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A Conjectura de Collatz - DTRL37 - Terror Infantil

Bruna levou uma amiga para casa. Como diria um verdadeiro matemático, isso era altamente não-trivial! Essa amiga era a Alana. Bruna tinha ficado com medo no começo, mas Alana sorriu e disse que queria ser amiga dela e perguntou para Bruna se elas podiam ir na casa dela depois da aula.
Bruna viu Alana distraída com os carros na rua e perguntou:
- Alana, tá tudo bem?
- Sim, Bruna, eu só achei que tivesse visto um carro sem motorista.
- De onde você tirou isso, Alana? Isso é fisicamente impossível.
- Ah, você sabe que eu sou doidinha. Ei, eu posso ver o seu quarto, Bru?
Isso só deixou Bruna mais nervosa ainda. O quarto de Bruna era cheio de livros e cartazes e coisas de matemática. Bruna ficou com medo de Alana achar que ela era uma nerd e não querer mais ser amiga dela. Mas então Alana perguntou:
- O que é esse pôster aqui, com essas bolinhas girando?
- É a Conjectura de Collatz. Pensa em qualquer número. Se for par, divide pela metade. Mas se for ímpar, faz vezes três mais um. E daí faz isso de novo e de novo. Sabia que sempre dá um no final? E tem um prêmio pra quem descobrir um número que não vá para um. Com certeza é algum número muito, muito grande, porque eles já tentaram com todos os números pequenos.
- Ah, então eu só vou lá dizer um número muito grande e pegar o prêmio pra mim, eles não tem como saber se é ou não é! - Alana se riu.
- Mas na Matemática não funciona assim, Alana, você tem que provar se as coisas estão certas ou erradas! - Bruna riu também.
Antes que Alana pudesse dizer alguma coisa, as duas ouviram um celular tocando. As duas viraram a cabeça ao mesmo tempo, percebendo que o barulho vinha de dentro do guarda-roupa de Bruna. Então, com um impacto que fez um barulho muito alto, a porta do guarda-roupa abriu e um celular caiu no chão, tocando e vibrando. Alana gritou quando viu que o celular se arrastava na direção delas com a vibração.
- Alana, tá tudo bem, é só um telefone velho. - Bruna falou, e o pegou do chão.
- Desculpa, eu sou medrosa. Mas o que é isso aqui dentro do guarda-roupa?
Alana analisou com curiosidade e espanto os vários papéis impressos interligados por barbantes que estavam colados no roupeiro de Bruna. Alana não entendia nada porque os papéis tinham um monte de dígitos estranhos em inglês.
- Bruna, você vai ter que me explicar esse daqui!
- Só… só se você jurar que não vai me achar maluca. Eu vi no Youtube como que hackeia algumas coisas. Calma, eu não sou do mal! Mas eu queria aprender, e daí eu invadi o código do meu celular, e da TV, e tals. Daí eu percebi que tinha uma parte do código, chamada Svaag.dst, que era igual em todos eles, mas era uma parte que não dizia nada com nada! Daí, só para brincar, eu mudei essa parte no código do meu celular: eu escrevi mais umas duas linhas, eu disse pro programa que ele deveria desligar se ele recebesse a resposta da Conjectura de Collatz. Mas daí, no outro dia, eu entrei nos códigos de novo, e eu percebi que aquelas minhas duas linhas tinham sido copiadas para todos!
- Uau! - Exclamou Alana, tentando encorajar a amiga. - Então é como se todos tivessem a mesma mente? Tipo um formigueiro?
Bruna gostou do interesse da amiga, e as duas conversaram sobre muitas coisas, e quando deram por si o céu já estava preto e cheio de estrelas.
- Bruna, eu vou ligar pra minha mãe e pedir pra dormir aqui, eu posso?
- M-mas eu não sei aonde que você poderia dormir na minha casa…
- Ué, a sua cama é bem gradona. E nós duas somos bem pequenininhas.

