O ASSASSINO DA CATEDRAL


Dizem que os psicopatas são charmosos, simpáticos, mentirosos e manipuladores. Que não se importam de passar por cima de tudo e de todos para alcançar seus objetivos. Que são egocêntricos e narcisistas, e não sentem remorso ou qualquer tipo de culpa quando fazem alguma coisa que a lei define como crime ou que a moral social condena. 
Ah! E tem também a patacoada que as religiões ensinam, com esse negócio de pecado. Psicopata também não sabe o que é pecado. Tem mais. Se algo ou alguém ameaça seus planos, eles ficam agressivos e batem sem dó. Se alguém os acusa, eles procuram inverter o jogo, colocando-se no papel de vítimas. Fazem carinha de inocentes, choram, parecem bezerrinhos de sacrifício, com aqueles olhinhos que dão dó.
A propósito, não tem coisa melhor para criar psicopatas do que a religião. A psicopatia em último grau, na verdade, é o fanatismo religioso ou ideológico. A idéia fixa que é instalada na cabeça de pessoas, que para muitos, acaba virando santo ou herói.
Li em algum lugar que a psicopatia atinge cerca de 4% da população mundial, sendo que 3% é de homens e 1% fica com as mulheres.  Se essa estatística estiver certa, em um país como o nosso, com cerca de 200 milhões de habitantes, temos pelo menos 8 milhões de psicopatas andando por aí. Quem sabe se esse cara que está aí do seu lado, nessa mesa de bar, ou essa mulher que está sentada ao seu lado no consultório, esperando o médico atendê-la, ou o próprio médico, ou talvez o cabeleireiro que fez aquele penteado esquisito nela, não seja um, ou uma psicopata? Quem garante que você não se casou com um deles, ou então que não divide uma mesa de trabalho, ou até senta-se ao lado de um na escola? E os caras que você mandou para as câmaras de vereadores, deputados e senado, então? Entre esses não há nenhuma dúvida que o índice seja bastante alto. Ah! Ah! Ah!.
Não, não precisa ficar com medo. Nem todo psicopata é violento e de repente vai sacar uma arma e sair atirando nas pessoas. Nem é comum que eles andem armados com afiados facões como o Jason da Sexta-Feira Treze, ou saiam por aí retalhando pessoas com um machado. Isso é coisa de filmes de terror. A realidade é um pouco mais sutil. A natureza é sábia e sabe esconder os horrores que ela fabrica. Você não identificará um psicopata até ser vítima de um deles. Alguns pegam uma arma e saem atirando em pessoas que nem conhecem. Mas isso não é psicopatia É loucura mesmo. Os psicopatas surtam de vez em quando, mas não é comum que isso aconteça. 
O psicopata não é louco. Ele é apenas uma pessoa desprovida de qualquer vínculo com o que chamam de humanidade. Ele é um predador nato, como um tigre, um leão, uma águia, que agem por puro instinto.
Isso é o que dizem os estudiosos. Adoro esses estudos. Um desses caras, acho que de uma universidade americana, disse que, de fato, há uma tendência de os psicopatas recorrerem à violência física e sexual às vezes, mas no comum, a maioria deles não é violenta. Dizem até que há muitos psicopatas bem-sucedidos profissionalmente, ocupando posições de destaque na sociedade, principalmente nos negócios, nas artes e principalmente, na política. Nisso eu acredito. Nós já elegemos muitos deles. Eu mesmo sou um profissional bem sucedido, que fiz uma bela carreira no ramo da programação de computadores. Especializei-me em desenvolver jogos virtuais. E já notei também que essa é uma ocupação que tem muito a ver com a psicopatia. Chega uma hora em que tudo na vida parece um jogo. 

Sim. Claro que não adianta ficar olhando nos olhos de um psicopata para ver se ele apresenta sinais do seu  desequilíbrio. Aliás, a palavra desequilíbrio talvez nem caiba para ele. Psicopatas não são desequilibrados. Ao, contrário, se eles são assim tão centrados em suas obsessões, isso denota que são mais firmes em suas crenças que a maioria das pessoas, que muitas vezes, deixam de realizar seus propósitos com medo de ser descobertas pela polícia, ou de sofrer constrangimentos morais, ou ainda, o que é pior, ser castigadas depois de mortas, como se alguém pudesse ter qualquer sentimento depois de morto... Eis aí porque eu odeio essa gente que não sai da igreja. Tenho vontade de matá-los todos... 
Isso é o que vejo quando me olho no espelho. Se um psicopata é mesmo tudo isso que os estudiosos dizem que é, então eles não estão descrevendo um ser monstruoso – um golém social – criado pelas pressões da sociedade moderna. Na verdade, eles estão descrevendo o indivíduo perfeito, o protótipo que Nietszche procurou durante a vida inteira para encarnar o seu super-homem. 
