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Pernas, sangue e iscas

Contos desconexos na madrugada

Pernas, sangue e iscas

Não lembro de muita coisa sobre aquele dia; apenas alguns lances de memória sem nenhuma conexão aparente. Lembro da sensação de vazio que senti. Ainda posso ver o vermelho tingindo a água e sinto, até hoje, os arranhões na minha virilha arderem em contato com a água salgada.
Às vezes sinto que “elas” ainda estão lá, presas aos meus joelhos, mas a visão não me engana.
O paladar também fustiga as minhas lembranças macabras; o gosto da água salobra misturada ao meu sangue jamais sairá da minha boca.
No final das contas, acho que dei muita sorte; meu agressor desistiu de mim, ou talvez preferiu esperar que eu morresse afogado. O fato é que a maré me jogou contra o atol e lá eu me agarrei, apenas um tronco com os braços presos à rocha dura e lacerante.
Minhas duas pernas foram arrancadas com muita voracidade nesse dia.
Hoje, todos me dizem que tubarões famintos atacam qualquer coisa que virem pela frente, mas eu nunca disse que peixes me mastigaram naquele mar.

***

— Senhor, podemos parar um pouco? A minha amiga ali está muito mal...
O homem dentro da cabine do bote de pesca não deu ouvidos ao que o rapaz pedia com a cabeça no painel frontal. Na proa, duas adolescentes se esgueiravam pela borda da pequena embarcação. Uma delas regurgitava o almoço de poucas horas atrás, no hotel, direto no mar, para a felicidade dos peixes.
O motor do barco é desligado e a embarcação pára próxima a um atol, onde um antigo farol – já desativado – se erguia. O homem sai da cabine e vai para a proa.
— Eu avisei que iam ficar enjoados, não avisei? – perguntou rispidamente.
— Sim – concordou uma garota de cabelos negros à altura dos ombros, segurando pelas costas a amiga que vomitava. – Só que não imaginei que ela fosse enjoar tanto!
A garota de cabelos curtos e avermelhados parecia colocar até a bílis para fora. O homem caminha para a parte traseira do bote, do outro lado da cabine.
— Jonatan, peça para voltarmos assim que a Elaine melhorar.
O jovem, indignado, olha para a irmã.
— E por que não vai você pedir isso a ele?
— Você que é o homem aqui, ou não é? Além do mais, a idéia de vir pra esse barco idiota foi sua.
— Susana, ninguém pediu para você e sua amiguinha virem também! Vocês que se ofereceram.
A garota dar uma rabissaca e volta sua atenção para a amiga.
Jonatan dirige-se para trás da cabine, onde o “capitão” se encontrava.
— Nós pagaremos o combinado, mas, por favor, nos leve para a praia logo.
O outro estava absorto em seus próprios pensamentos, fitava o farol velho com uma nostalgia visível em sua expressão. O homem vermelho de sol entrou na cabine e voltou em seguida com uma enorme vara de pescar profissional e um balde azul e sujo contendo algo...
— O trato foi que eu os levaria para um passeio de barco e vocês esperariam eu fazer o meu trabalho, não foi?
— Sim, mas é que...
— Então, trato é trato! Esperem que eu termine a minha pescaria.
O homem pegou um pedaço de carne crua de dentro do balde e o espetou no anzol, içando-o em alto mar em seguida.
— Diga a sua amiga que pare de sujar a água. Pode atrapalhar a pesca...
Jonatan sentiu os desaforos entalarem em sua garganta, mas virou-se de cabeça baixa. Afinal, aquele homem tinha razão: trato é trato. Aquele pescador não estava disposto a pagar o preço por está acompanhado de uma adolescente enjoada e mimada de cidade grande.
— Ela que tivesse ficado em terra firme.
— O que o senhor disse?
— Nada.
Já no outro lado da cabine, Jonatan se aproximou de Elaine.
— Desculpe – começou ele, visivelmente envergonhado. – Não consegui convencê-lo. Teremos que esperar o fim da pescaria...
— Que se dane a pescaria dele – Bradou Susana. – Eu não agüento mais esse vai-e-vem desgraçado! Meu estômago também tá quase pelo avesso!
— Todos nós estamos enjoados – disse o jovem, sentando-se ao lado de Elaine, que recostou sua cabeça no ombro dele.
— Mas no caso dela é bem pior, seu babaca...
— Vocês querem parar com isso, por favor – pediu a Elaine, pálida, a voz fraquejando.
Susana mostrou o dedo ao irmão.
— Por que diabos você tá descontando a sua raiva em mim? Já disse que eu não posso fazer nada – gritou Jonatan. – Ou você quer que eu ponha vocês duas nas costas e as leve até a praia a nado?
Susana, enfurecida, encarou-o.
— Ora, seu...
— Calem-se!
O dono do bote de pesca aparecera. Uma das mãos estava pingando sangue e a outra segurava firmemente a vara de pesca. Seu rosto passava uma irritação tremenda.
