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COLECIONADOR DE OSSOS  
 
Em meus tempos de faculdade conheci um cara que eu vou chamar de Raul. Ele era um sujeito meio complicado. Era bem apessoado, vinha de uma família de classe média, tinha um fuscão vermelho bem incrementado e se dava muito bem com as garotas. No nosso meio, naqueles tempos, quem ostentasse uma condição social dessas podia considerar-se uma pessoa muito bem sucedida.
Quem não conhecesse bem o Raul poderia dizer que ele era um alienado Alíás, parecia que o seu único interesse eram as garotas. Cada semana estava com uma namorada diferente. Nos dias atuais isso não causaria nenhum espanto, mas nos anos setenta sim. Naquele tempo não tínhamos a inflação de mulheres que temos hoje. Não sei exatamente se hoje sobra mulher no mercado e falta homem, ou se naquele tempo elas eram mais seletivas. Ou então se hoje elas são mais assanhadas, mas o fato é que naqueles anos de chumbo da vida brasileira não era muito fácil ficar trocando de parceira como se troca de camisa, como a garotada faz hoje em dia. 
Não para o Raul. Ele tinha uma imensa facilidade em descolar namorada. Arrumava garotas para ele e para os outros. Eu mesmo me vali algumas vezes dessa habilidade dele. Algumas das meninas que eu conheci naquela época foram apresentadas por ele. Vinham para o grupo atraídas por ele, mas como o Raul era um só, sempre acabava sobrando para os outros. E a farra rolava para todos numa boa.
Éramos estudantes universitários. Morávamos numa república, uma velha casa que havíamos alugado próxima à faculdade, onde o Raul colocou na porta uma placa debochada que dizia: Aqui ensinamos filhosofia e pisiricologia. Era a gíria da época. Transar era pisirico. Bumbum era buzu. Fumar maconha era “dar uma bola”  
As garotas vinham para saber que disciplinas eram aquelas. Depois que descobriam acabavam “estudando” as tais com mais motivação do que as da faculdade.  
Estávamos no segundo ano do curso de economia e o nosso grupo tinha que fazer um resumo do socialismo utópico para apresentar como trabalho de final de ano. Eu até que gostava do tema. Sempre fui meio romântico e a filosofia dos socialistas utópicos me caia assim como um ideal de sonhadores, que vê no homem uma bondade inata, e na humanidade um destino de colméia feita para produzir mel, paz e felicidade para todos. 

Já o Raul odiava os caras. Dizia que eles eram um bando de idiotas sonhadores, que não passavam de poetas sem culhão. Por isso só criticavam, só sonhavam, mas nunca fizeram porra nenhuma para mudar nada. Eram como os nossos professores. Criticavam veladamente o governo, mas nunca se expunham, nunca faziam nada de concreto para mudar as coisas.
O tal de Charles Fourier, com a sua idéia da criação de um falanstério, uma espécie de fazenda onde cada um ganharia a vida exercendo a atividade que lhe agradasse era idiota, dizia o Raul.Já Platão, com sua República de eleitos, governada pelos sabichões, era um veadão. O tal de Saint Simon, com aquela idéia de associacionismo, como se os homens tivessem nascido para viver em paz, dentro de comunidades perfeitas, era um bobo alegre. E quanto ao panaca do Robert Owem com suas comunidades agrícolas utópicas... Eram todos uns babacas.
Tudo bobagem, na opinião dele. O homem nunca seria capaz de criar um mundo ideal a partir do seu interior. Ele era um animal prático. Só faria o que fosse bom para ele. O resto que se danasse. Certo estava o Marx. As coisas, se tinham que ser mudadas, tinha de ser de fora para dentro. Era preciso mudar o ambiente em que se vivia para poder mudar o homem no seu interior. Não é a natureza que corre atrás do homem, mas sim o homem que corre atraz da  natureza. As coisas só podiam ser mudadas na porrada. O moinho de vento produziu a sociedade com suseranos e vassalos, a máquina a vapor trouxe a sociedade com capitalistas e proletários. Tudo muito dialético.
O espírito humano era o reflexo da forma como o homem ganha a vida. Por isso, o o homem nunca dividirá, de boa mente, as coisas. Sendo egoísta por natureza, só entregará algo que acha ser dele se for obrigado, dizia o Raul, com muita convicção. Assim, se quiséssemos chegar à justa distribuição, era preciso lutar.
Para mim e para a maioria dos meus colegas da faculdade tudo aquilo era só teoria. A gente estudava o pensamento daqueles caras por que éramos obrigados. Fazia parte do currículo do curso. Não víamos nada de prático naquilo nem fazia a nossa cabeça. Vivíamos os anos mais duros da ditadura militar que roubou do país vinte anos da sua vida. Ditaduras, sejam de que orientação for, são sempre vampiras do sangue de uma nação. Não prestam em lugar algum e nunca fazem nenhum bem, por mais santo que seja o ditador, se é que algum dia houve algum com esse qualificativo. Afinal, Deus não fez um homem melhor que o outro e dessa forma não há nada que justifique um indivíduo, ou um grupo, se arrogar no direito de assumir um poder total e ditar leis e comportamentos para todos os outros como se fossem eles os únicos donos da verdade. 
Isso era o que eu pensava. Mas também só pensava. Não entrava nos meus planos pegar em armas para defender meus valores ideológicos. Eu tinha que ganhar a vida. Trabalhava de dia para poder estudar a noite. Não tinha as facilidades do Raul, que era de classe média. A sua família podia pagar a faculdade e o aluguel da república. Assim, eu deixava os milicos em paz e que eles também não se metessem comigo, era a única coisa que eu queria naqueles tempos perigosos.
Eu escolhera estudar economia porque era a carreira da moda. Todos os meus colegas de classe também. Os homens mais famosos e poderosos do país, nessa época, militavam nessa área. Delfin Neto, Mário Henrique Simonsen, Shigeaki Ueki, eram alguns deles. Este último, por sinal, tinha se formado na mesma faculdade onde nós estudávamos. Fez o discurso de formatura da turma que se formou no ano em que eu entrei. Dizem que se veio à faculdade alguma vez, pouca gente viu. Naquele tempo não havia faculdade virtual, mas o Shigeaki Ueki talvez tenha sido o primeiro aluno a receber um diploma sem ter participado de uma única aula presencial. Pelos menos era o que diziam. Eu não afirmo isso por que não fui testemunha desse fato.  A verdade é que ele tornou-se ministro das Minas e Energia do governo Médici e prometeu dançar vestido de barril na Praça dos Três Poderes se o Brasil não se tornasse autossuficiente em petróleo na sua gestão. Ele saiu do governo sem conseguir realizar a façanha prometida e também não cumpriu a promessa de dançar na praça, vestido de barril. Ainda bem. Imagino o ridículo que isso ia ser. Aquele sujeito com sues olhinhos puxados, pelado, dançando vestido de barril...
Não passou nem perto disso. Nada estranho. Nenhum político cumpre mesmo o que promete. Ninguém cobra, por isso eles prometem impunemente e continuarão prometendo e o povo acreditando. 
Nunca mais ouvimos falar do japonesinho promessão. Nada estranho também, porquanto isso já faz mais de cinquenta anos e até agora a autossuficiência em petróleo ainda não veio, embora os políticos a continuem prometendo. Tudo se esquece. 

