Eu morri numa madrugada fria e úmida depois de um longo dia de trabalho nas lavanderias da condessa de d'Aumont. O assassino que se aproximou de mim pelas costas, rasgou minha garganta com sua faca pouco afiada sem que eu tivesse chances de me defender.

Naquela noite, ele levou minhas poucas moedas e eu perdi minha vida, meus sonhos e esperanças. Lembro-me de que, antes que meu coração parasse de bater, vi o sorriso do meu filho. Aquele foi meu último pensamento e assim deixei a vida com lágrimas nos olhos.

Meu corpo enregelado foi encontrado ao amanhecer, após horas esquecido num beco escuro de Paris, por um garoto sujo que aproximou-se de mim e deu pequenas pancadas em meu ombro, como não me mexi, ele tocou meu pescoço com a ponta dos dedos e ao constatar a falta de pulsação deu sinal para que outros dois rapazes que o acompanhavam chegassem mais perto.

Q
uando estavam todos reunidos à minha volta, ele levantou meu vestido expondo meu corpo sem qualquer pudor e, como se ensinasse aos mais jovens a escolher uma boa novilha, explicou com muito contentamento que meu corpo renderia um bom dinheiro, pois, apesar do corte profundo em meu pescoço por onde meu sangue havia jorrado, eu era jovem e não tinha ferimentos graves, deformidades ou qualquer doença séria, então, os dois jovens, seguindo as ordens do líder do grupo, tomaram-me pelos pés e pelas mãos e me lançaram sobre uma carroça. 

Nem sequer fecharam meus olhos. 

Notei que junto a mim havia outros três corpos, um deles era de uma mulher muito velha que cheirava à doença e podridão, o outro era de uma criança ainda anjinho que parecia dormir e o terceiro era de um homem de meia idade sem ferimentos que permitissem descobrir a causa de sua morte.

A viagem foi longa e penosa e durante todo tempo eu me perguntava se a morte era apenas aquilo e onde estaria o limbo, o purgatório o paraíso e o inferno.

Depois de muito tempo sacolejando por uma estrada estreita, paramos em uma estalagem, um lugar pobre e feio muito distante da cidade e enquanto os dois rapazes ficaram para vigiar a mercadoria enquanto o terceiro entrou na taberna onde se ouvia o riso de homens bêbados e mulheres levianas.

Meus olhos estavam muito cansados, mas eu não conseguia fechá-los e meu único consolo era poder olhar as estrelas que começavam a surgir no céu. 

Estava tomada pela frieza da morte e não entendia porque minha alma ainda estava aprisionada à carne. Então me dei conta de que eu não seria enterrada, de que não me seriam concedidos os ritos fúnebres e de que minha alma não seria encomendada aos céus, talvez por isso meu espírito ainda estivesse ali, impedido de encontrar o caminho em direção ao descanso eterno que sempre me havia sido prometido. 

Angustiada por aquele pensamento, senti mãos que me tocavam. Um dos rapazes abriu os botões de meu blusão para deixar meus seios à mostra, enquanto o outro me observava com um sorriso torpe nos lábios, me senti envergonhada e exposta enquanto os dois apalpavam meu corpo e faziam piadas sujas.

Quis chorar e descobri que aos mortos não é dada essa benção.

Após viajarmos por toda a noite, chegamos a uma bonita propriedade rural, uma casa grande feita de pedras cinzentas e janelas altas. Não demorou a que o dono da casa surgisse. Pude vê-lo bem quando ele se aproximou para examinar meu corpo, era um homem de cerca de quarenta anos, cabelos grisalhos, boca bem-feita e olhos atentos. Pude notar que ele se agradou de mim, mas apesar disso reclamou do alto preço exigido pelo líder do grupo, então os dois iniciaram uma discussão que me pareceu ensaiada, como se ambos já soubessem qual seria o desfecho daquilo.

O mercador propôs a venda de nós quatro pelo preço de três, mas o homem não queria a velha que estava muito deteriorada, nem o bebê, pois bebês eram fáceis de encontrar. Ele queria apenas ao homem de meia idade e a mim. Severo, lembrou ao mercador que já tinha dito centenas de vezes que corpos velhos e decompostos não lhe interessavam, precisava de corpos frescos e jovens, não de carcaças imundas.

