Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Zirtaeb

ZIRTAEB

Minha prima estava sentada na varanda da casa de sua mãe, o olhar meio perdido em direção às laranjeiras que, naquela época do ano, estavam cobertas de flores. Ela pareceu não notar minha presença, apesar de eu não ter chegando em silêncio. O toc-toc das ferraduras do cavalo que eu montava seria mais que suficiente para chamar a atenção do mais distraído dos seres; Beatriz,porém, nos ignorou por completo. Resolvi falar com ela:
– Boa tarde, Beatriz, tudo bem?
Ela não moveu um músculo sequer. Aliás, não parecia estar ali, os olhos fixos em algum ponto entre as laranjeiras. Fiquei em dúvida se ela estava viva ou não; cheguei mais perto e percebi que ela estava respirando, a julgar pelo movimento de vai e vem de seu ventre. O rosto estava rijo, os lábios cerrados. O mais intrigante é que ela não piscava os olhos. Tentei não piscar também, forcei a vista fixando no branco das flores; em menos de um minuto, no entanto, minha visão turvou-se e uma pocinha de lágrimas se acumulou nos cantos dos olhos.
Beatriz integrava o núcleo rico de nossa família; já eu, pertencia ao outro. Coisas da vida. Caçula de sete irmãos, ela sempre teve todos os seus desejos atendidos, desde os brinquedos mais modernos na infância até a autorização para se casar com um sujeito de caráter duvidoso, quando tinha apenas dezessete anos. Após o casamento, eles se mudaram para uma cidade vizinha, a contragosto dos pais. Nos primeiros meses, Beatriz costumava visitar a família uma vez ao mês, mas depois que o primeiro filho nasceu, ela simplesmente sumiu. Depois de um tempo, nem mesmo as ligações ela atendia.  Quando Marcelo, o mais novo dos três filhos de Beatriz nasceu, o marido saiu de casa para morar com outra mulher. Não se sabe ao certo o que houve, mas foi a polícia quem encontrou as crianças sozinhas em casa, sem comida, após a denúncia de um vizinho. Eles trouxeram as crianças para casa de tia Edna, mas Beatriz só foi encontrada dois meses depois, vivendo na rua, embaixo de um viaduto, próximo à rodoviária de Vitória.  Eles a trouxeram para casa e desde então, ela passa os dias sentada na varanda.
Apeei do cavalo e olhei novamente para Beatriz; ela continuava em estado de inércia. Então, seus cabelos começaram a balançar com o vento que soprou repentino; estranhamente, nada além de seus cabelos estava se movendo. Eu não sentia o vento também; mas talvez fosse apenas uma corrente de ar, pois todos os fios pararam de se movimentar da mesma forma que começaram, abruptamente.
– Beatriz! – chamei novamente, mas ela não respondeu.
Tia Edna chegou na porta segurando alguns talheres e um pano de prato.
– Ei Bruna, você que está aí? Pensei que fosse o Zeca.
– Ei tia! Estou treinando o Valente para a cavalgada, ele não está muito acostumado com multidões. Vou lá no campo, tem torneio hoje. Só passei mesmo para ver a senhora e a Beatriz.
– Ela está aí desde cedo, comeu nada hoje, nem conversou! Está aí parada, olhando não sei o quê.
– Mas ela continua com o tratamento, sim? Aquele médico é muito bom!
– Dizem que é sim. Mas daqui a pouco a dona Ana vem aqui para benzer essa menina. Tenho fé que ela vai melhorar...
Eu não acredito em benzedeiras, nem em curandeiros ou qualquer coisa do tipo. Acredito na ciência, na medicina. Mas reconheço a eficácia do efeito placebo ou da fé.
– Você não acredita, não é mesmo? – provocou tia Edna.
– Eu acredito no que foi pesquisado e comprovado pela ciência. Só isso.
Tia Edna sorriu e mudou de assunto.
– E a faculdade?
– Ah, mais um semestre e estarei formada!
– Que bom, você terá muito serviço por aqui! Difícil encontrar um veterinário bom nas redondezas.
Tia Edna entrou e disse que iria preparar um café para nós. Eu estava segurando o Valente pelo arreio, pois ele estava desinquieto desde que chegamos. Assim que tia Edna entrou, Beatriz olhou para mim e soltou uma risada curta e estridente. Valente, assustado, relinchou e empinou as patas dianteiras; ele começou a andar de ré para o lado oposto, muito agitado; eu mal conseguia segurar o arreio. Então, Beatriz falou com uma voz que não era sua:
– Não é você quem eu quero, mas para começar, serve!
Eu não sei para quem ela falou, mas o Valente deve ter entendido que era para ele, pois se soltou de minhas mãos e saiu em disparada pela estrada. Tentei gritá-lo de volta, mas foi inútil. Então, corri para ver ao menos a direção que ele estava tomando. Foi então que encontrei dona Ana que havia caído sobre um arbusto ao se desviar do cavalo em fuga.