Mas havia coisas que o general Médici, o ditador de plantão, cumpriu á risca. Uma delas foi sumir com a maioria dos opositores do regime. A outra foi recuperar os ossos do Imperador Dom Pedro I e trazê-los para o Brasil. Uma noite, estávamos nós na casa de um dos nossos colegas fazendo o resumo daquele trabalho sobre os socialistas utópicos e de repente, quem aparece na TV? Ele, o sisudo General Médici, com a voz embargada, dizendo que conseguira, afinal, depois de uma longa e penosa negociação com o governo português, liberar os ossos do imperador, o homem que fizera a nossa independência, para trazê-los para o Brasil. 
Era patética e desprezível a figura daquele homem carrancudo simulando uma emoção estudada, dizendo que os ossos do nosso libertador estavam, finalmente, a caminho do Brasil. A maioria dos nossos colegas compartilhava desse sentimento de desprezo pelo regime militar, embora houvesse até quem tivesse demonstrado sentir certo orgulho pelo fato, e defendesse o General como se ele estivesse anunciando uma nova tomada de Monte Castelo. 
O Raul era o mais indignado. “É assim que esses patifes enganam o povo,” disse ele. “Enquanto traz para exposição os ossos do imperador, ele enterra os ossos dos nossos patriotas em covas sem nome. E nós ficamos aqui discutindo o pensamento dos socialistas utópicos.” 
Terminamos o trabalho, fizemos a apresentação e tiramos até uma boa nota. O Raul não compareceu no dia da apresentação. Alíás, depois daquela noite em que o general Médici anunciou a vinda dos ossos do imperador, não o vimos mais. Disseram que ele havia abandonado a faculdade e andava metido em rolo.
Nunca soubemos que rolo era esse e que fim levou o Raul. Nós nos formamos e fomos, cada um para o seu canto. E, a que eu saiba, acho que nenhum de nós se tornou economista por profissão. 
As garotas que gostavam de vir estudar conosco filhosofia e pisiricologia sentiram muito a falta do Raul. Nós também. Afinal de contas, a maioria delas vinha à nossa república por causa dele. 
Há alguns meses atrás encontrei um colega daqueles tempos da faculdade. Lembramos os velhos tempos e acabamos falando do Raul. Afinal, esse colega também tinha sido beneficiário do charme do nosso irrequieto amigo.  Foi ele que me disse que os legistas tinham finalmente identificado os ossos do Raul numa cova rasa de um cemitério em Perús. A autópsia dizia que ele fora morto cerca de um ano depois daquele dia em que o General Médici recambiou para o Brasil os ossos do Imperador. Segundo dizem, ele foi morto pelas forças da repressão. 
Não pude deixar de pensar no paradoxo da situação. Naquele tempo havia duas facções em luta. Ambas com uma concepção autoritária de sociedade. Matou-se e morreu-se por causa delas. Ambos queriam mudar as coisas na porrada. Ossos que são desenterrados e ossos que são enterrados. Essa é a vida. O que sobra são sempre os ossos. E nós somos todos colecionadores de ossos.
O general Médici também já morreu e seus ossos descansam em paz em algum lugar. Que todos descansem em paz, como era sonho daqueles filósofos socialistas utópicos que pensaram um mundo ideal onde as pessoas não precisavam se tornar apenas ossos para viver em paz e harmonia. 
Afinal de contas, mesmo que de boas intenções o inferno esteja cheio, existe um pressuposto que até hoje eu considero difícil de desmentir: É aquele que diz que toda intenção é positiva, por mais diabólico que seja o espírito que a inspira. Com esse pensamento tudo se ajeita e o universo volta à sua posição de equilíbrio. Até o próximo Médici e o novo Raul.
 
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 17/01/2019
Reeditado em 17/01/2019
Código do texto: T6553070
Classificação de conteúdo: seguro

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