Senão vejamos: o psicopata, segundo outro renomado estudioso, desenvolve um acentuado egocentrismo, que lhe dá condição para nunca sentir culpa e remorso por qualquer sofrimento que ele venha a infringir a alguém. O excesso de razão e a inexistência de qualquer emoção são suas principais características. Sabem mentir e fingir como ninguém, e são mestres em forjar afeto. Em razão disso, são capazes de enganar a maioria das pessoas, que vêem neles indivíduos simpáticos, afáveis, positivos, prafrentex em todos os sentidos.  Não é o tipo de pessoa que a maioria gostaria de ser?
Eu olho para mim mesmo no espelho e sinto um prazer incomensurável.  Sou um homem ainda jovem, de certa forma bonito, alto. Tenho cabelos e olhos castanhos, as maçãs do meu rosto são bem redondinhas. Nada em mim denuncia qualquer distúrbio mental. Pareço mais com o Talentoso Ripley do que com o Norman Bates, rá, rá, rá...
Sinto-me feliz e prendado. Há tanta gente no mundo lutando para adquirir uma personalidade de psicopata e eu já nasci com ela. Tem gente até que faz cursos para aprender a ser psicopata. Gente que lê um monte de livros de auto-ajuda para aprender a ser psicopata. Gente que gasta um dinheirão com analistas para descobrir que na verdade, o que eles querem mesmo é ser psicopatas, isto é, se livrar de suas culpas, seus remorsos, seus medos, suas neuras. 
Psicopata já é imune a tudo isso. Se tem prazer em enganar pessoas, para tomar alguma coisa delas, pouco importa que lhe chamem de 171. Ele sente prazer em ver o quanto é esperto e os outros são tolos. É uma indiscutível prova de superioridade da sua inteligência sobre a deles. E se ele tem um perfil de assassino, a sua maior glória é poder tirar de uma pessoa tudo que ela tem: a vida. Sim. Pois quem tira a vida de uma pessoa tira, concomitantemente, tudo que ela tem. Não é uma coisa bestial, essa?    

É engraçado. Costumam pintar os psicopatas como assassinos e bandidos. Mas a mídia costuma transformar em heróis muitos deles. Eles tem muito mercado.  Batman não é um psicopata? O Homem-Aranha também não? O John MacClane (o cara duro de matar), e todos os personagens do Stalone, do Schwarzenegger, o 007 e o Jason Bourne, também não são? E na História geral, quem escreve seu nome nela, geralmente não são os psicopatas? Alexandre não era? Quase todos os imperadores romanos? Os mais famosos, Nero, Augusto, César, Calígula, Constantino, quem o pode negar? E Hitler, Mussolini, Lenin, Che Guevara, Abraão Linconl, aquele outro Abraão mais antigo, Napoleão, um bom número de Papas, Martinho Lutero e tantos outros nomes que você já leu nos seus livros? Todos eles mataram pessoas ou mandaram matar, ou foram responsáveis pela morte de alguém com suas ideias, e alguém terá ouvido falar que se consumiam de culpa por causa isso?
Todos tinham uma causa. Todo psicopata tem uma causa. Alguns deles são muitos úteis. Keóps, Kefren e Miquerinos, os construtores das pirâmides eram psicopatas, mas o Egito vive até hoje da loucura deles. Quem nega que devemos ao Fernando Collor a modernização da economia do Brasil? E ao Juscelino essa jóia da insensatez que é Brasília?
Já ouvi muita bobagem a respeito. Uma delas é que os psicopatas geralmente tiveram uma infância repleta de violência e muitos cresceram em uma família desestruturada. Isso não aconteceu comigo. Meus pais sempre me trataram com muito carinho. Acho até que foram super-protetores, não deixando que a violência das ruas chegasse até mim. Conservaram-me em uma redoma, me puseram em bons colégios, fizeram de tudo para que eu crescesse num ambiente o mais seguro e saudável possível.
Meu pai é advogado e minha mãe psicóloga. Estranho, não é? Estranho que eles nunca tivessem percebido que o filho era psicopata. Meu pai trabalha com criminosos, é advogado criminalista. Minha mãe convive em sua clínica com todo tipo de aberrações comportamentais. E nunca perceberam que eu era uma pessoa sem remorsos, sem escrúpulos, dissimulada, manipuladora e extremamente egoísta, a ponto de matar minha própria irmãzinha recém-nascida...
Sim. Eu a matei. Ela tinha cerca de quinze dias. Acabara de tomar mamadeira. Eu a virei de bruços no berço e ela se afogou com o próprio vomito. Meus pais nunca se recuperaram da culpa por não terem percebido isso. Pensaram que ela tinha se virado sozinha. Eu só senti nojo. Eu tinha só cinco anos.