— Seus moleques mimados da cidade! Será que não conseguem calar esses badalos por um segundo? Estão espantando todos “eles”!
Retirou-se para trás da cabine em seguida, deixando o convés um pouco respingado de sangue.
— Meu Deus – Susana estava chocada.
— Você viu a mão dele? – perguntou Jonatan.
Susana se levantou.
— Fique aqui com a Elaine, eu vou pedir desculpas, tentar fazer com que ele nos leve para casa.
— Você pirou de vez? – Jonatan segurou o braço da irmã. – Não existe acordo com esse cara, eu já tentei...
— Você é um incompetente, Jonatan. Eu consigo convencê-lo.
Ela saiu para o outro lado da cabine.
— Oi – a garota se aproximou cautelosamente do pescador – eu queria pedir desculpas por agora a pouco. O senhor tem toda a razão.
Ele a olhou de rabo de olho e voltou a sua atenção para o anzol da vara, que acabara de voltar da água sem a isca.
— Maldição!
Ele pega um pedaço de carne ensangüentado de dentro do balde e fisga no anzol, lançado ao mar novamente.
Susana retira a canga e a estende para poder se sentar ali perto.
— Eu pensei que o sangue fosse da sua mão.
— Não das minhas – respondeu ele, sem tirar o olhar inquieto das ondulações do mar.
— O que está pescando? Tubarões?
O homem dar uma risada forçada e fala entre lábios:
— Tubarões servem de isca para “eles”.
— Do que está falando?
Um leve puxão na linha faz com que o pescador fique atônito. Ele arrasta a vara para si, mas o anzol emerge sem nada novamente.
— Maldição! Eu preciso de outra isca...
Susana se levanta:
— Já que precisa de outro tipo de isca, será que não poderia nos levar de volta, assim você aproveitaria e pegaria mais...
— Cale essa matraca! A culpa é de vocês! Estão os afugentando! Vão embora agora!
— O quê?
O homem, com os olhos rubros de raiva, olha para Susana.
— Ai!
O grito veio aos ouvidos dos dois. O grito de Elaine. Susana corre para o outro lado do convés.
— Meu Deus!
Susana tapa a boca, para abafar seu grito de espanto.
— Eu não sei o que aconteceu – Jonatan estava transtornado, trêmulo, os olhos quase saltando das órbitas. – Ela falou que queria fazer xixi, eu virei de costas, escutei os gemidos, virei-me de volta e...
Elaine estava acocorada no convés, sobre uma poça de sangue, onde se via algo semelhante a um bolo de carne, uma pequena almôndega, numa comparação grosseira.
— Eu não consegui segurar – Elaine falou, a testa suada, o rosto fantasmagórico, o corpo dormente a acompanhar o vai-e-vem do bote.
Susana apressou-se e retirou a amiga daquela situação, levando-a para um recanto à sombra da cabine e enrolando a garota numa toalha.
O “comandante” apareceu em seguida e passou a olhar de um para outro como que a indagar qual daquelas “crianças” havia feito traquinagens.
— Por favor – Jonatan falou ainda trêmulo – leve-nos para casa.
O homenzarrão passa pelas garotas e se dirige, com sua vara de pescar, agressivamente ao rapaz, que fecha os olhos reflexivamente ao ver aquela presença medonha crescer em sua direção.
Passados alguns segundos, o rapaz abre os olhos novamente e vê o pescador de joelhos, próximo à poça de sangue. O homem escorrega seu dedo indicador no liquido viscoso, em seguida o cheira para depois enfiá-lo por completo na boca, retirando-o de lá completamente limpo. Os jovens ficaram estarrecidos olhando aquela cena bizarra.
O pescador pega o aborto de Elaine, espeta-o no anzol e o lança às águas verdes do mar.
— Seu doente – brada Susana. – O que você fez? Socorro!
— Jonatan sente o seu sangue ferver nas veias. Ele avança sobre o pescador e lhe toma a vara.
— Moleque idiota! Devolva-me já isso!
— Não! Já chega! Leve-nos daqui agora!
— Garoto burro! Me dê já essa vara!
Jonatan sentiu a linha puxar fortemente. Em seguida o mar tremeu todo e numa fração de segundos a proa da pequena embarcação estava submergindo.
O jovem não teve tempo de raciocinar sobre o que acabara de acontecer, suas pernas estavam sendo arrancadas e o sangue e a água salgada turvavam-lhe a visão. Ele ainda conseguiu ouvir as risadas abafadas e enlouquecidas do homem, cujo nome nunca saberia. Avistou também a sua irmã sendo tragada para baixo, como que sugada por um ralo gigantesco.
Depois, tudo ficou ainda mais vermelho e foi escurecendo até chegar à penumbra total.


~ Fim ~

Alisson Herbert
Enviado por Alisson Herbert em 23/09/2007
Reeditado em 20/04/2008
Código do texto: T664412

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Sobre o autor
Alisson Herbert
Campina Grande - Paraíba - Brasil, 27 anos
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