A Velha

Seguindo as instruções prescritas pelo meu psiquiatra resolvi utilizar o meu tempo disponível durante minhas crises de insônia para escrever este diário. Desde o famigerado momento em que perdi minha sanidade até hoje, eu fui incapaz de expressar de forma mais espontânea todos os meus anseios em relação ao ocorrido. Vou tentar ordenar os meus pensamentos de forma mais precisa possível, porém não garanto que conseguirei, pois estar escrevendo de frente para uma tela de computador às 3:35 da manhã ainda não é considerado um ato recomendável de “auto-expressão”, principalmente levando em consideração a minha maldição atual. Sim, costumo chamar de “maldição” a minha atual condição.

Tudo começou há algum tempo atrás, quando eu ainda não havia chegado ao meu trigésimo ano nessa vida. Após curtir a balada de sábado em uma famosa boate noturna daqui da cidade, resolvi voltar para a casa. Ignorei todas as advertências sobre os perigos de se dirigir embriagado quando girei a chave de ignição com um pouco de dificuldade. Droga, eu estava muito bêbado naquela noite...

Com medo de ser pego em alguma blitz, improvisei uma trajetória pela velha estrada de terra que circundava os arredores da cidade. Minha visão estava um pouco turva e meus reflexos lentos o suficiente para incapacitar-me de tentar desviar de qualquer buraco ou saliência daquela porcaria de estrada. Mas apesar de estar alcoolizado, fui capaz de preservar a minha memória daquela noite. Acho que nunca vou ser capaz de esquecer-me do momento em que o farol do meu carro revelou inesperadamente a figura de uma velha corcunda que vestia um xale preto sobre a cabeça, parada na beira da estrada.

Com o pé no acelerador, atravessei a estrada por entre as nuvens de poeira, fazendo com que as rodas traseiras de meu carro jogassem terra na velha. Gargalhei como uma hiena bêbada enquanto seguia caminho pela estrada escura observando a velha ser deixada para trás através de meu retrovisor.

Ao chegar em casa, senti-me grato por não ter sido pego em nenhuma blitz e resolvi ir diretamente para cama. A longa noite de curtição estava prestes a ser encerrada. Com o meu corpo pesado devido às bebidas, joguei-me no colchão e apaguei quase que instantaneamente.

Dizem que quando você está bêbado e dorme, seus sonhos são bloqueados e sua noite passa em um estalo. Porém, não me senti nada feliz ao desmitificar esta crença popular ao ter terríveis pesadelos enquanto dormia. Não me lembro dos detalhes específicos desses sonhos assustadores, mas sei que neles eu ouvia risadas. Risadas quase que demoníacas.

Acordei ofegante de madrugada, em pânico, tentando aos poucos situar-me. Eu suava como nunca e tremia de desespero. Mas ao tentar provar para mim mesmo que aquele medo era desnecessário, fui atingido por um pavor inexplicável. Meu quarto exalava um odor pútrido que me causou um forte desconforto. Resolvi levantar-me da cama para tentar descobrir a origem daquele cheiro e fui completamente tomado pelo medo quando notei a figura da velha de xale preto sentada na beira da minha cama, me observando no escuro.

Soltei um grito de pavor e corri desesperadamente em direção à porta. Eu sabia que aquela não era uma simples situação de invasão de propriedade. Um instinto quase que primal me fez correr o mais longe possível de minha casa. Nem fui capaz de perceber que estava somente com as roupas de baixo. Mesmo assim eu corri pelas ruas, confuso e desorientado, sem saber exatamente do que eu fugia.

Fui encontrado pelas autoridades locais, um pouco antes de abrirem minha ficha em um hospital psiquiátrico. Devido a minha agitação, fui anestesiado por algum remédio intravenoso que me fez apagar. Não consigo me lembrar de quanto tempo eu fiquei internado, mas sei que eu mal conseguia ficar acordado sem entrar em pânico. As lembranças desse período são meio nebulosas, contudo sei que eu era constantemente examinado por um grupo de médicos que sempre aplicavam remédios em minhas veias. Toda a vez que eu acordava eu percebia que haviam alças que prendiam meus braços e pernas na cama, e devido a este fato, eu me sentia completamente indefeso ao sentir aquele mesmo odor pútrido que outrora me fez experimentar a verdadeira essência do medo. A velha estava ali comigo... O tempo todo.

Passaram-se dois anos, pelo menos assim me disseram, e eu ainda não sei exatamente como eu consegui receber alta do hospital. Acho que foi pelo fato da minha conformidade em relação àquilo tudo, pois depois do momento em que eu percebi que estava sendo constantemente perseguido pela velha, resolvi me entregar à completa indiferença. Não importava o tratamento que eu recebia, ou o remédio que eu tomava... Ela sempre estava ali, com aquele odor insuportável de enxofre.

Agora, às 3:45 da manhã, estou sentado de frente para o meu computador, incapaz de dormir e incapaz de acordar desse pesadelo macabro. Eu sinto o maldito cheiro dela. Posso vê-la através do reflexo de meu monitor, sei que ela está com aquele sorriso demoníaco. Ela está atrás de mim. Sua respiração gelada pode ser sentida em minha nuca, mas não ouso olhar para trás...

Porém eu descobri uma forma de acabar com tudo isso. Enquanto escrevo este diário, a alta dosagem de medicamentos que eu ingeri será a minha salvação deste horror que me consome. Minha cabeça já está pesada, e eu estou sentindo meu corpo ceder aos efeitos de meu ato desesperado. Aqui eu deixo o meu adeus a todos, só lamento que minha última lembrança desta vida seja a da velha gargalhando enquanto aos poucos, eu vou me livrando dessa maldição...

FIM

(Guilherme Henrique)

PássaroAzul
Enviado por PássaroAzul em 09/07/2018
Código do texto: T6385590
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