– A senhora se machucou? – perguntei ajudando-a a levantar-se.
– Nada, apenas uns arranhões.
Ela limpou a barra do vestido que estava cheia de ciscos e pegou a sacola que estava no chão. Depois, me olhou da cabeça aos pés:
– Você é a filha da Tiana, não é?
–Sim, eu mesma!
– Hum, - resmungou ela. – Até daqui a pouco, mocinha.
Se eu não estivesse com tanta pressa e tão preocupada com o Valente, eu teria tentado entender o que ela quis dizer; mas eu tinha coisas mais importante para fazer no momento. Caminhei um pouco mais para ver que direção ele havia tomado; pelos rastros, tinha pegado mesmo a estrada principal. Tomara que nenhum carro viesse em alta velocidade.
Voltei para me despedir de tia Edna. Quando entrei, ela, dona Ana e Beatriz estavam sentadas à mesa. Olhei com ódio em direção a Beatriz; meu cavalo estava perdido e a culpa era dela. Falei com a tia que eu iria caminhar até o campo e pegar uma moto ou cavalo emprestado para procurar o Valente.
– Por que você não liga lá para a vendinha do campo? O Zeca deve estar lá. Ele vem e te ajuda.
Aceitei de bom grado a oferta, pois não estava afim de caminhar um quilômetro até a venda. Fui até a cozinha onde ficava o telefone, os números escritos em uma agendinha. Por sorte, consegui conversar com o Zeca. Ele disse que em dez minutos viria me buscar.  Quando eu voltei para a sala, onde estavam as três mulheres, vi a cena mais estranha da minha vida até então: tia Edna estava caída perto da mesa, contorcendo-se de dor, o supercílio sangrando.  Os cabelos de Beatriz estavam todos em pé, como se tivessem sido arrumados no melhor estilo punk dos anos 80; os olhos estavam vermelhos e suas mãos estrangulavam o pescoço de dona Ana.
– Ajuda, Bruna! – gritou tia Edna.
Ajudar como? Meus músculos estavam travados, não conseguia me mover! Então, dona Ana me encarou e seus olhos castanhos mudaram de cor, para um preto intenso. Com o pouco de ar que era capaz de passar em sua garganta, ela gritou:
– Tiana!
Ouvir o nome de minha mãe naquela situação foi realmente estranho. Mais estranho, porém foi o que fiz na sequência: agarrei Beatriz pelo pescoço e apertei. Então, ela soltou dona Ana que caiu quase sem fôlego ao chão, e relaxou o corpo. Eu a soltei. Ela virou-se para mim, os olhos vermelhos.
– Quem é você? – perguntei.
Com a voz que não lhe pertencia, ela respondeu:
– Eu sou o oposto de Beatriz.
Beatriz então começou a se contorcer, os cabelos voltaram ao normal e ela caiu ao chão, molhada de suor.
– Bruna? O que aconteceu? – perguntou como se não fizesse a menor ideia do que acabara de acontecer. – Mãe? Dona Ana? Bruna, o que houve?
– Você passou mal, Beatriz, desmaiou. A tia e a dona Ana tentaram te segurar, mas acabaram caindo. Só isso.
Ajudei Beatriz a se levantar. Dona Ana, estava muito bem para uma pessoa que havia acabado de ser estrangulada; ela estava acudindo tia Edna. Olhei para ela com uma interrogação, eu queria uma explicação lógica para o que acabara de acontecer. Mas então, o Zeca entrou, com uma cara muito assustada.
– O que houve aqui? – perguntou ele.
– A Beatriz passou mal... – comecei a dizer.
– Não, - interrompeu ele. – Estou falando do seu cavalo, o Valente.
– Você o encontrou? – perguntei.
– Sim, ele está ali fora. – falou confuso.
Então eu saí para ver. Valente estava caído, sangrando pela boca e ouvido. Corri para ver se ainda estava vivo.
O Zeca então, me segurou pelo braço, os olhos vermelhos, a gargalhada estridente. E, com a mesma voz que tinha falado em Beatriz, disse:
– Eu nunca volto de mãos vazias! Nos veremos em breve!
Zeca me soltou, sem ter qualquer ideia do que acabara de falar.
– Sinto muito, Bruna. Deixa que eu vou cuidar disso para você. – disse ele.
Da varanda, dona Ana me observava.
– Tiana! – repetiu ela.
Outro dia, outra hora, eu encontraria uma explicação para aquilo tudo. Mas naquele momento, eu só queria fugir dali. Peguei a moto do Zeca e disparei em direção à minha casa.



Ivone Lino
Enviado por Ivone Lino em 03/12/2019
Código do texto: T6809935
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

Comentários

Sobre a autora
Ivone Lino
Pancas - Espírito Santo - Brasil
2 textos (74 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 13/12/19 08:01)
Ivone Lino