Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Pânico Esquizofrênico

       São quase 3 horas da madrugada e como podes notar, ainda não dormi. Sou guarda noturno em uma empresa de valores, motivo d'eu sair de casa dizendo que estou indo trabalhar; porém, dou meia volta e fico caminhando às escondidas nas redondezas de minha casa. Tenho notado um movimento estranho todos esses dias. Contudo, hoje passou dos limites, pois a coruja ainda não piou no galho seco de árvore; e nas noites passadas, sempre que o faz, mais ou menos na quarta vez que canta, a luz do quarto de minha mulher apaga e tudo se quieta.
  Por volta da meia-noite, os sinos da igrejinha  dispararam, uma revoada de morcegos cobriram os arredores e quatro estampidos de tiros fizeram-se ouvir. Não estamos em festa. O que será que aconteceu com a coruja? Será que mataram-a? O galho quebrou? Por que a luz do quarto não apagou? O que tem a ver uma coisa com a outra? Penso em mim; na minha mulher; na minha família e em um dos vizinhos, que é do fundo da cozinha de minha casa.
                      Tenho que parar de assistir esses programas policiais. Coisas mais horríveis acontecem ao nosso lado. Deus nos livre de balas perdidas procurando corações apaixonados. Caso da Ágatha, da moça da cidade do interior de SP. Meus Deus, tire essas coisas de minha cabeça.
                   Agora para piorar, vejo uma sombra cruzando a esquina. Vai de chinelos de dedo, embornal à tira-colo, barba por fazer caída até o peito, cabelo esvoaçado. Caminha rápido. Outro tiro. Meu Deus, será lá em casa? Um gato preto. Deixo eu reparar direito: isso mesmo, um gato preto acompanha a sombra. Seus passos deixam marcas de sangue na rua.
           Eita que o bicho mia alucinado. Só falta o seu miado acordar os defuntos. Por que fui pensar isso?! Ouço um portão ranger. Estou suando frio; dos pés à cabeça, e não é para menos. Teria aquela sombra saído de alguma alma penada que dormia no cemitério. Parecia mais assustada que eu. O diabo e seus comparsas não escolhem hora para atacar. E nesta noite, parece que perderam o rumo do inferno. O sangue do cordeiro tem poder sobre todas as coisas.
     Até que enfim a coruja piou. Esquisito, não é o pio da coruja que dorme no falho de minha casa. Um, dois três...; piou um pio tristonho. Falho. Rouco. Minha mãe dizia que quando as coruja piam assim, de maneira esquisita, um pio sem brilho, agourento, é porque morreu um santo Padre. Ai meu Deus, não!
           Se houver alguma relação de uma coisa com a outra, tudo será desvendado em segundos. Como almejo a calmaria; a paz! Mais um estampido. A luz apagou. Gritos. Pedido de socorro. Barulho de sirene. Ambulância. Movimento. É lá mesmo! Não acredito...!
              Detesto, odeio, abomino ficar o tempo inteiro fazendo sala, ouvindo chororô de falsos amigos em velório. Mas acho que não terei outra saída...
                  Aos vitoriosos vencedores, o direito à festança com mesas aborrotadas de comidas, danças no terreiro e espetáculo pirotécnico de fogos. Aos derrotados, uma viagem sem escala ao cemitério.
                 Tá difícil sobreviver nessa Terra; e já prevendo o pior, vou ignorar até as chamadas de celular. "Alô, câmbio; desligo"! Na tentativa de desvendar meus desvarios imaginativos, não menos meus pensamentos configurados pela loucura, posso ser pego por hackers. É, como sempre digo, nada basta para o diabo.
Mutável Gambiarreiro
Enviado por Mutável Gambiarreiro em 28/09/2019
Reeditado em 29/09/2019
Código do texto: T6755760
Classificação de conteúdo: seguro
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Mutável Gambiarreiro
Jegue é - Tovuz - Azerbaijão
2330 textos (54139 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 20/11/19 01:08)
Mutável Gambiarreiro