Não se sabe de que tropa ele era ou foi. Se do exército, da polícia, marinha ou aeronáutica. O fato é que ninguém jamais o vira fardado, nem como adquirira a patente que ele ostentava. Mas todos o conheciam como Capitão. Era o Capitão Maneco.
Talvez fosse apenas apelido. Afinal, na cidade havia também um sargento Zacarias, um coronel Salustiano, o brigadeiro Farias, o Cabo Lua, e nenhum deles, a que se saiba, jamais vestira uma farda oficial na vida. Talvez fossem da antiga Guarda Nacional, aquela milícia que existia nos tempos da Velha República, que costumava distribuir patentes militares aos homens importantes das comunidades.
Todos ostentavam essas patentes, da mesma forma que o Almirante, velho cantor e compositor de sambas, ou aqueles apresentadores de programas sertanejos que gostavam de adotar nomes artísticos baseados em patentes militares. Os mais antigos certamente se lembrarão do Capitão Barduino, do Comendador Biguá, do Capitão Furtado, do Cabo Pitanga, e outros simpáticos radialistas que apresentavam programas sertanejos nas madrugadas paulistanas. Alguns pertenceram à Guarda Nacional, outros incorporaram as patentes aos seus nomes, ou apelidos, só para adquirir fumos de autoridade.
 
O Capitão Maneco não era radialista nem apresentador de programas sertanejos. Ele era, na verdade, um sujeito bonachão, que trocava figurinhas de jogadores de futebol com a molecada, batia bafo nas calçadas com eles, rodava pião, jogava gude e empinava pipas como se fosse ele também, um moleque.
Por isso, e por outras coisas a criançada o adorava.
Possuia um forde bigode, que era usado às vezes como ambulância, táxi, caminhão para transportar mudanças, etc. Servia para tudo a charanga dele. Todo mundo que precisasse de transporte para alguma coisa o chamava. E ele nunca negava. E também nunca cobrava nada de ninguém. Só votos na época das eleições. 

Dessa forma ele sempre era eleito. Foi vereador por seis legislaturas seguidas e chegou a ser vice-prefeito duas vezes. Sua popularidade era inconteste e ele se sentia o mais amado dos cidadãos da sua comunidade.
 
Até o dia em que lançou a sua candidatura a prefeito
e não conseguiu se eleger. Foi vencido por apenas dez votos. O povo preferiu eleger o Dr. Belizário, um advogado da cidade, que de há muito era adversário político do Capitão. 
Ele ficou muito magoado com o povo da cidade. Afinal de contas, toda a vida dele fora dedicada a servir a comunidade. E na hora que mais precisou, o povo a quem ele ajudou durante uma vida inteira o preterira em favor de um sujeito que jamais tinha feito nada por ninguém, a não ser enganar as pessoas, como ele dizia, como todos os advogados estão acostumados a fazer. 
Sua mágoa era tão grande que degenerou numa úlcera gástrica enorme que ele só conseguia controlar à custa de muito medicamento.  Por conta disso, o Capitão Maneco se tornou, de fato, uma pessoa muito amarga. Já não era mais aquele sujeito bonachão, que nos Sábados de Aleluia fazia bonecos de pano e amarrava nos postes para a molecada malhar como Judas. E depois da malhação jogava um monte de balas para os garotos. Parou de brincar com os meninos na rua e nunca mais emprestou seu forde bigode para ficar levando gente para o hospital ou transportar bujões de gás, cadeiras de rodas e outras coisas que ele costumava levar para as pessoas. 
Também deixou de praticar o ato que durante mais de trinta anos era o acontecimento mais marcante nos natais da cidade: a distribuição de brinquedos que ele fazia para as crianças pobres e o grande almoço que ele patrocinava para elas, armando uma enorme mesa na rua onde ele morava e chamando todas as crianças da cidade para comer a melhor refeição que elas tinham no ano. 
 
