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A viúva de Parnamirim Field

Vinha acontecendo já há alguns dias: algumas coisas fora do lugar na estante, almofadas jogadas no chão, o forro do sofá desarrumado... Não que isso seja um problema, nunca fui lá muito ordeiro. O que me incomodava, na verdade, era que as janelas amanheciam abertas, Maria certamente não as estava fechando direito. No bairro, não raramente, uma casa ou outra já sofrera invasão à noite, dormir com as janelas abertas era um risco, desnecessário, aliás. Maria, inocente, ouviu minhas queixas e respondeu simplesmente “não sei de nada não senhor”. Certo, respondi, não vou fazer caso por isso, só preste mais atenção da próxima vez, ok? Ok.
Mas na segunda vez que isso aconteceu, uns livros fora da estante, o sofá desarrumado e a bendita janela aberta, Maria não estava lá em casa. Mas que diacho? Procurei por sinais de arrombamento e por coisas de valor que talvez não estivessem mais lá, mas, fora as coisas desarrumadas, tudo estava intacto. Ainda verifiquei se a tramela da janela não estava com algum defeito, mas também não. Ué?
Quando foi à noite, deitei-me, mas evitei o sono como eu pude, queria flagrar o que estava havendo. A noite foi se estendendo, se estendendo, o relógio corria e nada acontecia, o enfado da espera foi-me distraindo e, sem perceber, estava dormindo. Sonhei com uma mulher de branco, os cabelos muito negros e um barrigão redondo de sete ou oito meses, ela vinha e abria a janela. Acordei com a pancada da corrediça batendo de vez, a realidade escorrera no sonho por certo, estava acontecendo. Corri para a sala ansioso e temeroso do flagrante, mas não havia nada. Nem mesmo estava desarrumado dessa vez, só a janela estava aberta. Cagão, pensei “se fosse um ladrão, tinha mais medo do que eu!”.
Na quarta noite segui o mesmo ensejo, só iria sossegar quando entendesse aquilo e pegasse quem estivesse de brincadeira comigo. Ia fazer o quê? Na hora saberia. Mas dessa vez se deu de outro jeito: adormeci de novo e tive o mesmo sonho, a mesma mulher, agora com uma criança no colo, que vinha e escancarava a janela e ficava olhando para fora, como quem esperava alguém que não viria ou sonhava para nunca mais. Acordei pesaroso, os olhos úmidos de choro, eram três da manhã, me levantei ciente que a janela estaria aberta e estava, mas havia alguém, uma sobra ao lado da janela, olhando para fora. Não deu para distinguir. A adrenalina subiu alto, os meus pelos ficaram todos eriçados como um gato ameaçado. Corri para o interruptor e acendi luz: sumiu! Não tinha ninguém! O sonho me veio com um clarão e minha prontidão deu lugar ao pavor, meus olhos marejaram e senti meu corpo suar gelo. Não dormi mais, nem apaguei mais a luz.
Na noite seguinte, exagerei no café, o que certamente me daria uma noite horrível, nem tanto pela vigília como pela dor da minha gastrite irritada. Mas, de certo eu não iria dormir. Conferi se a porta do quarto estava bem trancada e que se lascasse a porcaria da janela, se continuasse assim, o jeito seria procurar outro canto para morar. Estava passando um filme de guerra na televisão (uma companheira elétrica que tapeava o silêncio da noite), passei a prestar atenção ao filme e acabei esquecendo do medo.
Despertei no meio do escuro - merda, dormi! Quem apagou a luz? O medo voltou, mas havia algo estranho nele: ao invés de me prender, ele enfrentava. Me levantei tateando a parede, o interruptor não funcionava, faltou luz, de novo, logo hoje! Fui até a sala e, não só a janela, mas a porta estava aberta e, no escuro, lá estava a mulher, segurando uma menininha pela mão igualzinha a ela. Me aproximei bem devagar, enfadado de toda aquela situação.
- O que a senhora quer?
Ela respondeu me olhado nos olhos, numa voz doce: “Nada, só estou esperando”. De repente eu não sentia mais medo.
- Esperando quem?
- O pai dela, há dias ele já deveria ter chegado, mas custa. Ela voltou a olhar para longe pela janela.
- Pra onde ele foi?
- Para a Itália, não sabia? Todos os homens daqui foram mandados para lutar na Itália junto com os americanos, ele era sargento da Expedicionária.
Os olhos dela, fixos no longe, se encheram de água e uma lágrima correu. A criança franziu o queixo e começou a chorar baixinho, contendo um soluço sentido. De repente a mulher me olhou nos olhos e ficou assim por um tempo, depois perguntou:
- Ele vai voltar, não vai?
- Acho que não. Respondi consternado, a guerra já acabou faz muito tempo.
Ela começou a chorar aos soluços, mas sem emitir nenhum ruído, um choro ao mesmo tempo conformado e indignado.
- Ele pra guerra e me deixou sozinha para cuidar da menina. Não sabe ele que eu morri de desgosto numa cama de hospital por causa dele, nem pude cuidar da minha filha. Ela nasceu doente, miudinha coitada, e veio embora logo depois de mim. Se ele morreu, porque ele não veio nos buscar?
Eu não soube responder.
- Moço?
- Diga?
- Reza por mim?
Eu fiz que sim com a cabeça. Ela pegou a mão da menina, me olhou pela última vez e saiu pela porta e foi andando até sumir na madrugada. Eu fechei a janela sentindo o peso da saudade que ela sentia e quase chorei. Antes de fechar a porta, porém, um vento forte uivou de fora e bateu a porta com força.
Acordei assustado com a pancada, estava em minha cama, a luz acesa, a porta trancada. O som do baque ficou reverberando em minha cabeça sem eu saber se foi real ou do sonho. Foi um sonho? Olhei o relógio: 3:30 a.m., afastei o lençol, me levantei devagar, destranquei a porta e olhei para sala: estava tudo escuro e a janela desta vez estava fechada.
Rocheteau
Enviado por Rocheteau em 11/01/2019
Reeditado em 31/01/2019
Código do texto: T6548449
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Rocheteau
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil
45 textos (1118 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 16/02/19 23:16)
Rocheteau