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ADOTADO POR UMA NOITE (REPOSTADO COM CORREÇÕES)

            "Não! Por favor! Eu não fiz nada! Foi ele! Foi o Bob! Ele se mexeu, eu juro!"

            Receber um novo lar nem sempre te desprende de antigas maldições. E a experiência de adoção para alguém como eu se deu por apenas uma única e terrível noite.

            Minha sina de desgraça começou quando fui deixado num lugar que moravam outros que, como eu, também foram abandonados por quem os gerou. Entre tantos nomes, chamei de Orfanato do sr. Euclides.

           As paredes do local, decoradas com desenhos infantis alegres, entre os grandes corredores da casa e a música infantil que animava o dia apenas disfarçava a tristeza do ambiente.

           Entretanto, em algumas noites, o sr. Euclides fazia reuniões estranhas e macabras, onde os resultados foram sentidos ao longo da nossa existência.

           Por isso todos os que lá foram deixados sonhavam com uma nova família. As vezes recebíamos a visita de um adulto ou outro. Geralmente levavam os mais novos, porém nunca perdíamos a esperança que a nossa vez chegaria.
           
            Foi num dia nublado, em que um homem que aparentava uns quarenta anos, vestido de casaco marrom, careca, barbudo e de rosto triste, entrou, sendo muito bem recebido, e se dirigiu ao Sr. Euclides da seguinte forma:

            “Quero que me mostre todos!"

            Ele prontamente nos mostrou ao homem barbudo, sussurrando pra que nos comportássemos. Fomos examinados cuidadosamente. Até que o homem fixou seus olhos em mim:

             “Que lindo! Ele é perfeito e do tamanho exato! O Bob vai amar! Vou levá-lo.” ele disse tocando meu rosto.

            Um misto de dúvida, alegria e expectativa fervilhavam em mim, mas não me exaltei. O sr. Euclides sempre nos dizia:

            "Quem pouco fala, pouco erra. Então fiquem quietos para não parecerem com aquelas crianças chatas que tudo perguntam."

            Vi que o homem colocou no bolso do casaco um pequeno pedaço de papel que o Sr. Euclides lhe entregara. Ele me levou até seu carro e partimos de lá.

            No banco de trás fui admirando a paisagem que nunca pude ver. As árvores, os carros na avenida, as pessoas nos parques. O careca barbudo, contudo, apenas sorria enquanto dirigia.

            Chegamos no estacionamento de um condomínio e pegamos o elevador. Após alguns segundos, a porta automática se abriu no sétimo andar, dando acesso a um pequeno corredor.

            Seu apartamento era pequeno, mas confortável. Uma cozinha, dois quartos, dois sofás bege na sala onde havia uma enorme televisão, uma estante com livros e uma varanda que possuía só uma pequena grade que nos dava uma linda vista do bairro.

            Ele me levou até um quarto que tinha vários brinquedos dentro de uma caixa e duas camas com cobertor de carrinho. Tudo isso me empolgava, mas mantive a postura resignada de antes.

            “Aguarde só um segundo que vou trazer o Bob, seu irmãozinho. Vocês se darão muito bem!"

             Tendo dito isso, o homem saiu deixando-me no quarto.

            “Que sorte a minha! Além de ter um pai, terei também um irmãozinho!”

              Depois de mais ou menos uma hora ele voltou com algo no colo do meu tamanho e colocou sobre a segunda cama. Ele respirou fundo, como quem está satisfeito, e saiu novamente. Já eu, não sabia o que pensar.

           Meu companheiro de quarto tinha o cabelo castanho, usava camisa branca e macacão jeans. Era bem branquinho, articulado em todos os membros, mãos pequeninas, um rosto redondo, uma boca rosa e os olhos… aqueles olhos… não eram normais. Eram tensos, grandes e mortos.

            "Eu não acredito nisso! Meu irmão é um boneco?"

           Toquei em seus braços, mexi em suas pernas. Apertei sua barriga pra ver se fazia barulho. Nada. Decidi brincar e deixar aquilo de lado.
           
