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O CASTELO DE ESTÁTUAS - parte 2

               1990


          Dois repórteres desempregados em busca de uma matéria para apresentar as emissoras e voltarem ao trabalho, planejaram reacender o mistério do casal Gaspar e adentraram o castelo à tarde.

          Portando apenas uma câmera amadora, duas lanternas, um canivete, um bloco de anotações, uma caneta e um gravador, Daniel e Garcia invadiram as cercanias do castelo e com esforço, empurram a porta da entrada. Porém ao penetrarem no salão das exposições a porta de madeira se fechou sozinha.


          Eles se esforçaram para abri-la, porém seus esforços foram em vão e não havia meios de empurrar ou puxar a pesada porta novamente. Na escuridão em que estavam presos, acenderam uma lanterna e perceberam que as estátuas ainda se encontravam ali como nas primeiras fotos das exposições de décadas atrás.

          Possuíam pequenas rachaduras em seus corpos, porém quase nenhum pó ou sujeira se percebia nas esculturas. Todas elas em seus devidos lugares como antigamente, mulheres, homens, bustos, animais e crianças, perfeitamente organizados:

- Pega a câmera, meu chapa. – arguia Daniel.

- Pra quê? O que tem demais aqui?

- Cara, não tá vendo? As estátuas estão limpas. Não é possível. Faz tanto tempo que esse lugar tá fechado.

- Provavelmente algum funcionário ainda vem aqui fazer uma limpeza. – argumentou Garcia tirando a câmera da bolsa - Sabe como são ricos à beira da morte. Morrem sem levar nada, mas ainda querem manter seus bens em destaque para os vivos.

          Enquanto iluminava, Daniel tateou algumas estátuas.  Movimentou uma delas por mero interesse em avaliar o peso das mesmas. Era a escultura de uma amazona. Ao balançá-la, um barulho de pedra se movendo assustou os dois repórteres:

- Foi você? – perguntou Daniel para Garcia.

- Eu não. Tem mais alguém aqui?

- TEM ALGUÉM AÍ? – gritou Daniel.

          Nenhuma resposta se ouviu além do eco da sua voz pelo castelo.

          No entanto, quando colocou a estátua no lugar, percebeu que o barulho voltou. Suspeitaram que vinha do compartimento ao lado. Foram até lá com a lanterna ligada. Nada havia a não ser mais estátuas.

          Entraram em cada uma das salas abertas ao público, mas nada acharam de suspeito. Tendo visto todos os compartimentos, Garcia notou algo diferente numa estátua:

- Daniel, traz a lanterna pra iluminar isso aqui.

- O que seria? Ainda não percebi. – dizia Daniel olhando para a escultura de pedra.

- Mas você é burro mesmo, hein. Passa a mão na nuca dessa estátua.

           Ao passar ele sentiu um relevo granulado:

- Caraca! Que isso? – Daniel disse surpreso enquanto tateava a nuca da estátua.

- Que foi? O que você sentiu?

- Não sei. Parece uma letra.

- Qual letra, caramba! Fala logo! – irritava-se Garcia.

- Tá. Tá bem. Espera... acho que um P.

- Perfeito. Vamos agora tocar estátua por estátua e tentar achar mais alguma pista.

- Aff. Isso aqui não é Scooby Doo, mermão. Não to afim de ficar bancando o detetive não. Vamos tentar abrir a porta e ir embora.

- Escuta aqui – disse Daniel abaixando a câmera – Foi você quem me convenceu a vir aqui. Eu nem queria, mas a ideia foi sua. Alem disso preciso de grana, tá ligado. E agora que a gente entrou, eu só saio daqui com a matéria pronta. E você não vai me deixar aqui sozinho agora porque senão eu te arrebento aqui mesmo.

- Tá achando que eu tenho medo de você? Eu vim atrás de uma reportagem, não de virar o Indiana Jones.

- Daniel, me ouve. Se descobrirmos alguma coisa aqui, quem sabe a gente, além de voltar para o trabalho, não escreve um livro sobre uma experiência no castelo mal-assombrado? Que tal?

- Mas até agora não teve nada assombrado. Por que iríamos escrever um livro?

- Mano, dinheiro! Dinheiro nem sempre combina com a verdade, mas com a oportunidade. Preciso pagar o aluguel do andar que moro porque o dono já está embaçando na minha e me livrar daquele lugar podre. E você também não está em condições financeiras melhores do que a minha.

