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DIÁRIO DE UM ZUMBI

          Nunca iria imaginar que aquele engarrafamento, tão semelhante a tantos outros que eu passei ao transitar o centro de São Cipriano na hora do “rush,” iria mudar completamente tudo.

          Sabe aquele dia que você não aguenta mais ouvir o rádio? Não suportava mais ouvir as mesmas músicas e as notícias sobre as manifestações. Sabia que praticamente todo o dia tinha alguma coisa, reclamavam por tudo, se a policia atuava energicamente era truculenta, quando não, era omissa. Grupos com interesses divergentes viviam a trocar farpas, e as ruas eram palco de grandes embates. Isso fazia o trânsito parar. Tudo o que eu queria era chegar em casa ver minha esposa e brincar com a minha filha.

          Pois bem, lá estava eu, dentro do meu carro, parado, imóvel naquele mar de luzes vermelhas e de buzinas irritantes, evitando ligar o maldito rádio a todo o custo, quando a monotonia de ficar preso no trânsito falou mais alto.

“ ... testemunhas ouviram uma série de fortes explosões vindas da região portuária. As manifestações violentas tomaram conta, mais um vez, do centro de São Cipriano. A polícia já foi acionada para dispersar a multidão...”

          Chega! Aquilo era o suficiente! Mais do mesmo... Arrependi-me de tê-lo ligado. Quando tirei os olhos do rádio para desliga-lo e ver o que tinha feito as buzinas aumentarem de intensidade, observei uma massa humana vindo em minha direção: pessoas pulando por sobre os veículos, outras saindo desesperadas e sendo pisoteadas, crianças chorando,  carros sendo virados com seus ocupantes ainda dentro, um pandemônio. Saiba que as manifestações eram violentas, mas, para chegar naquele ponto, era praticamente o início de uma guerra civil.

          Fiquei paralisado. Simplesmente travei. Precisava entender o que estava acontecendo, ao mesmo tempo em que minha mente teimava em não acreditar naquilo.  O cenário só piorava. Eu achava que era coisa de briga de transito ou algo do tipo, mas as pessoas começaram a morder umas às outras. Grupos avançavam em cima de indivíduos solitários e os derrubavam no chão, cobrindo-os por completo. Só se podia ouvir os gritos de dor, pavor e sofrimento, até que esguichos de sangue brotassem, como se fosse um chafariz humano. Somente então decidi descer do carro. Peguei uma chave de fenda no porta-luvas e saí.

          Tarde de mais. Enquanto eu corria para uma viela perpendicular, fugindo da massa humana, um deles me segurou, resmungou algo, com aqueles olhos vermelhos arregalados e começou a tentar me morder. Tentei argumentar, reclamar, usei a chave de fenda para intimidá-lo, mas nada. Ele pulou para cima de mim já me mordendo. Não tive outra opção, cravei-lhe a chave de fenda nos olhos e no pescoço. Foi quando ele recuou. Desencilhei-me das suas investidas e consegui fugir.

          Meu braço esquerdo estava todo mordido, o sangue saía profusamente. Arranquei a outra manga da camisa para estancar o sangramento. Que cara louco!

          Poucos minutos se passaram. Não sei se o ar se tornou mais denso, se foi aquela chuva estranha que mais parecia cair óleo do céu, mas aquilo ia me tomando conta do corpo. Espasmos musculares foram tomando meus membros um a um, a começar pelo braço esquerdo. Minha visão estava ficando cada vez mais turva, sentia o meu corpo pulsar, latejar de forma estranha. Uma fome sem fim de carne tomava completamente a minha mente. Não conseguia mais pensar. Não sabia mais o que era real ou não.

          Aquela fome seguia me deixando cada vez mais agressivo e irritadiço. Meu corpo todo doía. Via coisas sem sentido, um mar de espectros negros lançavam fios sobre mim, riam, gargalhavam. Seres disformes atravessavam paredes e abraçavam as pessoas. Um desses veio em minha direção. Não sabia como fugir. Acho que não tinha como fugir. Eu estava semiconsciente. Sabia quem eu era, mas não conseguia controlar mais o meu próprio corpo. Aquilo dominava por completo. A fome sem fim me obrigou fazer coisas horríveis.

          Eu sabia quem era ou não infectado pelo cheiro. Os infectados tinha um fedor de carne podre ainda mais ácido. O cheiro do suor, por incrível que pareça, atiçava meus sentidos e minha fome incontrolavelmente. A única coisa que saciava a nossa sede era o sangue de nossas vítimas. Evitávamos a todo o custo beber água, porque simplesmente não conseguíamos engolir, nos engasgávamos como se fossemos morrer afogados. A fome nunca era saciada porque, depois de nos empanturrarmos, vomitávamos jatos de sangue e de outras substancias imundas até que a fome voltasse novamente.

          Quando em frenesi, aquela dor que deixava o nosso corpo letárgico sumia, ganhávamos força e velocidade sobre-humanas. O êxtase da caça dava um prazer curtíssimo e indescritível, assim como o momento de consumir a carne da presa. Aquele ser disforme ia tomando cada vez mais conta de nossa mente a cada presa consumida. A cada novo infectado, a cada dia que se passava, nossas memórias iam sendo apagadas, até que nos tornássemos bichos a seguir as necessidades mais básicas.

          Mas agora, isso tudo está no passado.

          Graças a Deus que vocês da MEGACORP me resgataram. Fico muito feliz de ser um dos primeiros infectados a ser curado!

                                                 Relato da cobaia nº 01023-A
Manassés Abreu
Enviado por Manassés Abreu em 06/10/2019
Reeditado em 08/10/2019
Código do texto: T6762447
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Manassés Abreu
Araguaína - Tocantins - Brasil
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Manassés Abreu