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Os comedores de carne

PERGUNTO a ti, meus amigos, se esse belo exemplar aqui exposto não é admirável. Percebam bem os dentes salientes, alinhados, perfeitos. E vejam a perfeição com que ele nos olha, cavalheiros. Perceba como é horrível o seu semblante de medo, como nossa caça treme ante nosso olhar faminto.

Tenho pena de alguns de nós, covardes. Afinal, se nossa sociedade nos devora, por que não a devorar de volta? Não é como Darwin coloca, a sobrevivência do mais apto? não somos mais fortes socialmente e ainda mais que essa criatura, que saliva medo e desespero?

Não gosto de comida covarde. Deu um trabalho danado tirar de seu habitat esse ser escabroso. Traz-me à garganta um nojo ancestral em saber que todos vamos nos banquetear desse desgraçado e comer deles as virtudes que não temos e nem ele mesmo teria. Imaginamos que a comida nos traz emoções, então não devo comer um pepino com medo de morrer de tédio!

Tenho dó dos hipócritas que imolam o corpo de Jesus; deles vêm o nosso desejo de consumar a carne em suas últimas conseqüências. Claro, o sabor da podridão de um morto não é a mesma coisa de comer algo ainda vivo, como fazem os malditos histriões. Em sua cólera, arrancam a carne e ainda recebem o fruto dos esqueletos carcomidos.

Vejo que tens medo, meu querido. Sim, tenha. Tenha medo de ser livre, após rachar teu crânio com uma marreta. E ver seu sangue formar coágulos arroxeados em torno de onde desferi o golpe. Sinta nossas presas entrando nessa carne tenra, temperada com todo o seu sofrimento futuro. Devoramos cada fibra de músculo, na tentativa de achar o humano que falta em nós.

Descansa em paz, pobre infeliz.
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 02/10/2007
Código do texto: T676862

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Sobre o autor
Fabio Melo
Santo André - São Paulo - Brasil, 33 anos
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Fabio Melo