            Enquanto me distraía com os brinquedos, alguma coisa se arrastou lentamente. Era o Bob que escorregou pela parede da cama e ficou deitado.

            A tarde toda nosso pai não apareceu. Ficamos só eu e o Bob.

            Caindo a noite, ele voltou com frascos na mão, me colocou na cama e levou o Bob para o banheiro.

            Dei alguns passos silentes pra fora do quarto e fui até a sala. Vi que a porta do banheiro estava aberta e o chuveiro ligado:

           "E essa agora? O cara tá dando banho no boneco? Esse cara não é casado não?"

            Aproveitando que ele estava ocupado, fui rapidamente até o seu quarto. Lá havia uma cama de casal, um guarda roupa, uma escrivaninha com alguns papéis e duas fotos emolduradas.

            Em uma delas ele estava com uma linda mulher. Em outra era a foto de uma criança recém-nascida com enxoval azul.

            Quando o chuveiro parou de chiar, voltei para o meu quarto sem fazer ruído. No auge da minha curiosidade, fiquei espreitando pela porta entreaberta.

            Meia-noite ele regressou. Não o questionei sobre a estranheza de suas ações. Bob e eu fomos postos na cama. Cada um em uma. Nosso pai nos cobriu e disse:

            “Boa noite, meninos!”. Em seguida apagou a luz e fechou a porta.

             Tentei dormir, mas o boneco ficou com os olhos voltados pra mim. E só de lembrar me dá pavor.

              Não conformado com aquilo, pulei da cama, acendi a luz e admirei o boneco. Incomodado com seu olhar em minha direção, virei-o para a parede, apaguei a luz, e voltei pra cama.

            Um ruído me despertou no meio da noite. Quando olhei para o boneco, ele havia voltado a posição de minutos atrás:

            “Meu Deus! Quem virou essa porcaria?”

            Levantei-me e coloquei-o com o rosto para a parede novamente.

            Ouvi a porta da entrada se abrir. Observei pelo buraco da fechadura do meu quarto. Era meu pai adotivo saindo apressadamente com uma maleta. Sua expressão era de angústia.

            Em sua ausência, fui outra vez até seu dormitório. Abri seu guarda roupa e percebi que não havia nenhuma roupa de mulher.

            Numa gaveta com mais papéis, achei uma certidão de óbito que datava duas semanas atrás. A mesma dizia que sua esposa morrera no parto de uma criança, que também faleceu.
         
            De repente um barulho abafado. Pensei que o homem já havia retornado, mas a porta continuava fechada. Saí apressadamente do dormitório dele deixando tudo como antes e fui para o meu. Ao chegar, encontrei o boneco caído no chão do quarto com as mãos estendidas para a porta.

            Estremeci diante da cena:

           "Isso é impossível! Como essa porcaria veio parar aqui?"
             
            Tentei coloca-lo na cama outra vez. Ele pesava muito e não pude erguê-lo por muito tempo. Com muito esforço, o pus sobre o leito e dessa vez o cobri por inteiro, dos pés ao rosto.

            Fiquei alguns minutos olhando para ele e decidi apagar a luz e deitar-me novamente.

            De madrugada, acordei com novo barulho. Agora Bob estava sentado, mas sem se apoiar na parede da cama.

            Aquilo me fez gemer de medo. Juro que coloquei o boneco deitado.  Chamei por meu pai, mas não tive resposta. A casa estava vazia.

            Com raiva fui até o boneco, desferi alguns golpes, depois o joguei no chão e disse:

            “VOCÊ É SÓ UM MALDITO BONECO! POR QUE NÃO ME DEIXA DORMIR, CARAMBA! QUE DIABOS É VOCÊ AFINAL?”

            Essa minha última frase me fez criar várias teorias, e sob impulso do mistério, arrastei-o com dificuldade até o quarto do meu pai que não havia regressado.

            Eu iria deixar o boneco no quarto do meu pai, trancaria minha porta e dormiria longe daquela coisa.

            Chegando lá, deixei o boneco no chão mesmo. Antes de sair, quis olhar alguns papéis na escrivaninha. Onde teve dois em especial que não me dei conta.