- Nem me fala. Minha ex-mulher tá cobrando direto o dinheiro da pensão do meu filho. Se eu não pagar logo ela vai abrir queixa. Tá terrível.

- Então essa é nossa chance. E aí? O que me diz?

- Fechou. Me convenceu. Vou procurar. Pega sua lanterna e guarda a câmera.

- Nada disso. Vou filmar tudo. – e acendendo a sua lanterna meteu a luz nos olhos de Daniel.

- Para seu otário. Vai logo com isso.

          Visitaram cada compartimento tocando e deslizando suas mãos nas estátuas. No término daquele exercício encontraram mais três símbolos e dois que se repetiam:

- E aí? Sabe o que significa?

- E eu sei lá. Deve ser um anagrama e forma alguma palavra.

- Mano, eu não faço a mínima idéia o que são esses símbolos.

- Primeiro vamos analisar – disse Daniel – provavelmente essas estátuas devem estar numa posição estratégica. Segundo, se elas são as únicas que possuem letras, elas são uma espécie de chave para alguma coisa.

- Caramba, Sherlock Holmes. Você deduziu o que uma criança de três anos faria.

- Calma. Meu raciocínio não acabou. A palavra, se é que existe alguma, não está em português, mas em grego.

- Tá bom. Agora você me surpreendeu. - Garcia disse arqueando as sombrancelhas.

- Lembra de alguma palavra dita na bíblia? Parecida com uma dessas.

- Mano, eu nem leio bíblia. Só fica aberta lá em casa, mas nunca nem li.

- Presta atenção. Eu lembro que na época que eu ia pra igreja o pastor leu um texto que tinha uma palavra semelhante a uma dessas que eu formei.

- Tá. E que palavra é essa?

- EFATÁ. Foi uma das poucas coisas que o pastor falou que eu prestei atenção. O resto do culto eu dormia.

- Opa! Gostei. E o que significa?

- Abre-te. – disse Daniel fechando o bloco de notas e guardando-o no bolso.

- Ok, pastor. Então vamos tentar mover as estátuas que possuem essas letras pela ordem dessa palavra, pode ser?- disse Garcia.

- Ok.

          Eles moveram cada estátua conforme a ordem das palavras. Cada estátua que eles moviam gerava um barulho de uma enorme pedra a se mover.

          Formaram em grego a palavra EPPHATA

          Após moverem todas as estátuas, um barulho de tranca se ouviu. Observaram cada compartimento novamente. Nada de novo havia.

- Alguma coisa aconteceu. Eu ouvi. – disse Daniel.

- Eu também. Olhamos tudo mesmo?

- Tudo. Vamos voltar para o salão central.

          Quando Daniel iluminou as estátuas, reparou que uma estava diferente. Uma escultura estava com o braço abaixado. Porém agora a braço estava erguido pontando para um lado.

- Garcia, filma isso aqui. Rápido.

          Enquanto filmavam foram até a direção que a escultura apontava. A direção dava à uma parede onde havia dois grandes querubins com as asas estendidas cobrindo a parede. Os querubins tinham cada um o rosto do casal Gaspar. Aproximaram-se e tocaram na parede. Ela começou a se mover e o chão estremeceu.

          Uma passagem secreta se abriu atrás das imagens de pedra dos querubins. Eles se agacharam e deslizaram para entrar. Dentro da sala secreta continha esculturas de cabeças ensanguentadas, muito reais e vívidas, o que os fez pasmarem diante da cena. Ao chão da sala encontraram a armação de óculos sem as lentes e esculturas sem cabeça em cada canto da sala.

- Achamos! Achamos! – dizia Garcia tremendo de entusiasmo. – A parede falsa era essa!

- Cara, a parede!– Daniel gritou tremendo.

          Nesse momento a parede falsa se fechou, mantendo os dois dentro da sala secreta. Tudo ficou escuro. Um barulho de pedra se arrastando se ouviu novamente.

          Ao iluminarem o local, uma porta se abriu diante deles com uma escada que levava para o subsolo do castelo...


          Continua...
Leandro Severo II
Enviado por Leandro Severo II em 01/08/2019
Reeditado em 17/08/2019
Código do texto: T6710111
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Sobre o autor
Leandro Severo II
São Paulo - São Paulo - Brasil, 26 anos
75 textos (3677 leituras)
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Leandro Severo II