Ele era dono do único cinema da cidade. Uma sala bem grande com mais de quinhentas cadeiras de madeira. Ficava na bilheteria vendendo os ingressos, e quando a lotação passava dos cinqüenta por cento,  ele costumava deixar os garotos pobres, que não tinham dinheiro para comprar ingressos, entrar de graça. Por isso, todos os dias era aquele monte de garotos na porta do cinema esperando o Capitão Maneco abrir a porta lateral da sala para eles entrarem.
Depois que perdeu a eleição para prefeito essa benevolência que ele tinha para com a garotada pobre da cidade também foi cortada. Levou um bom tempo e custou alguma violência por parte dos dois seguranças do cinema, (um ex-policial expulso da corporação da Guarda Civil, um crioulo fortão chamado Landão, e outro sujeito mal encarado conhecido como Clidão, cuja mão, segundo os garotos, pesava mais que um paralelepípido), para que eles deixassem de se aglomerar na porta do cinema, esperando a hora do Capitão liberar a entrada para eles. 
A mudança de comportamento do Capitão logo foi notada na cidade. E não foi perdoada nem entendida. Ao contrário, ele, que era uma pessoa querida e admirada por todos, logo passou a ser “persona não grata” em praticamente todos os lugares aonde ia. Diga-se, a bem da verdade, que eram poucos os lugares em que ele costumava aparecer, desde que perdera a eleição. De fato, ele desenvolvera uma ojeriza tão grande pelas pessoas da cidade, as quais, na sua ótica, o haviam traído, que já não fazia questão de vê-las. Parecia um ermitão, que ia da casa para o cinema, do cinema para casa, sem cumprimentar nem falar com ninguém.
Para agravar ainda mais o caso, Dona Virgínia, a esposa do Capitão, que já era uma pessoa reclusa por natureza, tanto que muita gente achava que ela nem existia, faleceu logo depois do desastre eleitoral que vitimou o marido. Foi enterrada tão discretamente, que pouca gente na cidade soube do fato. E assim, o Capitão Maneco, que antes desse infausto acontecimento, já entrara naquele processo de autodestruição do seu eu social, depois da morte da esposa, tornou-se um eremita de fato.
Com as poucas pessoas com quem ainda conseguia conversar, o assunto não era outro: a abjeta traição do povo a quem ele sempre ajudara. “Um bando de Judas”, rematava ele, com amargura.
 
Com o tempo, quase mais ninguém conseguia ver nem se comunicar com o Capitão. Ele só era visto toda semana na farmácia, comprando os medicamentos para a sua úlcera, que segundo o farmacêutico, estavam sendo usados por ele em doses cavalares. O dono da farmácia, aliás, já sabia de cor os tipos de medicamento que ele tomava e toda semana já deixava separada a caixa com os remédios, que ele pegava silenciosamente e pagava, sem dizer uma única palavra.
Por isso não provocou nenhuma comoção na cidade a notícia da morte do Capitão Maneco. O farmacêutico disse que não entendia como aquele homem conseguira viver tanto tempo com aquelas doses cavalares de antibióticos e analgésicos que ele tomava. A última vez que o vira, disse o farmacêutico, ele parecia mesmo uma múmia ambulante. Era pura pele e osso. Um verdadeiro esqueleto coberto com uma película que mais parecia papel celofane. Brilhante e enrugada como um pergaminho, cheia de manchas escuras, como se estivesse enferrujando aos poucos. Ele era uma figura tão estranha, que se fosse encontrada à noite num beco escuro, certamente seria tomada por uma assombração, ou um defunto recentemente exumado. Uma espécie de "walking dead" andando pelas ruas, à procura da sua alma perdida.
Na verdade, a cidade inteira sentiu alívio com a morte do Capitão. Ele havia se tornado muito inconveniente nos últimos tempos com aquele ódio que desenvolvera pelas pessoas. Falava a quem o escutasse que fizera um pacto com o demo para vingar-se do povo da cidade. Que até já barganhara a sua alma por conta daquela prerrogativa. E nos últimos dias da sua vida alguém o ouvira dizer que já não tinha mais alma, e que era somente o seu corpo que ainda andava pelo mundo, esperando a hora da vingança. "A alma" dizia ele, "o demo já havia levado". 
Claro que todo mundo achava que o Capitão havia ficado louco. Que o ódio havia destruído não só o seu estômago com aquela úlcera, mas também o seu cérebro havia sido prejudicado por conta de todos os remédios que tomava. Por isso vivia falando aquelas bobagens. Mas também havia aqueles que tinham medo e por isso, quando souberam da sua morte , ficaram extremamente aliviados. Um deles era o Dr. Belizário, que não obstante ser um advogado, e por isso mesmo, um homem inteligente e preparado, não conseguia refrear aquele arrepio na espinha quando via passar em frente da sua casa aquela múmia ambulante em que se tornara o Capitão Maneco. E aquele olhar de ódio que ele lhe dirigia o deixava doente pelo menos por três dias.
 