Depois disso eles não quiseram mais filhos. Dedicaram-se totalmente a mim. Sempre me deram tudo que eu quis. Brinquedos, viagens, roupas de grife, aparelhos eletrônicos, tudo. Nunca fiscalizaram o que eu via na televisão e os meus jogos de computador. Sou vidrado no Assassins Creed. Altair é o meu herói. Adoro ver como ele elimina os inimigos templários. Gostaria de ser como ele, um assassino estrategista. Sei tudo sobre as seitas dos Assassinos e dos Templários. Sei que formaram seitas inimigas durante as cruzadas e viviam se matando uns aos outros. Sei também que a seita dos Assassinos tem origem nos antigos sicários dos tempos de Jesus, homens que se misturavam á multidão e assassinavam suas vítimas com uma faca de lâmina curva chamada sica, por isso o nome, sicários. Eles tinham objetivos políticos. Matavam os inimigos do povo de Israel. Coisa bíblica. Nada como o prazer de matar por uma crença. Os templários matavam em nome de Cristo. Os assassinos matavam em nome de Alá. Ainda matam. Os cristãos matam os muçulmanos e os muçulmanos se vingam jogando bombas e aviões nos prédios públicos dos cristãos. O mundo está cheio de psicopatas. Acho que não é só quatro por cento, é muito mais.
Talvez seja por isso que eu não estou me importando muito com o que vai acontecer comigo. Acabo de matar quatro pessoas dentro da catedral. Era para ser muito mais. Vim aqui, assistir a missa com essa intenção. Se alguém me perguntar porque fiz isso direi apenas que tive vontade de fazer. De repente achei que estaria fazendo um bem atirando nesses idiotas que vivem sustentando esse bando de ladrões que são os padres, os pastores, mulás, sheikes e outros líderes religiosos que se aproveitam da ignorância humana para viver à custa deles. Escravizam esses coitados através da religião. Eu estou libertando-os. Atirei naquele casal de velhinhos primeiro porque eles me pareceram os mais carolas. Naquela mulher porque ela se levantou e gritou. Nos outros atirei por simples reflexo condicionado. Quem estava na minha frente recebeu bala. É a minha forma de protesto contra toda essa farsa. Fazer isso dentro de uma igreja foi a apoteose.
Olho para eles e não sinto absolutamente nada. Nem a vista dessa sangueira toda me comove ou me assusta. O sangue derramado tem uma cor fascinante. Não é vermelho nem púrpura, nem carmesim. Tem uma cor ocre, quase ferruginosa. Não se encontra uma cor dessas no catálogo das fábricas de tinta. Sei disso porque uma vez pedi aos meus pais que pintassem uma parede do meu quarto com cor de sangue derramado. Eles não conseguiram achar essa cor no catálogo e pegaram uma tinta de cor rubra, meio tipo ferrugem. Não ficou bom. Se eu não fosse psicopata, teria odiado meus pais por isso. Mas psicopata não tem sentimentos. Se não ama, também não odeia. 
Assim não foi por ódio que matei essa gente toda. Se alguém quiser encontrar uma justificativa, ao menos para botar num relatório, só para dar uma satisfação à sociedade, podem dizer que matei por prazer. Não foi por dinheiro, como aquela Suzane Ritchhofen, que mandou o namorado matar os pais para ficar com o dinheiro deles.Nem por ideologia, como aqueles idiotas muçulmanos, que matam-se a si e aos outros por uma crença tão idiota quanto eles mesmo. Não, não é isso que me move.
Psicopata é assim mesmo. Adora causar dor nos outros. Adora causar frustração nos outros. Adora tirar coisas dos outros. Até dele mesmo. Talvez isso explique a razão dos suicidas, que até hoje ninguém conseguiu descobriu. 
Uma última coisa. Eu sou um psicopata consciente. Sei que o que acabei de fazer é ruim, segundo todos os códigos de humanidade que a sociedade desenvolveu. Por isso, fiz isso que vocês chamam de maldade pela última vez e depois, se a polícia não me matar, eu mesmo vou tirar a minha vida. Não precisam se preocupar mais comigo. Isso pode ser um paradoxo, um psicopata ficar se preocupando com o mal que faz. Mas não imaginem que se trata de sentimento de culpa, remorso ou qualquer outra emoção desse tipo. Psicopata não tem emoções. É que não consigo ver a mim mesmo na cadeia. Eu, que fui educado num ambiente tão saudável, não agüentaria conviver num lugar daqueles. Nem num manicômio judiciário. Tenho nojo dessa gente. Nojo é talvez o único sentimento que os psicopatas têm.
Os psicopatas que são mandados para o hospício são muitos declarados. Não são psicopatas, são doentes mentais.
Eu devia ter me tornado político para arranjar uma cadeira em qualquer das nossas casas legislativas. Esses sim, são legais, porque são dissimulados.A maioria passa até por intelectual. Aliás, um deles, psicopata também, disse certa vez que no Congresso eram quinhentos picaretas com anel de doutor.  
Na política eu poderia viver a minha psicopatia sem sofrer constrangimentos e ainda receber gordos proventos por isso. Por isso, ao me despedir, essa é a minha recomendação para vocês, meus caros leitores. Comigo vocês não precisam mais se preocupar por que dentro de cinco minutos estarei morto. Será um psicopata a menos. Mas não esqueçam aqueles que vocês botaram lá. Eles continuam vivos.  
Adeus para vocês todos. A polícia já chegou. Um deles já atirou em mim. Sinto o meu flanco dirito queimar. Minha vista começa a turvar. Minhas pernas estão bambas. Devo apressar o desenlace. Encosto a arma na minha cabeça.
Nos veremos no inferno, se houver um tal lugar.