O mercador tentou convencê-lo de que com a chegada do verão a oferta cairia e o homem rebateu alegando que a nova estação traria suas próprias doenças garantindo que os corpos continuassem a chegar. Depois de muito discutirem, o homem aceitou ficar com três de nós. Não ficou com a velha alegando que aquele corpo em adiantado estado de putrefação e cujo odor impregnava tudo não lhe teria serventia alguma.

O sol já estava no meio do céu quando meu corpo foi carregado pelos rapazes e deixado numa mesa fria num quarto iluminado por archotes, não demorou para que o homem que me comprou viesse se ocupar de mim e me surpreendi ao perceber que sua ajudante era uma mulher jovem.

Juntos e em sintonia como se acostumados com aquele trabalho, eles despiram meu corpo, me emergiram numa banheira de águas mornas que cheirava a ervas medicinais, me esfregaram até que toda a sujeira saísse, lavaram e trançaram meus cabelos, me secaram com uma toalha macia e empastaram meu corpo com um unguento de cheiro forte.

Nunca em vida eu havia me banhado daquele jeito.

Terminado o trabalho, meu corpo foi deixado sobre a mesa, as luzes foram apagadas e eu mergulhei numa escuridão consciente tão densa e penetrante que podia senti-la tocando meus ossos. Sempre temi o escuro e a plena consciência de mim mesma que a ausência de luz proporcionava e, naquelas horas de profundo silêncio, fui assombrada pelos fantasmas dos sonhos desfeitos, pela sombra de esperanças vãs e pela lembrança daquilo que nunca aconteceria.

Eu tentei gritar implorando aos céus que tivessem misericórdia da minha alma e me levassem dali, mas nenhum som saia de minha boca.

Era desesperador estar ali, consciente da vida à minha volta e sem forças para me livrar de mim mesma, sem saber como deixar meu corpo e voar em direção à eternidade, sem sequer ter a certeza de que havia realmente um céu esperando por mim.

Mesmo morta eu sentia frio e me perguntei se aquilo era o purgatório sobre o qual eu ouvia falar nas missas de domingo.

Sem respostas e em meio àquele tormento, a manhã me surpreender. Logo a sala estava repleta de rostos jovens de olhos curiosos, todos homens bem vestidos – com exceção de uma única mulher, a jovem que havia ajudado a cuidar do meu corpo na noite anterior -, tinham papel e lápis nas mãos e me olhavam com interesse e até com certa reverência.

O homem que me comprou foi recebido de forma efusiva, parecia contar com a admiração daqueles meninos que se sentiam homens e que o ouviam com respeito e atenção enquanto ele apontava para mim e explicava sobre o funcionamento do corpo humano, até que, para meu completo pavor, ele aproximou-se de mim e sob o olhar de sua plateia rasgou meu peito com algo que parecia uma serra, em seguida a jovem foi convidada a se aproximar e a retirar o meu coração, o que ela com firmeza total e perícia para deslumbre de todos que assistiam àquela cena bizarra.

Diferente de quando morri, não senti dor, mas senti cada pedaço do meu corpo sendo arrancado de mim e talvez tenha sido pior do que ser amputada em vida, pois eu não podia gritar.

Após de ter meu corpo totalmente esvaziado, meu dorso oco foi lavado, empapado com um líquido de cheiro ruim e costurado, meus órgãos foram expostos em potes de vidro organizados em uma prateleira.

Não sei há quantos tempo isso tudo aconteceu, sei apenas que desde então meus olhos continuam abertos, porém, nunca mais pude ver as estrelas no céu, já não consigo sequer ver o sorriso de meu filho em minhas lembranças e a única coisa que vejo através da barreira de vidro do recipiente que me guarda é uma sala muito limpa e clara.

Em alguns momentos, alguém se aproxima, para à minha frente e me encara, olha no fundo dos meus olhos e eu tenho a estranha sensação de que essa pessoa pode sentir que eu ainda estou aqui, mas então ela se vai e eu permaneço sozinha, presa em meu corpo sem vida, consciente de que fui condenada a ser tratada como um objeto, como se nunca tivesse vivido, sem esperança, sem fé ou certezas e sem saber por quanto tempo irá durar o meu tormento.
 






 
Fefa Rodrigues
Enviado por Fefa Rodrigues em 23/05/2019
Reeditado em 30/05/2019
Código do texto: T6654553
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