O senhor Manuel de Camargo, que era como de fato se chamava o Capitão, havia enviuvado dois anos antes da sua morte e tinha apenas um filho, que herdou todos os seus bens, inclusive o cinema. Mas como tinha os próprios negócios e vivia na capital, o rapaz resolveu vendê-lo. Quem o comprou foi justamente o Dr. Belizário. Afinal, o cinema era um bom negócio. Além de ser o único da cidade, não havia outras opções de lazer ali. Principalmente nos fins de semana, as quatro sessões do dia estavam sempre lotadas. 
Não havia se passado mais seis meses do enterro do Capitão, quando um acontecimento infausto provocou um grande trauma na cidade, enchendo de tristeza e luto várias famílias daquela comunidade. Era um sábado, e o cinema estava completamente lotado, pois justamente naquela noite estava passando um filme do Mazzaropi. Os filmes do famoso humorista caipira eram a maior bilheteria da época. Nenhum clássico de Hollywood conseguia levar mais gente aos cinemas do que ele. E naquela ocasião todas as quinhentas e tantas cadeiras da sala estavam ocupadas. 
De repente o teto do cinema desabou. Praticamente a laje toda, de uma só vez, caiu sobre a multidão feliz e sorridente com as trapalhadas do Mazzaropi. Toneladas de ferro, concreto e tijolos, sem qualquer motivo aparente, sepultaram as quinhentas e tantas pessoas que estavam na sala, sem dar tempo para que nenhuma delas escapasse.
Foi uma coisa tão rápida e instantânea, que ninguém teve tempo de esboçar qualquer reação. Oitenta e seis pessoas morreram no ato, vinte e três mais tarde, por causa dos ferimentos, e das demais, que escaparam da morte, nenhuma delas saiu sem um machucado. Muitas ficaram aleijadas pelo resto da vida.
Nem os bombeiros, nem a polícia, nem os peritos contratados para apurar a causa do desabamento conseguiram dar qualquer resposta técnica para o fato. Todos foram unânimes em informar que não havia defeito na construção nem qualquer outro problema de conservação que pudesse ter causado o acidente. O Dr. Belizário, ainda que não tenha sido responsabilizado criminalmente pelo acidente, teve, no entanto, por força de decisão judicial, que suportar os custos do enterro da maioria das vítimas e o tratamento dos feridos. Ficou praticamente reduzido à miséria. E houve quem dissesse que ele também ficara louco depois disso, pois vivia dizendo a todo mundo que quem derrubara o cinema em cima do povo fora o Capitão Maneco.
 
Transcorridos mais de dez anos desse terrível acontecimento, a cidade praticamente se esquecera do fato. Ninguém sequer se lembrava mais do Capitão Maneco nem falava do acidente do cinema. Até que um dia, vários anos depois, faleceu o filho do Capitão e ele foi levado a sepultamento na tumba da família. Era uma tumba de três gavetas, que já estavam ocupadas, razão pela qual a família pediu à administração do cemitério que removesse para o ossário os ossos dos três defuntos ali sepultados.
Quando abriram o esquife do Capitão, os coveiros estranharam o fato de o corpo dele estar virado de bruços, em posição completamente diferente daquela em que um defunto costuma ser enterrado. Mas o que arrancou deles um grito de horror e depois um pedido de demissão daquele emprego foi o que eles presenciaram em seguida, quando viraram o corpo do defunto. Pois ele estava exatamente igual ao dia em que o enterraram. O corpo não havia se decomposto e apresentava aquela mesma aparência mumificada que  apresentava em seus últimos dias de vida. Mas o que os assustou ainda mais foi o sorriso diabólico que ele ostentava nos lábios.
 
Dizem que existem duas formas para uma pessoa virar corpo seco depois de morto. Uma é bater na mãe. Outra é morrer com o coração cheio de ódio. Embora os legistas tenham escrito que o corpo do Capitão não se decompôs por causa dos medicamentos que ele tomava, há quem  sustente que ele virou múmia pelo fato de ter morrido odiando Deus e o mundo. Houve até gente que jurou de pés juntos ter visto o Capitão Maneco andando pelas ruas da cidade na noite em que o cinema desabou, soltando horripilantes gargalhadas, como um demônio que acabou de enganar o próprio Jeová.
O prédio foi demolido no início dos anos setenta. Não sobreviveu à concorrência da televisão. Quanto ao cadáver do Capitão, uns afirmam que foi cremado, outros dizem que foi levado para uma floresta e amarrado à uma árvore, como manda a tradição que se faça com os mortos vivos. Quando a árvore seca, dizem, o corpo também vira cinzas e alma do defunto encontra, finalmente, a paz.
 
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 18/11/2019
Reeditado em 20/11/2019
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