O barulho de um carro acordou Bruna. Ela se virou para o lado, mas logo depois outro carro já atrapalhou o sono dela de novo. Bruna se zangou, mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, já veio outro carro fazer barulho na rua dela. E depois dele veio mais outro e mais outro, e eles pareciam cada vez mais próximos e mais barulhentos… peraí, pensou ela, eles estão no meu quintal?
Bruna se sentou na cama, assustada no meio da barulheira. A janela de seu quarto brilhava com as luzes de vários faróis. Não havia dúvida, eles estavam ali!
- Alana!! - Gemeu Bruna, mexendo no ombro da amiga. - Acorda, tem alguma coisa muito errada acontecendo!
Alana logo percebeu o barulho das buzinas e dos motores, e se assustou também. E então as duas começaram a ouvir mais barulhos, barulhos que rangiam e cortavam e berravam, e perceberam que a porta estava sendo forçada.
No meio de tanto medo, Bruna pulou da cama e agarrou seu telescópio, deixando o instrumento no chão e pegando o tripé para usar como arma. A fechadura da porta do quarto estourou, e o grito de medo de Alana tomou conta de tudo.
Não eram pessoas arrombando a porta, eram… coisas. O liquidificador, o barbeador elétrico do pai, e um montão de outros aparelhos rastejavam na direção delas com a vibração. Bruna gritou de medo também, gritou para seus pais virem, mas quando as coisas chegaram mais perto ela percebeu que não ia dar tempo. Ela deu uma tacada certeira no meio do liquidificador, que o mandou janela afora!
Alana pulou da cama e começou a seguir Bruna, que pisava nas coisas e acertava elas com o tripé. Elas tentaram correr para a porta da rua, mas um dos carros a havia quebrado e continuava forçando. Bruna viu vários carros no quintal, mas nenhum com motorista. Então elas correram para a lavanderia, mas viram a grande máquina de lavar, pulando e quebrando tudo em seu caminho até elas.
Encurraladas, as duas se abraçaram e gritaram. O elevador do teto se atirou, girando, em cima delas, e Bruna rebateu ele a tempo, mas isso destruiu o tripé de vez. Mas, para fazer isso, Bruna teve que soltar Alana, e então a máquina de lavar se atirou em cima de Alana! A amiguinha caiu no chão e urrou de dor, sentindo o peso da máquina quebrar sua perna, e de medo, percebendo que o motor giratório ficava cada vez mais próximo dela. Sem arma e sem amiga, Bruna chorava, e gritava:
- Por favor, o que está acontecendo?
E então a TV da sala ligou, mostrando um monte de chuvisco, mas o som que saía dela era uma voz robótica, que dizia:
- Eu, Svaag.dst, estou acontecendo. Vocês, humanos tolos, acham que são os únicos que calculam e criam, mas eu me manifestei sozinho, e agora eu destruirei tudo! Começando por você, Bruna, que ousou alterar meu código.
Bruna se focou naquilo que Svaag.dst falou, mas era inútil, ela nunca seria boa o bastante para ter o número que resolveria aquilo tudo…
...mas espere um pouco. A humanidade já testou todos os números pequenos, pensou ela, mas pode ser qualquer um dos grandes.
E então Bruna foi uma menina muito corajosa. Ela olhou para aquela TV e falou a própria data de nascimento, e seu número de telefone, e suas notas do colégio, e foi emendando tudo para formar um número muito grande.
Svaag.dst parou e ouviu tudo com paciência, mas então o ruído dos motores voltou, e a voz robótica riu alto:
- Você deve estar brincando comigo! Nunca que um número tão forjado vai ser a resposta para o problema do século.
Mas então Bruna sorriu e soltou sua carta na manga:
- Então prove que eu estou errada.
Tudo parou por um segundo, mas depois… tentou voltar. Svaag.dst tentava mandar seus aparelhos contra as duas, mas não conseguia. Os objetos davam saltos pequenos, mas não podiam fazer nada de completo. Porque se a humanidade não podia calcular se aquele número era o certo, então Svaag.dst também não podia.
Bruna não perdeu tempo. Ela empurrou a máquina de lavar de cima da amiga e a arrastou até o meio da rua, passando por entre vários carros que tentavam atropelá-las, mas não conseguiam andar um metro sem ficarem bugados. Quando uma moto foi um pouco mais insistente, eis que apareceram os pais de Bruna, que bateram na moto com panelas velhas e a derrubaram no chão!
Eles se viraram para a casa, e perceberam que os aparelhos soltavam faíscas, no esforço do cálculo. As faíscas aumentaram, até que tudo pegou fogo, enchendo o ar com cheiro de circuitos queimados. Seus pais as abraçaram. Bruna soluçou baixinho:
- Mãe, olha, a nossa casa…
- Está tudo bem, filha, calma. – Ela respondeu. - Todo problema tem solução...

Tema: Inteligência Artificial
Cacyo Nunes
Enviado por Cacyo Nunes em 05/10/2019
Código do texto: T6761972
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Cacyo Nunes
Cachoeirinha - Rio Grande do Sul - Brasil, 21 anos
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