrorizada, mas ele não piscava e manteve uma expressão de desprezo do início ao fim. Tentei correr, mas não tinha para onde fugir. As chaves da porta e do cadeado estavam no bolso da calça dele. E ele me conhecia muito bem e pode prever qualquer movimento meu.
A segunda facada foi na perna. Eu caí e a partir desse momento todas as outras vieram muito rapidamente.
- Sua piranha desgraçada.
Eu olhava para todos os lados buscando alguma coisa, algum milagre, mas o peso dele em meu corpo e a dor das perfurações não permitiam qualquer reação da minha parte. Foram 13 cortes em meu corpo. Quando ele viu que minha alma havia sido sugada me carregou para o porta malas do carro. E voltou para a minha casa. Acredito que tenha criado alguma cena teatral para meus amigos quando vierem.
Estava enrolada em um plástico e depois de duas horas de viagem fui jogada em um rio. Junto com meu corpo vieram algumas roupas, a faca, meu celular e as chaves. Ele voltou para o carro e foi embora.
Naquele dia eu virei alimento para alguns peixes e vermes nojentos da terra. Ele não mencionou o meu nome nenhuma vez. E jamais pediu desculpas para minha alma ou pela violência extrema ao meu corpo.  Eu não tive direito a um enterro, nunca acharam meu corpo.
Louis Souza nunca fora mencionado pela polícia ou qualquer jornal local. Mas vocês sabem o que ele fez. Espero que nunca esqueçam esse nome. Espero também que nunca esqueçam de Chloe Ávila, gritem por Chloe Ávila para cada Louis que virem em suas vidas.
Annie Bitencourt
Enviado por Annie Bitencourt em 13/04/2018
Código do texto: T6307617
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Sobre a autora
Annie Bitencourt
Novo Hamburgo - Rio Grande do Sul - Brasil, 24 anos
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