Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

3:00 a.m. (Capítulo final: Inês sempre esquece)

Inês levantou-se desorientada, olhou para a fresta da janela para constatar que ainda estava escuro, depois para o relógio que marcava três horas. Custou-se na beira da cama distraída com nada, pensativa. Perdeu vários minutos assim. Depois se esticou toda até sentir que todos os ossos da coluna estavam em seu lugar, calçou as sandálias que estavam debaixo da cama e se levantou arrastadamente. Na cozinha, encheu um copo com água da torneira e levou para o altar, retirou do relicário o terço de contas de vidro que herdou de nossa mãe, acendeu as velas, ajoelhou-se como pode, sentindo ranger as juntas do joelho e começou a debulhar o rosário, conta a conta, vagarosa de sono, abrindo a boca às vezes em bocejos que atrasavam o mecanismo da reza.
Eu fiquei olhando sem nenhuma pressa porque sabia que ela iria esquecer de novo, como toda vida fazia desde que eu voltei.
Apesar de ter sido muito bonita na juventude, ela nunca quis se casar. Era uma pessoa estranha, meu pai dizia, não gostava de gente, nascera pra ser tia velha, ficar no caritó. Ela acostumou-se com aquilo como sempre terminava se acostumando a tudo. Aceitou bem a ideia de nunca casar, afinal, o pai estava certo, não gostava mesmo de gente. Depois, com o tempo, alguns parentes foram embora pra ganhar a vida longe, outros morreram e ela terminou sozinha naquela casa enorme, esquecida de si mesma. Com era esquecida a Inês! Mas, por ironia, era a única que ainda se lembrava de mim.
“Ó clemente , ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria... (bocejo) Rogai por nós, santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos... (bocejo) das promessas de Cristo. Amém.”
Ela foi se levantando com certo esforço, apoiada no joelho bom e já ia guardar o terço de contas de vidro no relicário. Eu bem sabia que ela iria esquecer, ela ultimamente esquecia com mais frequência. Então derrubei o copo de vidro de cima do altar, que se espatifou no chão e molhou a barra de sua camisola. De primeiro ela se assustava sempre que eu fazia isso, mas agora ela apenas olhava consternada em minha direção tentando adivinhar onde eu estava. Ela costumou-se com aquilo de tal maneira, que simplesmente ajoelhou-se de novo, fazendo ranger outra vez o pobre joelho, outro bocejo, e rezou um pai-nosso para mim.
Da porta da cozinha ela via que a madrugada clareava em um tom estranho de amarelo, como numa foto sépia, prenúncio de um temporal.
Rocheteau
Enviado por Rocheteau em 12/01/2019
Reeditado em 12/01/2019
Código do texto: T6549346
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Você deve citar a autoria de Christi Rocheteau). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Rocheteau
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil
53 textos (1538 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 23/01/19 22:43)
Rocheteau