            O primeiro era o orçamento de dois caixões.

            O último que era um laudo médico de uma criança que contraiu uma grave doença. O nome da criança era Bernardo Onório Bezerra:

            "Meu Deus! Essas iniciais formam o nome BOB!"

            Imediatamente antes que eu lesse eu o final do documento, fortes mãos me ergueram com violência pelo pescoço. Era ele! Era o boneco! Era BOB!

           Eu me sacudia com todas as forças. Minha voz nem saía de tão forte que ele me estrangulava.

           Sua pele já não era tão branca. Seu olhar como um par de luas novas. Sua boca estava cerrada com os dentes amostra. Ela rangia com raiva mortal!

            Ele foi me levando para fora do quarto, carregou-me até a varanda e me empurrou contra a grade pra que eu caísse lá embaixo.

           Eu estava quase pendurado sobre a varanda. Era o meu fim! E tudo que eu queria era uma família normal!

           Num derradeiro esforço, lhe desferi um chute na cabeça e puxei-o rapidamente, o que fez com que a grade se rompesse e ele escorregasse. Ficamos ambos suspensos.

           Enquanto eu tentava obter forças pra sair do beiral da varanda, ele puxou minha perna. Parecia que iria arrancá-la. Chutei-o várias vezes, até que ele se soltou no ar. Porém, antes de se chocar com o chão, ouvi um sonoro grito durante a queda fatal:

                “AAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHH!!!”

            E desfez-se no chão com o impacto.

            Saí da varanda e por um momento lembrei das reuniões do sr. Euclides. Aquilo me fez gritar de pavor. Fiquei sentado no sofá.

            Depois de quinze minutos meu pai adotivo chegou com a mesma maleta. Ele me olhou com descrença. Porém ao ver a luz do seu quarto acesa e a varanda com a grade quebrada, correu para o meu quarto.

            Vendo que o boneco não estava lá, foi até a varanda. A cena que ele viu fez com que ele soltasse um berro desesperador.

            Desta vez eu decidi abrir a boca e falar-lhe:

            “Ei! Por que o senhor me deixou sozinho com esse boneco amaldiçoado?”

            De repente ele deu um pulo, afastou-se de mim com o maior assombro que pude ver em toda a minha vida. Ele se apavorou tanto que se jogou da janela. Tentei correr até ele para impedir, mas já era tarde.

            No salto ele deixou a maleta cair. Ela se abriu com a queda. Continha uma pequena carta, seringas e frascos de medicamentos fortíssimos.

            Na carta estava escrito:

            “Caro sr. Roberto,

           Lamento muito pela perda da sua esposa no parto do seu segundo filho. Sei que vocês sonhavam em ser uma família normal. Contudo, a doença do Bernardo se agravou muito depois disso e creio que você faz muito bem ao se dedicar em cuidar dele. Porém, não creio que sua atitude foi muito lúcida. Entendo que ela foi feita no desespero de sua solidão e porque você não queria que o BOB sentisse a perda da mãe e do irmão. Quando você me deixou sua carta pela manhã dizendo que se desfaria do berço por uma cama de menino muito me assustei. Então se receber essa carta, espero que não tenha concluído sua ação.

             De seu psicólogo e amigo,
                     Dr. Russel.

            Após ler a carta, me angustiei como nunca na minha vida. Corri até a escrivaninha para ler qual era a doença da criança.

            Ela possuía CATALEPSIA. As vezes se movimentava por lances curtos. Mas quando o transe passava, despertava com extremo nervosismo.

            Foi então, que já em pavor delirante, eu vi na maleta o papel que o sr. Euclides entregara ao homem antes de partimos. E o que li fez com que eu me olhasse no espelho e também quisesse me atirar da varanda.

           Era um comprovante de uma compra que dizia:

                       A LOJA DE *BONECOS* DO SR. EUCLIDES AGRADECE À PREFERÊNCIA!"


Leandro Severo II
Enviado por Leandro Severo II em 07/10/2019
Código do texto: T6763806
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Sobre o autor
Leandro Severo II
São Paulo - São Paulo - Brasil, 26 anos
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Leandro Severo II